Foram lançadas, pela primeira vez no País, diretrizes para a manutenção adequada de órgãos de potenciais doadores mortos. O objetivo da cartilha é uniformizar os cuidados para aumentar a qualidade e a quantidade de transplantes de órgãos e diminuir as perdas da preservação incorreta dos doadores durante a espera pela retirada dos órgãos.
Segundo dados de 2010 do Registro Brasileiro de Transplantes, do total de 6.979 potenciais doadores, 1.279, ou 18,3%, foram "rejeitados" na fase de manutenção por parada cardiorrespiratória. Boa parte dessa perda reflete cuidados inadequados, segundo Ben-Hur Ferraz Neto, presidente da Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO). Mas o número de órgãos perdidos por falta de manutenção apropriada é ainda maior, segundo Ferraz Neto. "Mesmo entre aqueles que se tornaram doadores, há casos em que outros órgãos poderiam ter sido usados e não foram por falta de cuidados."
Paradas cardiorrespiratórias são o segundo fator que mais impede a realização de transplantes - o primeiro é a não autorização da família. Segundo especialistas, a manutenção é feita de forma incorreta por falta de estrutura e de treinamento de profissionais de terapia intensiva. "Às vezes, não se sabe como manter a pressão e a temperatura em alguém que já morreu. E é diferente", afirma Ferraz Neto.
O texto fala em como prevenir a arritmia cardíaca e quais são os medicamentos e as doses indicadas para tratar hipertensão, por exemplo. As diretrizes foram elaboradas pela Associação Brasileira de Medicina Intensiva (AMIB) em parceria com a Associação Brasileira de Transplantes (ABT). Segundo Joel Andrade, médico intensivista e coordenador estadual de transplantes de Santa Catarina (SC), faltavam dados organizados sobre o assunto no país. "Fizemos recomendações com base na literatura mundial, mas adaptadas para a nossa realidade".
A cartilha será distribuída para cerca de 80 mil profissionais que trabalham em Unidades de Terapia Intensiva (UTI) do País, segundo Fernando Osni Machado, secretário-geral da AMIB. "Não é que a gente vá zerar a perda na manutenção, mas dá para reduzir esses números pela metade", afirma.
Outros fatores que impedem melhores índices de transplantes de órgãos são a falta de informações dos próprios médicos sobre morte encefálica - mais da metade das mortes cerebrais não é identificada - e o desconhecimento da população a respeito do assunto. "Há quem acredite que morte encefálica é uma coisa inventada para se fazer transplantes. Mas o Brasil tem uma das regras mais rígidas e seguras para esse tipo de diagnóstico no mundo", afirma Joel Andrade.
Fonte: Folha Equilibrio


















