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Qui, 21 de Janeiro de 2010 11:31

Sinusites, Subjetividades e Fármacos: Breves Considerações

Rosa Maria Rodrigues dos Santos
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Este artigo tem como objetivo trazer questionamentos sobre aspectos que circunscrevem a experiência das sinusites – separando-se a vivência aguda da crônica – e seu tratamento, buscando-se evidenciar, neste último tópico, a relevância do papel dos profissionais que atuam nas farmácias.

Os questionamentos e considerações serão tecidos a partir do referencial psicanalítico e de alguns outros saberes afins, como a filosofia. Para cumprir os objetivos propostos serão necessários alguns passos até o alcance do cerne do texto, a saber: a marcação da especificidade da psicanálise, bem como de conceitos como corpo, subjetividade e pósmodernidade.

Psicanálise, subjetividade e corpo

A psicanálise se propõe a contribuir na construção de um saber sobre os fenômenos humanos, insistindo no fato de que o que realiza o homem inclui uma causação inconsciente, para além da evidência imediata advinda da consciência e/ou sensações (Mezan, 1997). Este saber não seria coletivo, mas singular, próprio a cada um. O homem do qual trata a psicanálise está dividido entre o que sabe e a verdade inconsciente, que determina o que ele faz, principalmente o que ele repete sem que se perceba, causando-lhe sofrimento. Diferentemente do que se pensa normalmente, a psicanálise surgiu como um modo de tratar disfunções específicas que acometiam o corpo de alguns sujeitos, as conversões histéricas.

O sintoma conversivo escancarava a existência de uma ruptura na completude do corpo, em seu controle, no que se conhece dele. As cegueiras, paralisias de membros e afonias explicitam uma origem não orgânica, mas psíquica, embora se manifestassem no corpo daquelas mulheres.

A ciência moderna e a psicanálise foram possibilitadas pela mesma origem, a saber, o cogito cartesiano. Foi o famoso “penso, logo existo” que favoreceu todo o avanço científico e  evidenciou a existência de uma subjetividade, a do ser pensante, conceito que permitiu o advento da psicanálise. Contudo, ao invés do que faz o cogito, que separa res extensa (corpo) e res cogitans (pensamento ou alma), a psicanálise os une, como mostra o exemplo da conversão histérica. Se o corpo da ciência é desabitado, sem subjetividade, o organismo, o da psicanálise não é sem sujeito. É um corpo presumido, o corpo que se supõe ter ou não o conhecido de fato (Barros, 2002).

Podemos compreender a subjetividade como sendo “experiência de si e como condensação de uma série de determinações. No primeiro caso, caberia a descrição fenomenológica das variedades e dimensões desta experiência, tomando como alvo o sujeito enquanto foco e origem dela”. No segundo caso, “é o resultado de processos que começam antes dela e vão além dela, processos que podem ser biológicos, psíquicos, sociais, culturais etc” (Mezan, 1997).

Podemos tomar, ainda, uma definição próxima, mas que ressalta a dimensão da (in)consciência e do corpo na subjetividade, “é um nó de ações corporais e simbólicas originalmente intercorporais e intersubjetivas, das quais a consciência de si enquanto sujeito é um dos aspectos e não a definição” (Chauí, 1997).

Assim, percebe-se que a constituição da subjetividade procede da relação com outro ser humano, é um efeito também da ação deste. Esse processo de constituição depende dos cuidados prestados ao pequeno ser, ao bebê, por meio do investimento da mãe, ou de quem a substituir, em relação ao corpo da criança. A nomeação de suas partes e a forma como se dá este investimento materno, organizam suas funções vitais, permitindo, posteriormente, a noção de um corpo próprio pelo sujeito (Fernandes, 2002), deixando marcas que o sujeito desconhece, que ligam seu corpo a representações, que poderão ou não se manifestar em sintomas posteriores – dependendo dos encontros que ocorrem e dos destinos que forem dados à vida.

O que é importante relevar aqui é que cada corpo e cada subjetividade são únicos, não sendo possível, dentro deste entendimento, fazer generalizações que relacionem determinados sofrimentos corporais a aspectos subjetivos. Dessa maneira, inviabiliza-se a formação de perfis de portadores de tais ou quais doenças ou quadros orgânicos.

No entanto, apesar do caráter singular inerente à subjetividade, esta se constitui a partir também do que é transmitido pela cultura, pelo social. O corpo é fonte de prazer e de desprazer e cada época oferece modelos para satisfação com ele, modos de satisfação socialmente toleráveis (Leite, 2002). Dessa forma, o saber psicanalítico também oferece elementos que colaboram na elucidação do que acontece no social e das subjetividades engendradas a partir dele.

Pós-modernidade

A contemporaneidade é marcada pela perda dos referenciais anteriores, que delimitavam ao homem formas de conduzir a vida, deixando como saldo uma liberdade e uma angústia cujos limites não se mostram. “Diante da vertigem dessas mutações, e a exemplo do que ocorreu desde a queda do muro de Berlim, não paramos de nos perguntar: o que se passou, o que terá acontecido que de repente tudo mudou, que já não nos reconhecemos no que ainda ontem  constituía o mais trivial cotidiano?” (Pelbart, 2002)

Surgiram como respostas, tentativas de reorganização, mas que cumprem esta tarefa de modo superficial, permanecendo o medo quase generalizado. Assim, tenta-se a todo custo encontrar objetos que venham a diminuir esta angústia, dando supostas garantias de completude, de sucesso, de saúde, de beleza. O capitalismo globalizado gera estes objetos que o homem consome na vã tentativa de evitar sua finitude ou doença.

Para dar o peso devido aos fatos, cito Lipovetsky (2004): “A obsessão de si, hoje, manifesta-se menos pela febre de prazer e de gozo que pelo medo da doença e da idade, a medicalização da vida. Narciso está menos apaixonado por si mesmo que aterrorizado pela vida cotidiana; seu corpo e o ambiente social parecendo-lhe mais agressivos. O neo-individualismo não se reduz ao hedonismo e ao psicologismo, mas implica, cada vez mais, um trabalho de construção de si, de tomada de posse do seu corpo de sua vida. (...) Pode-se, então, compreender por que a fúria consumista prossegue. Doravante, o consumismo funciona como doping, como estímulo para a existência, às vezes, como paliativo, despiste em relação a tudo que não vai bem em nossa vida”.

É nesse contexto que virá adiante o questionamento sobre o uso do fármaco na contemporaneidade, colocando-se aí uma questão ética.

Sinusites: vivências agudas e crônicas

A medicina estabelece suas classificações da doença, em especial, pelo tempo, pela duração das mani festações sintomáticas e pelos próprios sintomas, que se diferenciam um pouco na ocorrência crônica ou é, como se fosse, apenas o suporte material da sinusite.

A partir do referencial que adotamos aqui, o psicanalítico, teremos como norte as possíveis decorrências vindas de episódio agudo ou da repetição característica da cronicidade. Sem dúvidas, as cefaléias, as corizas, o cansaço e as tonturas causam sofrimento em quem os porta.

Contudo, é preciso ressaltar que há sujeitos, dentre os que têm vivências crônicas, que incorporam a doença como se fosse um componente do seu ser. “O ‘Eu tenho sinusite’ soa como alusão a um ‘bem adquirido’” (Balbani et al, 1998). Não se trata, obviamente, de algo tido conscientemente, por mais que se lide com isso como um benefício ou patrimônio. É como algo que, de fato, se “incorpou” ao sujeito, caracterizando-o. A este “sou assim” agrega-se um saber sobre si, sobre o corpo. Por vezes, os que sofrem cronicamente da doença conhecem, ou pensam conhecer, os sintomas ou formas de tratamento. Esta certeza, este conhecimento interferem na adesão ao tratamento, merecendo ser incluída no cálculo para o sucesso terapêutico.

Por outro lado, a experiência aguda pode ser tomada como um marco na vida, um divisor de águas. O sangramento intenso, súbito (epistaxe) pode ter este poder. De mesmo modo, a surpresa de uma complicação, como a amaurose ou uma cicatriz decorrente de uma cirurgia de urgência, pode ter um efeito de suspensão, de um corte transformador no modo de gerir os prazeres e hábitos da vida (parar de fumar, tomar líquido para aumentar a fluidez das secreções etc).

A noção que temos de nós mesmos, por mais equivocada que seja, em primeira instância vem de nossa integridade corporal; a possibilidade de risco a essa integridade pode causar mudança no modo de conduzir a vida e mudanças éticas quanto ao modo de existir (Antelo, 2002).

A sinusite pode ser vista como uma das doenças que questiona o modo de viver  contemporâneo. A adoção de um modo de viver que considere o tempo para tomar água, por exemplo, já diminui muito os riscos de se ter a manifestação da doença. Mas, então, por que tantos não cumprem as recomendações mais simples, atestando-se que não se trata simplesmente de ter ou não informações? Por que alguns padecem por infecções de repetição ou por que há algumas infecções muito específicas em momentos extremamente particulares da vida de alguns sujeitos? Questões que só podem ser respondidas um a um, por cada doente, cada corpo, cada padecimento.

Seguindo este entendimento, as vivências de dor e de sufocamento diferem para cada sujeito e, por isso, os modos como se lida com os medicamentos também variam. Aí reside toda a relevância dos profissionais das farmácias.

O fármaco e o poder

Pharmakon é a palavra grega que designa, ao mesmo tempo, remédio e mal, veneno. Nada mais oportuno para se pensar o lugar cada vez maior dado ao fármaco na contemporaneidade. Vivemos em uma sociedade que dá cada vez menos espaço para o sofrimento, pois ele inviabiliza, compromete a capacidade produtiva, que é a base do sistema capitalista,  sustentado pelo consumo.

O remédio é um objeto de consumo que oferece, como todos os objetos nesta categoria, a ilusão de um “a mais”. A mais de vida, de superação de capacidades, de satisfação com o corpo. Para além da eficácia terapêutica dos remédios, agrega-se a ilusão de plena saúde e de longevidade. Muitas vezes esta ilusão vem ainda com o “a mais” de não se perder nada em relação aos prazeres que se extrai do corpo e do mundo, apenas se acrescenta. O “emagreça sem deixar de comer nada” pode servir como um paradigma do horror que temos contemporaneamente ao perder em satisfação, em usofruto dos objetos oferecidos pelo mundo (capitalista).

Assim, não há apenas a preocupação com o não tomar tal ou qual medicamento. Com referência às sinusites, preocupa tanto ou mais a super adesão aos medicamentos. As rinites medicamentosas, que decorrem do abuso/dependências aos fármacos, favorecem e muito a existência de sinusites secundárias. Sem dúvida isso se remete ao pharmakon, ao passo a mais que transforma o remédio em veneno. É, de fato, uma espécie de adição.

Trata-se de um erro grave considerar o fármaco apenas como algo objetivo, sem avaliar a quem se destina, quem dele faz uso. Um remédio é sempre para o uso de alguém – “todo medicamento é inseparável de uma ação subjetiva” (Laurent, 2002).

Assim, o profissional das farmácias tem seus poderes aumentados no mundo contemporâneo. Diferentemente dos médicos, o profissional da farmácia não sofre do mal da falta de tempo. Ao contrário, sobra-lhe tempo para ouvir, para conhecer algo da vida dos pacientes e fazer uso deste conhecimento. Por mais que os tempos passem, o ser humano preza muitíssimo ser especial, ser reconhecido em suas particularidades.

O profissional das farmácias conta, assim, com aspectos que lhe põem em vantagem em relação a outros profissionais da saúde, citando alguns: o acesso a ele é muito mais fácil do que ao médico; seu poder de sugestão é acrescido ao fato de fazer parte do cotidiano de muitas pessoas; o remédio, que é o que se vende, é idolatrado em nossa cultura por seus efeitos.

Saber lidar com vantagens não é simples, gera compromissos e responsabilidades. Trazendo à lembrança o dito de um livro infantil, somos responsáveis por quem cativamos. Cabe, então, ao profissional da farmácia servirse bem de seu lugar e das vantagens a ele pertinentes, não excedendo em relação ao que lhe cumpre fazer, aproveitando para fazer o bom reendereçamento de um pedido indevido a quem é de direito, ao médico.

Esse bem ao qual há menção agora é o bem da ética, do bom prático, da boa prática.  Lembrando-se dos saudosos saquinhos de pão das antigas padarias, esse é o verdadeiro: “servir bem para servir sempre”.

Referências Bibliográficas

(1) Antelo M. A fórmula pílula. Clique – Revista dos Institutos Brasileiros de Psicanálise do Campo Freudiano, abril 2002, nº 1, p. 93;

(2) Balbani APS, Litvoc J, Sanchez TG, Butugan O. Sinusite Aguda e epistaxe: reconhecimento e tratamento de afecções otorrinolaringológicas numa população rural do estado de São Paulo @rquivo da Fundação Otorrinolaringologia, Vol.2, nº 4, novembro-dezembro 1998, p. 164;

(3) Barros RR. De que corpo se trata. Clique – Revista dos Institutos Brasileiros de Psicanálise do Campo Freudiano, abril 2002, nº 1, p. 97;

(4) Chauí M. Comentários. Subjetividades Contemporâneas. Subjetividades Contemporâneas. Ano 1, nº 1, São Paulo, 1997, p.19;

(5) Fernandes MH. O princípio da alteridade como constitutivo do corpo em Freud. O Corpo. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2003, p.89;

(6) Laurent E. Como engolir a pílula?. Clique – Revista dos Institutos Brasileiros de Psicanálise do Campo Freudiano, abril 2002, nº 1, p. 28;

(7) Leite MPS. Sujeito e fármaco na pós-modernidade. Clique – Revista dos Institutos Brasileiros de Psicanálise do Campo Freudiano, abril 2002, nº 1, p. 50;

(8) Lipovetsky G. Narciso na armadilha da pós-modernidade?. Porto Alegre: Sulina, 2004, p. 20-22;

(9) Mezan R. Subjetividades Contemporâneas? Ano 1, nº 1, São Paulo, 1997, p.13 e p.15;

(10) Pelbart, P. P. Subjetividades Contemporâneas. Subjetividades Contemporâneas. Ano 1, nº1, São Paulo, 1997, p. 4.

Publicado na Revista Racine 89 (Novembro/Dezembro 2005)

Atualizado em Sex, 29 de Janeiro de 2010 16:06

  
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