Escrever qualquer artigo sobre meio ambiente é sempre óbvio e lógico, pois todos os segmentos empresariais e pessoas envolvidas entendem claramente a importância e as conseqüências de tal assunto. Sente-se os efeitos negativos do “apagão” no início deste século, a elevação crescente das temperaturas em regiões temperadas, as irregularidades das chuvas e secas, a falta de água potável e as dificuldades de tratamento, descarte, eliminação e armazenamento dos resíduos industriais ou domésticos de todos os tipos, as doenças oriundas da poluição etc.
Porém, quando se trata das decisões, ações e investimentos relacionados com o mesmo meio ambiente, quase sempre se depara com paradigmas e posturas pouco previsíveis cheias de justificativas e explicações de contexto, que tangenciam o epicentro da questão.
O fato reside na essência dos processos empresariais, pois qualquer negócio deve contemplar infra-estrutura, competências e decisões alinhadas com a visão, missão e valores estabelecidos, que são norteadores e balizadores internos e externos.
Tal afirmação pode ser diferentemente interpretada nos diversos segmentos ou por gestores ao redor do mundo, mas não deixa de ser uma realidade inquestionável que a perpetuação do negócio está centrada em uma combinação equilibrada destes fatores e ingredientes empresariais.
A Figura 1 demonstra tais ingredientes em um formato de mais fácil interpretação, ou seja:

O modelo caracteriza as duas principais vertentes de um negócio – a técnica e a comportamental, que visa perpetuar e sustentar os negócios no longo prazo, sendo que a ausência ou má gestão de alguma destas variáveis pode caracterizar o alto índice de empresas (de todos os tamanhos e envergaduras) com falência nos primeiros anos de vida ou baixa resistência nos momentos de crise.
Porém, para que haja sintonia entre cada um dos vetores e suas partes, é necessário alinhar as decisões e investimentos de maneira compatível ao nível de maturidade da organização, sendo que o tema “meio ambiente” quase sempre é tratado e gerido com prioridade baixa nos primeiros movimentos empresariais. Evidentemente que as organizações devem atender e cumprir aspectos legais impostos, porém cuidam exclusivamente do aspecto mandatório e obrigatório da questão, não significando com isso um gerenciamento adequado do meio ambiente e dificilmente com a amplitude e cobertura estabelecida.
No Brasil, como em boa parte do planeta, a gestão responsável do meio ambiente ganha destaque e preocupação somente se as necessidades básicas e de sobrevivência estiverem supridas e não representarem mais uma ameaça iminente.
Ao se observar e admirar as organizações que gerenciam equilibradamente seus negócios sob os diversos ângulos (qualidade, atendimento, pontualidade, segurança, competência, meio ambiente, responsabilidade social etc), esquece-se que tais conquistas e reconhecimentos não se concretizaram da noite para o dia, mas sim de maneira crescente e planejada, visando alcançar em algum momento de sua história o chamado equilíbrio sustentável. Isso não ocorre por sorte ou bons ventos, mas sim porque decisões foram tomadas e investimentos contínuos foram aplicados com competência, independente das pressões ou nível de lucidez das partes interessadas em seu entorno.
Mas, na média da indústria brasileira, incluindo a área farmacêutica, o cenário é muito parecido, ou seja, prioridades para a produtividade, qualidade, custos, desenvolvimento, inovação etc, com pouca prioridade para os aspectos relacionados ao meio ambiente, entre eles, a fauna, a flora, a água, o ar, o solo, os recursos humanos, os recursos naturais e a energia. Isso é tão verdadeiro que ao avaliar-se o número de empresas certificadas em ISO 9001 (Gestão da Qualidade) no Brasil foi quase dez vezes maior que as certificações de ISO 14001 (Gestão Ambiental). Isso não está relacionado com a dificuldade técnica da implantação, mas sim pelo paradigma de que não se está preparado ou há muito o que fazer. Ressalta-se que mais de 70% destas certificações ambientais ocorreram posteriormente à certificação da qualidade, o que caracteriza que os preconceitos e percepções dos decisores sobre a gestão ambiental somente é quebrada ou potencializada após a implementação e certificação daquilo que eles julgam prioritário e de maior domínio.
Felizmente os empreendedores estão mais conscientes de que seus negócios não sobreviverão sem o devido respeito e gerenciamento do meio ambiente, portanto sugere-se que os mesmos passos dados no início de seus negócios sejam dados neste momento, ou seja, praticar o ciclo do PDCA (planejar/ realizar/ controlar/ melhorar) objetivando em algum momento o nível de Six Sigma Ambiental.
Claro que na indústria farmacêutica existem limites e restrições que inibem tais iniciativas ou ações, porém tanto quanto a questão de competitividade (que demanda criatividade, iniciativa, flexibilidade, equipe, empreendedorismo etc), nas questões ambientais estes fatores também devem entrar em cena, para que o negócio se sustente de maneira global e respeite as condições ambientais atreladas.
O grande problema é que tais conseqüências não se propagam exclusivamente naquela empresa ou organização, mas sim por toda a sociedade ao seu redor, gerando passivos, que quando efetivamente percebidos quase sempre têm caráter crítico e muitas vezes irreversível. Cabe, a todas as partes interessadas, esforço e empreendedorismo para enfrentar esta realidade e buscar meios alternativos para o reequilíbrio. Pode-se citar alguns exemplos:
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Cluster de empresas (para tratamento de resíduos);
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Infra-estrutura coletiva (aterro industrial compartilhado);
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Pool de empresas para Certificação Ambiental (ISO 14001);
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Desenvolvimento de tecnologias alternativas (embalagens ou produtos químicos menos tóxicos);
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Condomínios industriais, gerenciando os aspectos ambientais em comum;
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PPP (Parceria Público Privado) buscando soluções entre os envolvidos (empreendedores + órgãos públicos + comunidade);
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Terceirizações planejadas (desenvolvendo competências para dificuldades comuns);
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Sinergia com instituições e empresas de outros segmentos (com indústrias da área química, papel ou têxtil);
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Patrocínio de centros de pesquisa ou universidades para gerar soluções alternativas;
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Desafio a sociedade para geração de idéias e soluções (os funcionários, os clientes, os fornecedores e a comunidade em geral).
Não será possível reverter a situação tão degradante (e de quase inércia), se não houver predisposição manifestada na missão e nos valores, bem como objetivos claros, metas viáveis, perseguidos diariamente com resultados efetivos, reconhecendo a necessidade e os limites, buscando adesões e transformando a expressão: “Bem Dito” em “Bem Feito”.
Todas as partes interessadas apoiarão tais iniciativas e ajudarão a causa por meio da forma mais justa possível, ou seja, mantendo-se clientes, manifestando desta forma seu apoio e reconhecimento neste investimento tão nobre e vital. Pode-se, em algumas situações, não conseguir atender ou atenuar integralmente tais aspectos ambientais, mas os propósitos e iniciativas gerando alternativas são muito mais potentes do que o discurso de dificuldades ou impotência gerada pelos governantes e suas leis.
Os maiores responsáveis pela atual postura e descaso (ou pouco caso) com as questões ambientais estão inseridos no subconsciente dos empreendedores e seus gestores diretos que não conseguem priorizar esforços na direção do meio ambiente, pois não conseguem entender o seu papel dentro da sociedade, auxiliando no desenvolvimento da cultura ambiental, começando com empenhos simples como o “Housekepping” ou 5S, passando pelas BPF/C e atingindo estágios mais sofisticados de gestão. Infelizmente tal evolução só é percebida pelos executivos que possuem um nível de maturidade superior, pois aqueles que ainda resistem quanto a real necessidade de ações e investimentos, tem a mesma dificuldade de entender o significado da ética e responsabilidade social com relação ao mundo e seus habitantes.
Desde o início dos processos de certificações e prêmios ao redor do planeta (por exemplo – ISO 9001; PNQ; ISO 14001 etc) fica cada vez mais claro que o diferencial competitivo está centrado no quesito liderança que é caracterizado pela capacidade de fazer acontecer, em que os decisores devem exercer este papel não só sob a ótica organizacional mas como cidadãos do mundo e responsáveis por decisões equilibradas e o uso dos recursos existentes ($, gente, tecnologia etc) em prol do meio ambiente e em equilíbrio com as demais características dos produtos e serviços prestados pela indústria farmacêutica em geral.
Como última sugestão para cada liderança deste importante segmento empresarial, fala-se pouco mais de simplicidade que não pode ser confundida com fazer de qualquer jeito, mas sim com a lucidez de quem quer fazer e dentro dos limites existentes ou disponíveis.
Falta muito ainda para se compreender a real importância da preservação ambiental e da busca pelo equilíbrio sustentável, no qual a pretensão é acordar a sociedade para as ações preventivas apropriadas, pois ao se estiver estivermos em crise (com problemas irreversíveis) infelizmente todas estas palavras perdem seus efeitos e sentidos.
Publicado na revista Fármacos & Medicamentos 29 (Julho/Agosto 2004)



















