Introdução
O que é responsabilidade social corporativa? Qual o impacto da responsabilidade social no negócio das empresas? Por que a mídia, as empresas e as pessoas falam tanto em responsabilidade social empresarial? Atualmente muito tem se falado sobre o tema responsabilidade social, mas observa-se que muitas pessoas ainda não conhecem o seu verdadeiro significado. Ainda existem dúvidas da diferença entre ação social e responsabilidade social.
As ações sociais costumam ser externas, pontuais, voltadas para um único público (comunidade) e normalmente são ações assistencialistas, muitas vezes, mantendo a exclusão social. A responsabilidade social corporativa ou empresarial tem a preocupação com todos os públicos envolvidos, não somente a comunidade, e deve estar incorporada na gestão estratégica da empresa e fazer parte de sua missão, visão e valores. Na área social, são programas transformadores que buscam a inclusão social. Na década de 90 começou a surgir com força no Brasil o conceito de sustentabilidade e de responsabilidade social corporativa:
• Sustentabilidade é “atender as necessidades da geração atual, sem comprometer a capacidade das gerações futuras de atenderem as suas”, conforme definição esboçada em 1987 por um documento publicado pela Comissão Mundial de Meio Ambiente e Desenvolvimento chamado Our Common Future;
• Responsabilidade corporativa é o caminho da sustentabilidade por parte das corporações. O “foco em sustentabilidade” é traduzido em uma gestão que lida com demandas eventualmente conflitantes na busca pela integração de questões econômicas, sociais e ambientais e pelo equilíbrio de interesses em curto e longo prazo.
Para entender melhor esta evolução vale lembrar do cenário passado, em que o lucro justificava tudo, havia a exploração e degradação o meio ambiente, além do consumo irresponsável de recursos naturais, a exploração de mão-de-obra barata, migrante e infantil, desrespeito aos funcionários péssimas condições de trabalho, sonegação de impostos, desrespeito o cliente (falta de informações sobre os produtos, publicidade agressiva), falta de segurança no consumo e manuseio e desrespeito às comunidades em que as empresas estavam inseridas.
No cenário atual temos um maior nível de informações dos clientes/consumidores, ocasionada pela globalização e outros recursos como, por exemplo, a internet. Com isso os consumidores se tornaram mais exigentes. Com a maior conscientização, o preço tende a não ser mais fator de escolha e sim, a qualidade, a postura e a ética das empresas. A experiência tem mostrado que as empresas socialmente responsáveis são mais lucrativas e duradouras, conseguem melhor atrair e reter talentos, têm a preferência dos consumidores e melhor acesso a mercados, financiamentos e investimentos.
Gerir a responsabilidade social implica em a empresa:
• Dar retorno aos acionistas;
• Desenvolver, valorizar e propiciar a realização profissional dos empregados;
• Atuar com ética e transparência (e incorporar ao planejamento das atividades da empresa);
• Valorizar a comunidade em que está inserida;
• Preservar o meio ambiente;
• Satisfazer clientes e consumidores;
• Promover diálogo com funcionários, fornecedores, governo e sociedade em geral.
Adotar critérios de responsabilidade social na gestão estratégica dos negócios significa “tornar a empresa parceira e co-responsável pelo desenvolvimento social e pela saúde ambiental do país”.
Responsabilidade social empresarial
Segundo definição do Instituto Ethos de Responsabilidade Social: “Responsabilidade Social Empresarial ou Corporativa é a forma de gestão que se define pela relação ética e transparente da empresa com todos os públicos com os quais ela se relaciona e pelo estabelecimento de metas empresariais compatíveis com o desenvolvimento sustentável da sociedade, preservando recursos ambientais e culturais para gerações futuras, respeitando a diversidade e promovendo a redução das desigualdades sociais”.
A Responsabilidade Social Empresarial (RSE) é uma forma de conduzir os negócios que torna a empresa parceira e co-responsável pelo desenvolvimento social. A empresa socialmente responsável é aquela que possui a capacidade de ouvir os interesses das diferentes partes (acionistas, funcionários, prestadores de serviço, fornecedores, consumidores, comunidade, governo e meio ambiente) e conseguir incorporá-los ao planejamento de suas atividades, buscando atender às demandas de todos e não apenas dos acionistas ou proprietários.
Para auxiliar as empresas a gerenciarem os impactos sociais e ambientais decorrentes de suas atividades, o Instituto Ethos criou os Indicadores Ethos de Responsabilidade Social Empresarial, que representam uma ferramenta de gestão. Além de ser um instrumento de auto-avaliação, servem como uma ferramenta de planejamento, sugerindo parâmetros de políticas e ações que a empresa pode desenvolver para aprofundar seu comprometimento com a RSE. São eles: Valores e transparência (valores e princípios éticos, relações transparentes com a sociedade); Funcionários e público interno (investir no desenvolvimento pessoal e profissional, melhoria das condições de trabalho e estreitamento das relações com os empregados); Meio ambiente (gerenciamento do impacto ambiental, minimizando ações próprias potencialmente agressivas ao meio ambiente); Fornecedores (critérios de seleção de fornecedores, apoio ao desenvolvimento de fornecedores, transmitir os valores de seu código de conduta para a cadeia de fornecedores); Consumidores/clientes (alinhar-se aos interesses e buscar satisfazer as necessidades do cliente, a publicidade de produtos e serviços deve garantir seu uso adequado, informações adequadas nas embalagens, suporte para cliente antes, durante e após o consumo); Comunidade (relações com a comunidade local, filantropia/ investimentos sociais, voluntariado); Governo e sociedade (a empresa deve relacionar-se de forma ética e responsável com os poderes públicos, cumprindo leis e visando a melhoria das condições sociais e políticas) (1).
Neste artigo, dentro da visão de responsabilidade social empresarial, será abordado um dos principais públicos com os quais as empresas se relacionam: seus funcionários e colaboradores. Será abordado o tema promoção de saúde e qualidade de vida no ambiente corporativo.
Estudos têm demonstrado que o estilo de vida é o principal fator de qualidade de vida, saúde e longevidade, pois está intimamente relacionado ao bem-estar e à prevenção de doenças crônicas. Podemos afirmar que o estilo de vida impacta também o desenvolvimento sustentável, afetando positivamente a produtividade das pessoas e das empresas, a preservação do meio ambiente, o desenvolvimento cultural do país e a gestão dos serviços públicos de saúde e da previdência.
A qualidade de vida não é atingida somente com os melhores planos de saúde, os pacotes mais completos de benefícios ou com a realização de check-ups nos mais renomados laboratórios. Ter um estilo de vida saudável começa pela informação e o conhecimento. As pessoas precisam saber qual o impacto e como fazer para ter uma alimentação equilibrada, não fumar e serem mais ativas. Além disso, precisam ser motivadas e terem ambientes e oportunidades para praticarem os conhecimentos adquiridos. Diariamente, temos que fazer escolhas e opções. Construir um jeito de viver ativo, com prazer, com saúde e com disposição é um grande desafio.
Sem dúvida, tudo começa pelo diagnóstico. Temos que saber que fatores afetam a nossa qualidade de vida e que precisam ser melhorados. Nesse aspecto, não basta medir a pressão arterial ou dosar o nível de colesterol no sangue. Temos que conhecer como estamos em todas as dimensões de nossa saúde (física, emocional, social e espiritual). A partir daí conseguiremos lidar, de forma positiva, com questões afetas aos nossos relacionamentos, à pratica de atividades físicas, controle do estresse, alimentação e comportamentos preventivos.
A qualidade de vida é uma conquista das pessoas, algo cuja construção implica adoção de hábitos, de uma postura de ser e estar no mundo com o objetivo de viver bem, de viver com saúde e de viver com qualidade. Estudos realizados em empresas constataram uma alta prevalência de sedentarismo, problemas nas escolhas alimentares e estresse.
Assim, lidar com estas questões passou a ser estratégico nas organizações. Tem-se constatado também que a vida moderna traz muitas barreiras para as pessoas praticarem atividade física, alimentarem-se corretamente e gerenciarem o seu estresse. Assim, é fundamental que as pessoas tenham instrumentos práticos e eficazes para se conhecerem e buscarem uma vida mais saudável. Daí a importância das Unidades de Alimentação e Nutrição (UAN) nas empresas. Infelizmente os programas de qualidade de vida e promoção da saúde promovidos por empresas tendem a atrair principalmente as pessoas que já tomaram uma decisão sobre a mudança de comportamento e estão motivadas e comprometidas com as expectativas conseqüentes a essas práticas. As pessoas de maior risco têm que ser especialmente motivadas a buscar mudanças.
De acordo com a Organização Mundial da saúde (OMS), 80% dos casos das doenças cardiovasculares e diabetes e 40% dos casos de câncer poderiam ser evitados com um melhor estilo de vida, particularmente por meio de atitudes como prática de atividade física regular, não fumar e manter uma alimentação saudável (2).
No Brasil o interesse pela promoção da saúde e qualidade de vida teve início na década de 80 e tem continuado por três décadas, com ênfase progressiva na implementação de estratégias e programas dirigidos para o aprimoramento da saúde e estilo de vida da população corporativa.
Os conceitos de promoção da saúde e qualidade de vida são de difícil definição. Promoção da saúde é o processo de informar, educar e motivar as pessoas a uma gestão positiva de sua saúde e estilo de vida. Nos últimos anos as empresas perceberam que capacitar e manter uma força de trabalho motivada em cuidar de sua saúde é essencial e o caminho para os próximos momentos da saúde corporativa. Pela primeira vez existem evidências que nos permitem dizer que:
• Os fatores de riscos modificáveis (fumo, sedentarismo, má nutrição, obesidade, estresse excessivo
e qualidade das interações sociais) estão relacionados ao estado de saúde, incluindo morbidade e mortalidade;
• Os fatores de risco estão relacionados aos custos de assistência médica e de produtividade;
• Programas de promoção da saúde podem melhorar conhecimentos em saúde, atitudes e comportamentos e condições objetivas como força muscular, resistência cardiopulmonar, gordura corporal, pressão arterial, freqüência cardíaca, função respiratória, nível lipídico no sangue e sintomas emocionais e físicos conseqüentes do estresse;
• Muitos programas demonstram a capacidade de reduzir custos de saúde e taxas de absenteísmo, algumas vezes produzindo bons retornos sobre o investimento feito;
• Certas intervenções demonstram a capacidade de reduzir algumas condições leves de doenças cardíacas.
Apesar do crescimento científico dessa base de apoio à promoção da saúde, no Brasil ela ainda recebe pouca atenção da maioria dos grupos científicos.
Para que esse conceito seja efetivo, é necessário que os profissionais envolvidos adotem abordagens e direcionamentos mais equilibrados que incluam responsabilidade individual e comportamentos saudáveis.
Um recente livro publicado pela Associação Brasileira de Qualidade de Vida (ABQV) denominado Prêmio Nacional de Qualidade de Vida - A trajetória de uma década, demonstrou as práticas mais adotadas em programas de promoção da saúde e qualidade de vida. As ações de qualidade de vida que tiveram maior percentual de participação nas empresas são:
Neste levantamento, o conteúdo da ação de alimentação e nutrição abrange, principalmente:
• Alimentação saudável;
• Avaliação nutricional, orientação nutricional e individualizada e em grupo;
• Disponibilidade de cardápio para pessoas com restrição alimentar;
• Programa para redução de peso;
• Programa para redução da hipertensão/diminuição do sal na alimentação;
• Disponibilidade de alimentos no trabalho fora dos horários das principais refeições;
• Orientação nutricional para gestantes;
• Conscientização sobre desperdício de alimentos;
• Divulgação de receitas saudáveis;
• Reeducação alimentar (3).
Unidades de Alimentação e Nutrição (UAN)
Fica evidente o papel das UAN na promoção da saúde e qualidade de vida dos colaboradores das empresas. Com o aumento da preocupação com a saúde e qualidade de vida nas organizações, os restaurantes nas empresas passaram a ser vistos como provedores de saúde.
As refeições devem ser compostas por alimentos e preparações que contribuam para a saúde de seus usuários, prevenindo ou reduzindo riscos de enfermidades. Esta questão passou a ser estratégica nas organizações socialmente responsáveis.
Acredito que a missão de uma UAN é proporcionar saúde e descontração aos colaboradores da empresa, por meio do fornecimento de uma alimentação preparada com higiene e equilíbrio, dentro dos princípios da nutrição, atendendo às necessidades e preferências destes colaboradores e contribuindo para a sua qualidade de vida.
Devemos lembrar a Estratégia Global OMS sobre Alimentação Saudável, Atividade Física e Saúde: “As empresas podem adotar medidas direcionadas a enviar mensagens positivas e coerentes que facilitem e possibilitem a realização de atividades para promover a alimentação saudável e a atividade física. Os locais de trabalho são importantes para promover a saúde e prevenir as doenças. As pessoas devem ter possibilidade de adotar decisões saudáveis no local de trabalho”.
Principais recomendações sobre alimentação
• Alcançar um equilíbrio no balanço energético e manter um peso saudável;
• Aumentar o consumo de frutas, hortaliças, cereais integrais e frutos secos;
• Reduzir o consumo de gorduras saturadas e trans e substituí-las por gorduras insaturadas;
• Reduzir o consumo de açúcares livres;
• Reduzir o consumo de sal e que este seja iodado.
Assim, cabe ao nutricionista que trabalha em UAN, além da realização de atividades técnicas e administrativas inerentes ao serviço, o papel de educador. É dele a tarefa de orientar e educar, multiplicando os conceitos de nutrição, modificando o mercado e os fornecedores.
Existe a necessidade de um contato próximo e direto com os clientes, realizando um adequado marketing nutricional. Diante de tantas novidades e muitas informações, corretas e incorretas, sobre alimentação e nutrição, o público, em geral, encontra-se perdido. A mídia é um fator positivo ou negativo sobre o trabalho do nutricionista. Assim, é muito importante conhecer tudo que é vinculado por ela, para poder argumentar e orientar corretamente, com conhecimento de causa.
Deve-se, também, desmitificar que em uma UAN nem sempre é possível aplicar os princípios da ciência da nutrição. Embora em uma UAN sejam fabricadas refeições, esta é responsável pela promoção da saúde, bem-estar e qualidade de vida de seus usuários, por meio da educação e fornecimento de refeições saudáveis. É com esta visão que as UAN contribuem para a qualidade de vida de seus usuários e cumpre o seu papel de responsabilidade social.
Referências Bibliográficas
(1) Instituto Ethos de Responsabilidade Social, Manual Ferramentas de Gestão. São Paulo, 2005;
(2) Ogata, A, Marchi, R. Wellness: Seu guia de bem-estar e qualidade de vida. Rio de Janeiro, Elsevier, 2007.
(3) Matarazzo, T. Prêmio Nacional de Qualidade de Vida: a trajetória de uma década. ABQV, 2007.
Publicado na revista Nutrição Profissional 16 (Novembro/Dezembro 2007)



















