Introdução
Como movimento de reforma, no sentido de reverter esta situação, surgem, globalmente, diversas correntes agrícolas, entre elas a agricultura biodinâmica, caracterizada por seu propósito de auto-sustentabilidade e preocupação com o aspecto nutritivo do alimento.
O ser humano vem a ser o que come?
O filósofo L. Feuerbach disse, por volta de 1850: “O homem é o que come”. Esta frase, apesar do sentido irônico, descreve bem o que acontece quando comemos algo saudável e ficamos mais saudáveis, ou quando comemos algo imprestável e, por isto, ficamos doentes.
Não podemos escapar da realidade de ter que nos alimentar. A questão é com o que devemos nos alimentar? Outra questão a ser colocada poderia ser o alimento nos nutre apenas fisicamente? Como ficam a saúde, as cores, os aromas e a integralidade dos alimentos e como fica o meio ambiente em que vivemos?
Com o avanço da química e da genética passamos a considerar o alimento como objeto no food design, passando a consumi-lo de maneira mais veloz e pronta no fast food e de maneira totalmente inconsciente, engolindo tudo que se apresenta à nossa frente, enquanto fazemos negócios, vemos televisão ou caminhamos pela cidade, o novel food. Considerando que os alimentos são desenhados geneticamente, contaminados com inseticidas, herbicidas, fungicidas, bactericidas, hormônios e posteriormente processados tendo adição de emolientes, estabilizantes, acidulantes, diluentes, corantes, aromatizantes, vitaminas, reforçadores de sabor, entre outros (são 2.700 aditivos para alimentos), percebemos que do campo ao prato, provavelmente alteramos os alimentos de tal maneira que torna difícil avaliar realmente o que estamos comendo” 1.
A questão das doenças degenerativas do sistema cerebral e neurossensorial nos seres humanos ultrapassa hoje qualquer limite de compreensão científica. Estatísticas mostram que em países desenvolvidos, se a pessoa tem 85 anos, ela tem quase 50% de chance de estar com doença de Alzheimer 2.
As hipóteses mais recentes em relação à atuação dos radicais livres que estariam degradando e envelhecendo o organismo humano precocemente, levam hoje a camada mais esclarecida da população a consumir vitaminas, minerais e substâncias neutralizadoras dos radicais livres, buscando harmonizar a função celular e a função do organismo.
Substâncias ingeridas que perturbam as sinapses, terminais das células nervosas do organismo onde ocorrem transmissão de informações, acabam levando também à degeneração das células nervosas como um todo. Uma melhor eliminação de substâncias nocivas como cigarro, álcool e agentes químicos formadores de radicais livres como estabilizantes e aditivos químicos é possível por meio da adição à dieta de alimentos que contenham antioxidantes. Harmonizadores das ligações sinápticas como as proteínas vegetais derivadas da soja, iogurtes e plantas parecem (isoflavonas, por exemplo, por um lado, iogurtes por outro, que são derivados de fungos e bactérias, de fácil digestão, acompanhados de soro,
açúcares lácticos e proteínas vegetais, acompanhadas de vitaminas e fatores anticancerígenos e antioxidantes também) ser hoje recomendáveis e se aliam às fórmulas modernas adotadas em todo o mundo por populações com índices de longevidade saudável.
A questão da vaca louca (Síndrome Bovina Espongiforme) pode ser mais um sintoma de um fenômeno global que acontece quando desvirtuamos a qualidade original dos alimentos, desviando-o do design evolutivo, adaptado ao ambiente e ao ser humano (co-evolução adaptativa). Ao forçarmos um animal ruminante a consumir carcaças protéicas de outros animais, estamos dando um exemplo de incompetência técnica e científica que mostra que o direcionamento técnico moderno está bastante deturpado e longe da compreensão de como funciona a natureza 3. No cérebro do portador de doença de Kreutzfeld-Jacob (forma humana da doença da vaca louca) aparecem os príons, estranhas proteínas replicáveis, e na doença de Alzheimer, as placas e emaranhados amilóides, ambos de natureza protéica nessas duas terríveis doenças neuro-degenerativas.
A manifestação fisiológica, embora de causas diferentes, assemelha-se, levando-nos a perguntar: trata-se de uma simples contaminação por príons ou de uma degeneração das
funções cerebrais normais?
A qualidade dos alimentos convencionais e biodinâmicos
Os alimentos convencionais, aqueles produzidos com a utilização de agrotóxicos e fertilizantes químicos, estão hoje na mira. Estão sob forte crítica na mídia, no meio acadêmico e por parte do consumidor. Os muitos acidentes ambientais, o uso desenfreado dos agrotóxicos (alguns exudatos de plásticos e detergentes também) e insumos mencionados anteriormente conferem
aos alimentos características pouco desejáveis que, em longo prazo, resultam nas seguintes conseqüências para a saúde humana, já comprovadas cientificamente: câncer em vários órgãos (como pulmão, intestino, mama, fígado, pâncreas e próstata), atrofias sexuais, disfunções hormonais, alergias, irritações, amadurecimento sexual precoce, entre outros 4.
Os animais também são vítimas de intoxicações, quando vítimas de manejo de endo ou ecto parasitocidas como, por exemplo, os que combatem a mosca do berne no gado de leite. Os resíduos deste parasitocida permanecem até 21 dias no sangue e no leite, em doses consideradas perigosas pela Organização Mundial da Saúde (OMS) 5.
Os ambientes e ecossistemas onde estes alimentos convencionais estão sendo produzidos estão, por sua vez, extremamente contaminados. Não somente os seres humanos que nele vivem, mas os animais e plantas também. Análises de solo e plantas de produção freqüentemente revelam aos especialistas índices de contaminação nada desprezíveis.
Esta realidade afeta os seres humanos já nas primeiras fases de desenvolvimento, quando recebem agrotóxicos por meio do leite materno ou são contaminados pela fumaça do cigarro tragado 6. Estas ações contribuem para o adoecimento geral da população aumentando sobremaneira as despesas públicas e privadas no âmbito da saúde. As populações de adultos e os trabalhadores rurais que manipulam agrotóxicos são as maiores vítimas e índices de surgimento de Parkinson, citado em bibliografia 7. Assim a manutenção da saúde nas populações rurais fica mais difícil, por causa da contaminação direta por agrotóxicos, e nas populações urbanas, por causa da contaminação indireta, via alimentos.
Outras pesquisas relacionam o surgimento de câncer e dano cromossômico com o uso de herbicidas e pesticidas 8, 16 e, surpreendentemente, conclui-se cada vez mais que os pesticidas são químicos que têm a capacidade de romper o sistema endócrino, interferindo nos hormônios do corpo humano. Organizações como o Departamento do Meio Ambiente da Grã-Bretanha, a Agência Federal Alemã para o Meio Ambiente, a União Européia, a Comissão Oslo-Paris e o World Wildlife Fund (WWF) identificaram, no total, mais de 40 pesticidas rompedores do sistema endócrino 9.
Pesquisas recentes em Recife e Petrolina, no Estado de Pernambuco, indicam que, em Petrolina (região de intensa produção de frutas e, conseqüentemente, de uso intenso de agrotóxicos), as mulheres estão menstruando mais cedo que as mulheres vivendo em regiões urbanas. Outros sintomas como abortos também estariam ligados ao uso de agrotóxicos, comparando-se as populações de Petrolina e Recife 10.
Sem dúvida, as hipóteses e explicações de que os agrotóxicos “mimetizam” os hormônios, causando desequilíbrios no sistema hormonal dos animais e seres humanos, é algo que não deve ser desconsiderado, tomando-se por base os testes efetuados 4, mesmo porque os hormônios utilizados em animais para aumento de produtividade em leite e carne, banidos na Europa mas aceitos nos EUA e em parte contrabandeados para uso no Brasil, também estão sob foco de crítica com indicações de que induzem ao câncer 11.
Os alimentos transgênicos, além de estarem contribuindo para a perpetuação do uso de agrotóxicos, como é o caso da soja transgênica, adaptada a ter resistência a um certo tipo de herbicida, causam polêmica quando os seus subprodutos como o L-triptofano produzido de soja transgênica teria causado a morte de 37 pessoas e deixado outras 5.000 com sérios defeitos e paralisias como a Síndrome da Eosinofilia-Mialgia, só nos EUA, com quadros dramáticos de destruição muscular 12, 21.
Segundo o instituto Environmental Working Group (EWG), de Washington D.C. (www.ewg.org/bodyburden/results.php), em sangue, leite e urina, de 525 substâncias foram encontrados 455 compostos industriais, poluentes e outros químicos em 72 pessoas dos EUA. A simples presença de alguns ppbs (partes por bilhão) destes químicos significa uma bio-magnificação, ou acúmulo na cadeia ecológica, de até 25 milhões de vezes a concentração original nas águas, lagos e rios.

Por sua vez, a qualidade dos alimentos biodinâmicos pode ser comprovada a partir de trabalhos internacionais que, em testes comparativos, indicam e comprovam, cientificamente, maior concentração de nutrientes, vitaminas, sais e proteínas nos alimentos orgânicos, assim como maior vida de prateleira, eliminando o risco dos sintomas anteriormente descritos para alimentos convencionais por serem, por princípio, produzidos sem o uso dos agrotóxicos 14, 15.
O consumo de produtos biodinâmicos permitirá reduzir as contaminações ambientais, animais e humanas e as doenças degenerativas.
O ser humano se alimenta do organismo Terra. A propriedade agrícola e a Terra como organismo vivo. Como “provocar” o surgimento de Pragas.
O ser humano tem três demandas de formas de alimento, que o satisfazem nos três âmbitos de sua existência: o alimento para a nutrição física e como proteínas, gorduras, carboidratos e sais que nutrem o seu corpo; o ar, componente que o nutre emocionalmente, através do respirar que harmoniza e equilibra animicamente; o meio ambiente, que nutre os seus sentidos com cor, paladar, aroma. O meio ambiente também é o responsável pela integridade do alimento (nutrição das plantas e animais via solo).
Sabemos, por experiência e relatos da antiguidade e relatos contemporâneos de filósofos e pensadores, da importância de termos alimentos puros, limpos e integrais, para que o processo do pensar possa se desenvolver com clareza, objetividade e criatividade, levando o ser humano a um processo de autodesenvolvimento e individualização do seu caráter 17.
Sem uma integração e harmonização destes três níveis o ser humano adoecerá. De nada adiantará fornecer uma alimentação completa se esta não for agradável de ser consumida
e se o ambiente onde este alimento for consumido não for condizente com as suas expectativas de qualidade de vida.
“Que grau de confiança podemos depositar nos gêneros alimentícios, se - como foi recentemente noticiado em um jornal – foram encontrados nos EUA, em uma amostra de soja, cerca de oitenta resíduos químicos diferentes, ou se na água potável há contaminações comparáveis de defensivos vegetais, principalmente herbicidas, porém justamente abaixo do chamado limite de tolerância?” 1.
Para corroborar esta preocupação toma-se como exemplo os dados de contaminação dos alimentos constatados pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) (www.anvisa.gov.br) em relatório de abril de 2008 em que tomate, morango e mamão aparecem com contaminações absurdas, sendo de até 40% em tomate.
Os alimentos modernos, produzidos a partir de sistemas agressivos (verdadeiras bombas químicas), carregam em si os efeitos desta agressão, que são basicamente resíduos de agroquímicos, desequilíbrios organolépticos e pouca vitalidade - que pode, neste caso, ser entendida como uma ruptura da “integralidade” do alimento – algo que o mantém vivo, coeso, equilibrado, latente, com bom potencial de consumo.
Os alimentos que provêm de agricultura biodinâmica, de ambientes conservados puros e vivificados, carregam em si as características desta atividade que são o contrário do exposto anteriormente: isenção de resíduos agroquímicos, balanço organoléptico e vitalidade, comprovada a partir de experimentos de vida de prateleira maiores para tais alimentos em comparação aos convencionais 14, 15.
Os melhores alimentos provêm de fazendas biodinâmicas, projetadas e inspiradas no conceito “organismo fazenda”. Vemos que o conceito organismo se estende não somente à produção agrícola, mas também ao ser humano que consome o produto agrícola, assim como a todas as dimensões de formas vivas na Terra, assim como à própria Terra.
Como em todos os organismos vivos, quando falha um órgão essencial, o organismo não sobrevive. Este conceito pode ser transportado na prática para a fazenda onde, com falta d’água, falta de insetos, falta de fertilidade, falta de equilíbrio ecológico, a produção falhará, o “organismo fazenda” falhará. O organismo “é algo anímico, exteriormente limitado por um feitio e interiormente articulado por órgãos”. Assim também percebemos o organismo agrícola. O que delimita uma propriedade agrícola? Um rio, uma barreira natural ou uma cerca? Sabemos que é a intenção humana que preenche o espaço do organismo adequadamente 21. A intenção humana saberá dar à estrutura de produção todos os elementos necessários para o seu desenvolvimento, para a sua vitalidade, provendo os espaços apropriados para os animais e para as atividades de produção e de desenvolvimento humano.
Se quisermos perpetuar a produção agrícola de forma limpa e sustentável, precisamos não só reconhecer, mas tomar como base para estudo e aplicação prática o conceito “organismo fazenda”, perceptível também na Teoria de Gaia, de James Lovelock, hoje totalmente aceita e inserida no meio científico internacional 18. Há uma linha evolutiva de organismo, cientificamente descrita, que parte da forma mais simples de vida até a mais complexa, a Terra em si, partindo do vírus ou bactéria, passando por organismos unicelulares, microorganismos do solo, ar e água, pequenas plantas, animais, o ser humano, a fazenda, o vale, o ecossistema, vale ou região, a região como bacia hidrográfica, paisagem, continente e, finalmente, a Terra, o planeta. Ao longo de toda esta linha evolutiva e, por que não, desta evolução dimensional, o manejo destes organismos deve ser inspirado em sistemas de produção que sustentam, apóiam e desenvolvem o vivo e não que, paulatinamente, matam o “paciente” com contaminações e depredações ambientais. O resultado destas ações salta aos olhos com o passar das gerações. Exemplo disso é a redução do nível de água em toda a bacia hídrica central brasileira. O biologista francês Francis Chaboussou 19 propôs uma teoria para explicar a susceptibilidade de plantas e animais ao ataque de pragas e doenças, a teoria da Trofobiose. De acordo com esta teoria, pragas só podem sobreviver em plantas que têm nível excessivo de nutrientes solúveis na sua seiva ou tecidos, como aminoácidos, açúcares, nucleotídeos e minerais. O excesso pode ocorrer por causa da inibição de proteossíntese, pela predominância de proteólise sobre a proteossíntese ou excessiva produção de aminoácidos.
A inibição pode ser causada por pesticidas ou por nutrição desbalanceada. Excesso de aminoácidos vem do excesso de adubação nitrogenada química. Com este fato percebemos o quanto é fácil hoje “provocar” o surgimento de pragas e doenças nas plantas, por conseqüência em animais e, por fim, no próprio ser humano. O desequilíbrio nutricional, muitas vezes, é sutil, porém leva a doenças degenerativas - no caso, principalmente por excesso de substâncias prejudiciais ou por falta de síntese das substâncias corretas.
O que foi descrito nos parágrafos anteriores mostra como a “integralidade” do organismo é perturbada, provocando desequilíbrio, levando a processos de doença. Não estão inclusas aqui nem as causas genéticas nem as sociopsíquicas, que são componentes importantes e deverão ser abordadas em ambiente apropriado.
Precisamos criar uma ciência agronômica e nutricional que leve em consideração os fatores descritos e que possa restituir o conceito de saúde, equilíbrio e sustentabilidade, sem que ocorra a cegueira imputada a nós através de uma forma de pensar baseada somente no binômio causa-efeito, mas sim que se baseie no conceito “interação sistêmica do organismo”. Prova cabal de que isto é possível é o resultado de pesquisa realizada entre um grupo de freiras em Heiligenbronn, na Alemanha, com alimentação convencional e alimentação biodinâmica, avaliando aspectos de saúde física, psicológica e mental, descrito a seguir.

De que nos adiantará saber, por exemplo, que o Licopeno 20, carotenóide encontrado em tomate, protege contra câncer de próstata (alimentos funcionais), se o próprio tomate é, na sua produção, bombardeado de agrotóxicos que nos incutem esta e outras doenças?
Para fazer valer a regra geral de que uma alimentação rica, farta e variada é a melhor receita para a saúde, ou para aplicarmos dietas baseadas em alimentos funcionais saudáveis, precisamos fazer valer também a qualidade biodinâmica dos alimentos.
Aqueles profissionais que se acham responsáveis pela saúde do planeta e pela saúde dos seres humanos poderão dar uma grande contribuição, direcionando suas ações à agricultura biodinâmica e ao consumo consciente destes produtos biodinâmicos certificados que, mais do que nunca, também devem ser considerados medicamentos, a serem assimilados de forma rotineira e diversificada. Quanto mais isto for feito, menor serão o perigo de perdermos a sustentabilidade ecológica do planeta e das contaminações e perda de qualidade dos alimentos.
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Publicado na Revista Nutrição Profissional 19 (Maio/Junho 2008)
Observa-se em todo o planeta uma queda vertiginosa na qualidade ambiental e na sustentabilidade geral dos sistemas produtivos, perdas qualitativas dos alimentos gerados, poluição, destruição ambiental, potenciais deficiências nutricionais e contaminações prejudiciais à saúde. Recentes pesquisas em institutos nacionais e estrangeiros relacionam uma maior incidência de doenças degenerativas com a contaminação direta ou indireta por pesticidas 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10, 13, 19.



















