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Sáb, 23 de Janeiro de 2010 23:53

Preocupações Acerca da Logística dos Medicamentos

Carlos Eduardo Curti
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Na medida em que o mercado farmacêutico evolui, evolui também a logística dos medicamentos, de forma a integrar cada vez mais os processos entre indústria farmacêutica e provedor de serviços logísticos.

Para Ballou (2007), a concepção logística de agrupar conjuntamente as atividades relacionadas ao fluxo de produtos e serviços para administrá-las de forma coletiva é uma evolução natural do pensamento administrativo. As atividades de transporte, estoques e comunicações iniciaram-se antes mesmo da existência de um comércio ativo entre regiões vizinhas. Hoje as empresas devem realizar estas mesmas atividades como uma parte essencial dos seus negócios, a fim de prover seus clientes com os bens e serviços que eles desejam. Entretanto, a administração de empresas nem sempre se preocupou em focalizar o controle e a coordenação coletiva de todas as atividades logísticas.

Somente nos últimos anos é que ganhos substanciais nos custos foram conseguidos, graças à coordenação cuidadosa dessas atividades. Os ganhos potenciais resultantes de se rever a administração das atividades logísticas está transformando o setor em uma área de importância vital para uma grande variedade de empresas.

Assim, podemos conceituar logística adotando a definição do Council of Logistics Management norte-americano como “o processo de planejar, implementar e controlar de maneira eficiente o fluxo e a armazenagem de produtos, bem como os serviços e informações associados, cobrindo desde o ponto de origem até o ponto de consumo, com o objetivo de atender aos requisitos do consumidor” (Novaes, 2004).

A logística dos medicamentos tende cada vez mais para esta visão, principalmente por ser um produto de vital importância, com alto valor agregado e sempre à frente em termos de inovação. A logística, portanto, não ficaria fora dessa evolução constante que os fármacos sofrem e, assim, as empresas e profissionais estão se especializando muito nesta atividade.

Uma prática utilizada é a terceirização dos serviços logísticos, que pode abranger todo o  processo ou apenas parte dele como transporte, armazenagem, gerenciamento de risco, entre outros. A logística dos medicamentos começa no momento da importação de matérias-primas ou de produtos acabados, vindos de várias regiões do mundo para atender as necessidades do Brasil, cumprindo as legislações específicas de importação e conservação dos produtos.

Assim que prontos para combater as enfermidades, os medicamentos começam a sua “viagem” pelo País, até o paciente. Neste percurso, para alcançar o que os autores afirmam, várias dificuldades são encontradas pelo caminho e, assim, diversas soluções são desenvolvidas para, cada vez mais, garantir que o produto esteja ao alcance do paciente com qualidade, agilidade e segurança.

Quando cita-se qualidade dos medicamentos, logo lembra-se dos órgãos reguladores como a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) e os Conselhos de Farmácia (Federal e Regionais), que possuem normas específicas para garantir a qualidade dos produtos, entre elas a Portaria nº 1052, de 29/12/98, que aprova a relação de documentos para habilitar a empresa prestadora de serviços logísticos, e a Resolução nº 329, de 23/07/99, que institui o roteiro de inspeção.

Com as normas em mãos, as empresas envolvidas na logística conseguem ter uma ampla visão das atividades que precisam realizar, porém as preocupações vão muito além de seguir as normas dos órgãos reguladores.

Neste artigo, falaremos de aspectos como segurança, tecnologia, frota e treinamento. Tudo isso com foco na qualidade, para que os medicamentos cheguem até o paciente com a eficácia e a agilidade necessária.

Segurança

Conforme dados fornecidos pelo Sindicato das Empresas de Transporte de Carga do Estado de São Paulo e Região (Setcesp), no ano de 2007 o medicamento foi a quinta carga mais roubada no Estado de São Paulo. Se considerarmos que a carga fracionada - hoje uma das mais visadas (conforme gráfico a seguir) - também abrange medicamentos, esse número se torna ainda maior, evidenciando que muitos medicamentos estão sendo comercializados sem passar por nenhum tipo de controle ou cuidado no transporte e armazenagem, chegando ao consumidor sem a qualidade desejada. Certamente este é um fato relevante para a saúde pública.

Já em 2008, conforme publicado pelo SETCESP, o medicamento ocupa o quarto lugar no ranking de produtos roubados, sempre lembrando o aspecto da carga fracionada, que inclui também medicamentos. Ao citar as condições dos fármacos, vale ressaltar que produtos sensíveis à temperatura também são roubados e, provavelmente, ao chegarem no destino já não possuem a eficácia necessária.

As empresas envolvidas na logística dos medicamentos estão cada vez mais preocupadas com a problemática do roubo de cargas. Motivadas pelas circunstâncias, elas constroem Verdadeiras fortalezas em seus armazéns, com estruturas caras que visam impedir a ação das quadrilhas organizadas. Entre as alternativas das empresas para barrar a ação das quadrilhas estão os bunkers com imagens do Circuito Fechado de TV (CFTV), que acompanham toda a movimentação interna e aos arredores da empresa, eclusas para entrada e saída de veículos com dilaceradores de pneus, equipe de vigilantes treinada e fortemente armada, além de procedimentos que garantem a eficiência dos equipamentos utilizados.

Além da segurança patrimonial envolvida, outras medidas de segurança vêm sendo cada vez mais exigidas como a utilização de veículos rastreados por equipamentos de última geração, que visam, além de acompanhar o veículo pelo seu percurso, informar ações como a abertura de portas do motorista, do passageiro e do compartimento de carga. Eles também identificam desvio de rota e acionam o travamento de freios e o bloqueio de combustí- vel, independente da ação do motorista ou da base de comando.

Se não bastasse o rastreamento, os veículos são equipados com protetores de estribo que impedem a subida na cabine do caminhão e há também grades nas janelas que inviabilizam a movimentação através dela. Mesmo com todo este aparato, os veículos, muitas vezes, são escoltados - dependendo do valor da carga e da região por onde vai trafegar. No critério valor, as indústrias farmacêuticas, em parceria com as suas gerenciadoras de riscos, limitam o valor a ser transportado (não apenas da sua carga, mas também o valor total do veículo). Isso encarece essa etapa da logística, pois dificilmente um veículo é carregado na sua capacidade total, tanto em termos de peso como de espaço interno.

Outra ação é a proibição de tráfego em determinados horários e rotas, devido à existência de regiões de alta periculosidade para os veículos de carga, não apenas de medicamentos mas de qualquer tipo de material transportado.

Tecnologia

A tecnologia da informação é um fator primordial na logística dos medicamentos, principalmente na troca de informações entre as empresas. Atualmente, para obter um bom gerenciamento das suas atividades, as empresas utilizam sistemas de informações cada vez mais desenvolvidos, que abrangem processos de estocagem de suprimentos e produtos acabados, pedidos, produção e distribuição, chegando, assim, ao destino final, o consumidor.

As informações, dependendo da parceria estabelecida entre as empresas, são abastecidas de várias maneiras.

No setor de transporte, por exemplo, a troca de informações entre a expedição dos medicamentos – tanto originários de uma logística quanto diretamente da industria farmacêutica - e a transportadora deve ser muito bem organizada, pois é a partir dela que se obtém informações concretas sobre o posicionamento da carga.

Uma das ferramentas mais utilizadas para troca de informações é o Eletronic Data Interchange (EDI). Por meio dele - e com padrões previamente estabelecidos - o tomador de serviços (indústria farmacêutica) envia para o prestador (transportadora) as informações necessárias para a execução do trabalho. A partir dessas informações, a indústria consegue enviar eletronicamente dados das notas fiscais como destinatário, endereço, campo de observação   com pontos de referência, valor da nota fiscal, quantidade de volumes, peso, tipo da mercadoria, tipo de acondicionamento, impostos, dados fiscais, entre outras informações pertinentes para a perfeita sincronia do setor.

Com estas informações já no sistema do prestador, muitos benefícios são desfrutados como maior agilidade na emissão de documentos internos de conferência e embarque (conhecimento de transporte) e de cobrança de fretes, redução de erros de digitação das informações, maior velocidade na roteirização das notas fiscais, bem como a integração com o sistema de segurança, que limita o valor a ser embarcado, conforme acordado com o gerenciamento de risco do cliente.

Quando estas informações retornam da transportadora para a indústria farmacêutica, esta consegue saber precisamente qual é a posição de sua carga, visualizando todo o percurso do medicamento até o momento da entrega ao destinatário. Quando sincronizada com uma comprovação de entrega on-line - realizada por meio de equipamentos no próprio veículo de entrega, que informam em tempo real - a indústria farmacêutica sabe o momento exato da finalização da entrega dos seus produtos ou se ocorreram problemas.

Com essa troca dinâmica de informações entre prestador e tomador de serviços consegue-se avaliar a performance das transportadoras diariamente e atuar com maior agilidade na resolução de possíveis problemas.

As informações compartilhadas entre as duas partes também “abastecem” os roteirizadores, sistemas voltados para identificar o melhor trajeto e o melhor veículo a ser utilizado, a partir da avaliação da carga. Isso, conseqüentemente, evita a ociosidade dos carros e reduz custos operacionais. Com o roteirizador as empresas também conseguem diminuir percursos, otimizando custos com pneus e com combustível, melhorando sua performance e contribuindo diretamente com o meio ambiente na redução da emissão de poluentes.

Frota

A atenção à frota é essencial para a excelência da logística dos medicamentos. Os veículos precisam estar em plena condição de uso para trafegar e devem passar por uma manutenção preventiva para evitar contratempos com avarias mecânicas.

Também precisam estar em ótima condição de limpeza, passando por desinsetização e check-lists periódicos para garantir a qualidade do transporte a ser realizado. Muitas transportadoras possuem veículos com temperatura controlada ou, ainda, veículos com baús isotérmicos ou módulos termoestáveis.

Porém, o procedimento de controle dessa temperatura ainda não está definido em legislação, ainda em consulta pública (Portaria nº 12, de 05 de Janeiro de 2005).

Armazéns

A armazenagem também é uma preocupação, não apenas no fator segurança como citado mas na qualidade do produto em si, atendendo a normas para a perfeita estabilidade do medicamento.

Há armazéns com temperatura controlada que não ultrapassam os 25ºC, com pressão positiva que impede a entrada de partículas na área de armazenagem, além de pisos de fácil assepsia com cantos arredondados, que facilitam a limpeza do armazém, que deve ser realizada constantemente.

Treinamento

Para que todo esse aparato tecnológico funcione plenamente, é fundamental que as equipes e colaboradores envolvidos nos processos logísticos sejam constantemente treinados, conscientizados e, principalmente, comprometidos com a logística farmacêutica. Uma falha em qualquer momento da operação pode provocar atrasos na entrega e acarretar até mesmo a perda do paciente que aguardava a medicação. Todos os envolvidos devem estar cientes da gravidade da situação e de suas responsabilidades frente ao processo logístico de fármacos, de modo a garantir que o produto seja entregue em perfeitas condições de uso.

Os equipamentos são de última geração e os colaboradores precisam estar aptos a operá-los. Além disso, a visão de movimentar um “salva-vidas” deve ser muito bem evidenciada ao colaborador, para que haja o devido comprometimento com o trabalho.

Referências Bibliográficas

Ballou, Ronald H. Logística Empresarial - Transportes, Administração de Materiais e Distribuição Física. 1ª ed. São Paulo: Atlas, 2007; Novaes, Antonio Galvão. Logística e Gerenciamento da Cadeia de Distribuição. 2ª ed. Rio de Janeiro: Campos, 2004.

Publicado na revista Fármacos & Medicamentos 52 (Maio/Junho 2009)

Atualizado em Ter, 02 de Fevereiro de 2010 09:57

  
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