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Qui, 12 de Novembro de 2009 14:50

A Importância da Farmacoeconomia na Gestão da Saúde Hospitalar

Leonardo R. L. Pereira, Camila Alves Areda e Karin Vicente Greco
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No século XX, com o aumento da eficiência da prevenção de doenças e atendimento médico, a expectativa de vida, menor que 40 anos até o ano de 1940, ultrapassou os 65 anos em 1990 (WHO, 1997, Melo et al, 2006). Todavia, com este crescimento, vem o ônus: aumento dos gastos com equipamentos, materiais e medicamentos.

Surge, ainda na década de 90, uma preocupação da sociedade como um todo e, principalmente, das entidades hospitalares, em relação aos custos com uso de medicamentos e, desta maneira, técnicas de economia em saúde têm sido utilizadas para avaliar as implicações do custo na farmacoterapia.

Sabe-se que as implicações farmacoeconômicas impactam diretamente sobre o uso racional de medicamentos, pois isto implica na adesão e continuidade de tratamento do paciente. Neste sentido, estudos farmacoeconômicos podem ajudar a prever variações econômicas no uso do medicamento corroborando com o cumprimento da farmacoterapia racional, principalmente dentro dos hospitais.

Os estudos farmacoeconômicos apresentam como objetivo central a identificação, quantificação e comparação dos custos versus as conseqüências econômicas, clínicas e humanísticas. Pode-se entender como custos os recursos consumidos com produtos  farmacêuticos e serviços, sendo representados pelos investimentos financeiros em saúde e classificados como diretos, indiretos e intangíveis (Drummond et al, 1997).

Os custos diretos são associados diretamente com os cuidados médicos e medicamentos (Robertson et al, 2003) e podem ser classificados em sanitários (médicos) ou não sanitários
(não-médicos). Já os custos indiretos são caracterizados pela perda de capacidade produtiva dos pacientes em conseqüência da morbidade ou mortalidade (Carlos et al, 2001).

Entretanto, devido às dificuldades de avaliação objetiva dos custos indiretos, algumas agências internacionais estabeleceram documentos que discutem a necessidade e a forma de se quantificar esses custos, tais como a Australian Pharmaceutical Benefits Advisory Committee e  a The National Institute for Clinical Excellence. Os estudos farmacoeconômicos também  permitem a realização da análise dos custos intangíveis, que são associados à dor e ao sofrimento, sendo os mais difíceis de quantificar e avalizar, pois consideram a qualidade de  vida dos indivíduos (Robertson et al, 2003).

Além da mensuração dos custos, a farmacoeconomia também analisa os benefícios, que podem ser econômicos ou não econômicos, tais como efeitos na saúde, aumento na expectativa e na qualidade de vida (Zanini et al, 2001).

Quando custos e benefícios se estendem por vários anos, um fator deve ser utilizado para normalizar os valores, pois as perspectivas de hoje dependem de quando os custos serão
pagos e o quanto de benefícios foi acumulado (Robertson et al, 2003).

Na avaliação farmacoeconômica várias metodologias podem ser utilizadas, desde a simples análise de minimização de custo, isto é, a escolha da melhor, entre duas alternativas que tenham efeitos idênticos, até as análises mais complexas, tais como custo-benefício, custo-efetividade e custo-utilidade. As metodologias variam conforme o objetivo e a perspectiva da análise.  Portanto, a análise farmacoeconônica não deve ser encarada como determinante, nem atribuí-la peso de decisão maior que a política de medicamentos, porém essa ferramenta representa importante fator na tomada de decisão.

A farmacoeconomia considera os fatores econômicos da utilização de medicamentos, entretanto não exclui os resultados clínicos e humanísticos obtidos, pois o verdadeiro valor de uma intervenção ou política pode ser atingido somente se todas as variáveis forem mensuradas e consideradas.

A aplicabilidade social dos estudos farmacoeconômicos tornou-se relevante face à dificuldade de custear atendimento completo do paciente por livre escolha de terapêutica dentro do Sistema Único de Saúde (SUS). Todavia, dados econômicos jamais devem ser utilizados isoladamente como fator de redução de custos, mas são indispensáveis como ferramenta auxiliar para valorizar a eficiência da gestão farmacêutica, analisando os custos e os efeitos das opções escolhidas (Del Castilho, 1995).

Segundo publicação do governo canadense em 1993, a farmacoeconomia é imprescindível para: a) seleção e padronização de medicamentos para hospitais ou sistema de saúde; b) estabelecimento de protocolos clínicos para a prescrição de fármacos (guidelines); c) orientação de médicos e pacientes na escolha de tratamentos que ofereçam melhor qualidade de vida; d) orientação de pesquisa farmacêutica para o desenvolvimento de produtos com melhor relação entre custos e resultados (financeiros, clínicos ou em qualidade de vida); e) orientação de algumas agências reguladoras de medicamentos para a aprovação de novos medicamentos; e f) farmacovigilância pós-comercialização.

Um dos desafios mais recentes da indústria de cuidados à saúde é estabelecer o “valor” econômico de novos produtos farmacêuticos. Não é suficiente demonstrar apenas segurança e eficácia dos medicamentos. O mercado demanda agora uma avaliação de benefícios  econômicos, custos e o impacto na qualidade de vida. O serviço farmacêutico na maioria dos hospitais brasileiros e no SUS está voltado essencialmente à provisão, estocagem e distribuição de medicamentos, sendo colocadas em segundo plano as atividades voltadas aos
estudos farmacoeconômicos e farmacoepidemiológicos, que exigem uma formação mais clínica dos farmacêuticos.

Talvez a solução desse problema fosse alcançada ao ofertar uma formação clínica ao farmacêutico, estimulando os novos profissionais a buscarem novos mercados de trabalho, aproximando-se da equipe de saúde, dos pacientes e aplicando todos os recursos para  assegurar a provisão contínua do medicamento como instrumento de saúde.

Referências Bibliográficas

(1) Carlos ICC, Siqueira RLCL, Pessoa MTFC, Almeida RFC. Farmacoeconomia: guia breve, Ceará: Secretaria da Saúde do Estado do Ceará, 2001. 56 p;
(2) Drummond MF, O’brien B, Stoddart GL, Torrance GW. Methods for the economic evaluation of health care programmes, 2ª ed, New York: Oxford University Press, 1997. 181p;
(3) Melo DO, Ribeiro E, Storpirtis S. A importância dos estudos de utilização de medicamentos. Revista Brasileira de Ciências Farmacêuticas, v. 42, n 4, p 475-485, 2006;
(4) Robertson J, Lang D, Hill S. Use of pharmacoeconomics in prescribing research. Part 1: costs-moving beyond the acquisition price for drugs. Journal of Clinical Pharmacy And Therapeutics, v 28, p 73-79, 2003;
(5) Sacritán del Castilho JA, Farmacoeconomia y evaluación económica de medicamentos: introducción. In Sacristán Del Castilho JA, Llach XB. Farmacoeconomia: evaluación económica de medicamentos, Madrid: Editores Médicos, p 19-29, 1995. 302p;
(6) World Health Organization. The state of world health: life expectancy. 1997;
(7) Zanini AC, Farhat FCLG, Ribeiro E, Follador W. Farmacoeconomia: conceitos e aspectos operacionais. Ver. Bras. de Ciências Farmacêuticas, v 37, n 3, p. 225-237, 2001.

Publicado na Revista Racine 101 (Novembro/Dezembro 2007)

Atualizado em Seg, 01 de Fevereiro de 2010 15:23

  
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