Este trabalho foi premiado na 20ª Semana Racine - Congresso de Farmácia, na Categoria Acadêmica - Graduação. Foram mais de cem trabalhos inscritos, sendo 87 deles selecionados para exposição em pôster. Todos os trabalhos foram avaliados por uma Comissão de Avaliação de Trabalhos Científicos, e foram premiados nove trabalhos no total: seis Trabalhos Acadêmicos (três de Graduação e três de Pós-Graduação) e três Trabalhos Profissionais, além de um Trabalho vencedor geral, agraciado com o Prêmio Maria Aparecida Pourchet-Campos, homenageada devido à sua importante história para a área farmacêutica.
Introdução
Discutir o problema do lixo pode ser um forte aliado no processo de sensibilização e de conscientização da comunidade em geral, favorecendo a implantação de sistemas voltados a reciclagem e a criação de novas alternativas baseadas em matérias primas já existentes (COSTA, 2004). A maior parte dos resíduos alimentares é biodegradável, mas o mesmo não acontece com o resíduo de óleo de frituras, cujo descarte se torna um problema social, pois muitos estabelecimentos comerciais (restaurantes, bares, lanchonetes, pastelarias, hotéis) e residências jogam o óleo comestível (de cozinha) usado na rede de esgoto. (ALBERICE, 2004).
Além de gerar graves problemas de higiene e mau cheiro, a presença de óleos e de gorduras na rede de esgoto causa o entupimento da mesma, bem como o mau funcionamento das estações de tratamento. O óleo, mais leve que a água, fica na superfície, criando uma barreira que dificulta a entrada de luz e a oxigenação da água, comprometendo assim, a base da cadeia alimentar aquática, os fitoplânctons (ALBERICE, 2004). Para retirar o óleo e desentupir as tubulações são empregados produtos químicos altamente tóxicos, o que acaba criando uma cadeia perniciosa. Além de causar danos irreparáveis ao meio ambiente, constitui uma prática ilegal punível por lei (COSTA, 2004).
Uma forma de evitar este tipo de poluição é recolher e armazenar o óleo e utilizá-lo para reaproveitamento posterior, ou seja, oferecer nova destinação à matéria. Atualmente no Brasil, vários projetos vêm sendo desenvolvidos na tentativa de minimizar os efeitos nocivos da desmedida poluição do meio ambiente com óleos, o desenvolvimento do biodisel como nova alternativa de combustível é, com certeza, uma das maiores conquistas dos últimos anos acerca de reutilização de material reciclado. No entanto, na área cosmética, este tema ainda possui pouco enfoque (SABSP, 2008).
Na busca de minimizar o impacto do descarte de óleo comestível usado no meio ambiente e na saúde humana e, ainda, economizar, vislumbra-se prestar um serviço para a comunidade: tanto do aspecto ecológico, pois se preserva o meio ambiente e, por aspecto, entrega-se à sociedade um produto acabado, com alta qualidade, livre de qualquer contaminação, inclusive, enriquecido com propriedades terapêuticas que acabam por lhe agregar valor (REDA,2004).
Desta forma é que, com um processo de purificação, baseado em Miler (1998), motivado pelo departamento de Cosmetologia, desenvolveu-se um método para produção de sabonetes, utilizando como substrato principal o óleo comestível usado.
Cosméticos, produtos de higiene e perfumes são preparações constituídas por substâncias naturais ou sintéticas, de uso externo nas diversas partes do corpo humano, pele, sistema capilar, unhas, lábios, órgãos genitais externos, dentes e membrana mucosa da cavidade oral, com o objetivo exclusivo, ou principal, de limpá-los, perfumá-los, alterar sua aparência, corrigir odores corporais, protegê-los ou mantê-los em bom estado (CHARLET, 1996).
O sabonete é, portanto, um cosmético destinado à higiene corporal. As primeiras evidências de um material parecido com sabão registradas na história foram encontradas em cilindros de barro (datados de aproximadamente 2.800 aC), durante escavações da antiga Babilônia. As inscrições revelam que os habitantes ferviam gordura com cinzas, mas não mencionam para quê o “sabão” era utilizado. De acordo com uma antiga lenda romana, a palavra saponificação originou-se no Monte Sapo, local em que eram realizados sacrifícios de animais. A chuva levava uma mistura de sebo animal (gordura) derretido, com cinzas e barro para as margens do rio Tibre. Essa mistura resultava em uma borra, hoje conhecida como sabão (TOEDT, 2005).
Do sabão chegou-se ao sabonete, uma forma mais delicada e destinada para ser utilizada como cosmético. Este trabalho possui como objetivo o desenvolvimento de um produto dentro dos princípios que nortearam os primeiros sabonetes, conhecidos como “savon Du Marselha” citado por Solomons (1996), anexando, porém, algumas propriedades de matérias-primas naturais com o escopo de tornar o produto mais específico, não somente com o objetivo de higienizar o corpo, mas, também, possuir alguma atividade especial.
Com a finalidade de melhorar as propriedades do sabonete desenvolvido, acrescentou-se como ativo, na forma de óleo essencial a Calendula officinalis L, diante de suas funções antialérgica, suavizante, refrescante, antinflamatória, cicatrizante, antisseptica, bactericida e antifúngica (VOLPATO, 2005). Propriedades estas que são fundamentais em um produto destinado à higiene corporal.
O desenvolvimento deste sabonete com ação específica pela incorporação do óleo essencial do ativo, bem como de suas flores, parece ser interessante, principalmente, por apresentar como base a utilização de um óleo vegetal reciclado, o que torna o produto bastante acessível para toda a população. Sabe-se que a calêndula vem sendo utilizada em preparações fitocosméticas devido a suas inúmeras propriedades terapêuticas as quais se encaixam neste perfil de cosmético destinado a proteção e higienização da pele, além de desenvolver, simultaneamente, as ações antinflamatória, antisséptica e imunoestimulante (PANZERI, 1996). Essas propriedades somadas ao efeito funcional do sabonete atuariam na manutenção da saúde corporal.
Outro ponto importante da utilização deste ativo é sua característica bactericida. Atualmente existe uma tendência no mercado de cosméticos muito grande quanto à produtos orgânicos, ou seja, insumos utilizados na composição desses produtos substratos de origem sustentável. Sem aditivos químicos, como conservantes, e tampouco obtidos por meio de testes realizados em animais. Esses produtos apresentam baixo risco alergênico devido à diminuição da quantidade de aditivos químicos, dificilmente causam alergias, além de não ressecarem a pele e não abrirem os poros, o que diminui a incidência da acne. Por isso ela vai além do politicamente correto (MEDEIROS, 2010).
Para o consumidor, o conceito de produtos orgânicos é o mesmo de produtos isentos de contaminação química, resultante de processo capaz de assegurar a qualidade do ambiente, a qualidade nutricional e biológica. É o produto que proporciona qualidade de vida para quem vive no campo e nas cidades, obtido por processos mais ecológicos. Enfim, predicados válidos para a toda a cadeia e não somente para o produto final (NEVES, 2008).
Além disso, considera a racionalização no uso dos recursos hídricos, as boas práticas sanitárias e a capacidade de melhorar a qualidade de vida dos indivíduos envolvidos no processo de produção (HIRATA, 2007).
Este é o enfoque principal deste trabalho, que se insere no conceito de sustentabilidade: desenvolver um sabonete glicerinado de Calendula officinalis L a partir de resíduo de óleo vegetal comestível, incorporação de manteigas e outros óleos e, com isso, avaliar seu comportamento durante os ensaios acelerados de estabilidade, com a finalidade de verificar as possíveis modificações nos caracteres físico-químicos, e organolépticos do produto desenvolvido a partir do ROVC (Resíduo de óleo vegetal comestível), no intuito de garantir um produto de boa qualidade.
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