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Sáb, 23 de Janeiro de 2010 20:06

A Qualificação de Pesquisadores e as Exigências da Indústria

Carlos Firmo da Silva Rover
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Quando se fala em Pesquisa e Desenvolvimento (P&D), é muito comum associar este termo com ciência. Segundo Krieger (1): “É a ciência que gera conhecimento para que o setor produtivo o transforme em tecnologia e inovação. E é isso que aumenta a capacidade produtiva e a riqueza de um país, dando condições para o desenvolvimento social e econômico. O moderno sistema de ciência e tecnologia é um círculo virtuoso: a pesquisa gera novas aplicações, e as aplicações geram novas tecnologias que alimentam as pesquisas. É isso que permite aos países industrializados se distanciarem cada vez mais dos em desenvolvimento”.

No caso específico da indústria farmacêutica, a área de P&D é quase sempre associada com as atividades e o conhecimento necessário para o desenvolvimento de novos fármacos, muito importante para uma estratégia competitiva, que tem como objetivo o freqüente lançamento de novos produtos, que é condição básica para a manutenção e/ou ampliação da presença no mercado. As atividades relacionadas com o ciclo de pesquisa e desenvolvimento de um novo fármaco são: atividades de desenvolvimento dos processos de síntese de novas substâncias ou extração de princípios ativos de fontes naturais, testes de eficácia, toxicidade, potencial teratogênico, testes farmacológicos, estudos farmacotécnicos e ensaios clínicos (2). Portanto, este ciclo complexo não apenas é de longa duração, mas também demanda elevados investimentos financeiros. Para comprovar que parcela muito significante do total de vendas tem sido empregada por empresas farmacêuticas na área de P&D, cita-se alguns exemplos:

-A norte-americana Pfizer: US$ 45,2 bilhões de vendas em 2003, e US$ 7,9 bilhões de orçamento estimado em P&D, o equivalente a 17,5% do total de vendas (3);

-A inglesa GSK (GlaxoSmithKline): US$ 35,2 bilhões de vendas em 2003, e 4 bilhões de orçamento em P&D, o equivalente a 11,4% do total de vendas, e 16% do total de empregados no mundo todo trabalhando com P&D (4);

-A suíça Novartis, com US$ 24,9 bilhões de vendas em 2003, e US$ 3,8 bilhões de investimento em P&D, o equivalente a 15,3% do total de vendas (5);

-A norte-americana Bristol-Myers Squibb, com US$ 20,9 bilhões de vendas em 2003, e US$ 3,5 bilhões de investimento em P&D, o equivalente a 16,8% do total de vendas (6);

-A francesa Aventis, com 16,79 bilhões de euros de vendas em 2003, e 2,86 bilhões de euros de investimento em P&D, o equivalente a 17% do total de vendas (7).

Os laboratórios e centros de pesquisa e desenvolvimento destas grandes empresas estão quase sempre instalados nos chamados países do primeiro mundo (também conhecidos como países desenvolvidos ou países industrializados), mais especificamente falando dos Estados Unidos da América e de alguns países da Europa. No caso do Brasil, o cenário é um pouco diferente. Nas empresas que operam no País (as nacionais e as multinacionais), as inovações relacionadas com P&D são quase sempre determinadas internacionalmente, caracterizando o Brasil como dependente de importação de matérias-primas. Além disso, estudos demonstram que as decisões de investimento em P&D são fundamentadas pela disponibilidade de capital humano, com grande conhecimento acumulado e, portanto, com elevada capacidade tecnológica (2). E, como citado anteriormente, P&D está intimamente ligada à produção científica. Enquanto que a produção científica está concentrada nos países da América do Norte (cerca de 40%), nos países da Europa (cerca de 40%), e nos países da Ásia/Pacífico (cerca de 18%), as demais regiões do mundo, nas quais está inclusa a América Latina, são responsáveis por uma pequena fatia, de cerca de apenas 3% da produção mundial (1).

Até a bem pouco tempo a indústria nacional focava os esforços na cópia de medicamentos, até mesmo porque não havia uma legislação de patentes, e assim não havia a obrigatoriedade de pagar royalties e, conseqüentemente, não havia o estímulo para o investimento em pesquisa e desenvolvimento. Tal legislação foi aprovada apenas recentemente, em 1996 e, após décadas sem investir em P&D, os laboratórios nacionais passaram a procurar parcerias com universidades e instituições de pesquisa, de maneira a buscar a viabilização de novas drogas e patentes (8). A soma de dinheiro investido no Brasil em P&D ainda é muito distante da realidade de outros países. Enquanto que nos países desenvolvidos as empresas farmacêuticas investem até cerca de 18% do total de suas vendas, no Brasil este percentual historicamente gira em torno de 1% (1). Mas resultados têm aparecido, mesmo considerando o elevado ciclo de vida de desenvolvimento de um novo produto, que chega a 15 anos. Além disso, o potencial latente do mercado mundial de fitoterápicos, no qual o Brasil ocupa posição vantajosa, por causa da abundante flora disponível, está em torno de US$ 60 bilhões / ano, o que justifica os investimentos em P&D neste setor (8).

Portanto, do ponto de vista de pesquisa e desenvolvimento voltados para novos fármacos, talvez a principal necessidade das indústrias instaladas nos países do primeiro mundo seja a implementação e utilização de sistemáticas e metodologias, nos centros de pesquisa e desenvolvimento, que permitam que o ciclo se torne mais rápido e menos oneroso que o atual. Como exemplo, o tempo médio para produzir um novo fármaco saltou de 35 meses, no início dos anos 1960, para até mais de 145 meses, no final da década de1980, sendo que este último prazo não é muito diferente da situação atual. Portanto, os atuais obstáculos metodológicos precisam ser superados (2), e é extremamente necessário não apenas que os pesquisadores busquem e sejam estimulados a buscar competências voltadas para a diminuição do tempo do ciclo de pesquisa e desenvolvimento de um novo fármaco, mas também reduções de custos neste processo. Além disso, é preciso investir em uma melhor interface entre os centros de pesquisa e desenvolvimento e os centros de manufatura, de modo que os processos de manufatura sejam baseados mais em ciência e menos em métodos empíricos e de tentativa e erro. É extremamente relevante a capacitação dos pesquisadores no sentido de buscar novas e melhores interfaces.

E, no caso da indústria instalada no Brasil, principalmente das nacionais, que não possuem vinculações com matrizes externas e, portanto, dependem de investimentos em P&D para disponibilizarem novos fármacos ao mercado, talvez as principais necessidades sejam:

-Investimentos em conhecimento e desenvolvimento de capital humano;

-Parcerias com universidades e instituições de pesquisa;

-Investimentos do setor privado e do governo para atividades de P&D. Enquanto que os países do primeiro mundo gastam cerca de 3% do Produto Interno Bruto (PIB) com ciência e tecnologia, no Brasil o investimento não chega a 1% (1).

Além dos trabalhos voltados para o desenvolvimento de novos produtos, ainda existe outro tipo de trabalho de pesquisa e desenvolvimento que pode ser chamado de P&D em manufatura, muito comum dentro das indústrias nacionais ou multinacionais, estejam elas instaladas ou não no Brasil. Este trabalho é desenvolvido por profissionais que possuem a nada fácil missão de desenvolver novas apresentações de um fármaco existente no mercado, de acordo com oportunidades identificadas pelos times de marketing, ou a missão de adequar os fármacos existentes a novas exigências dos clientes e/ou dos órgãos regulatórios nacionais e/ou internacionais. Ou seja, fala-se de uma área de P&D diretamente relacionada com a manufatura das formas farmacêuticas, na qual trabalham normalmente equipes pequenas, que lidam no seu dia-a-dia com conhecimento de altíssimo valor agregado. Os nomes dos departamentos ou sub-departamentos aos quais estas equipes pertencem variam bastante de empresa para empresa: Tecnologia Industrial, Serviços Técnicos, Desenvolvimento de Produtos e Processos, dentre outros. E o foco do trabalho também varia dependendo da empresa. Na maior parte dos casos, o desenvolvimento de novas apresentações e a adequação dos fármacos existentes estão incluídos na rotina dos trabalhos. Muitas vezes é também missão destas equipes desenvolver sistemáticas de otimização dos processos atuais, ou realizar o chamado trouble-shooting, que consiste na resolução dos problemas dos processos.

Referente ao tamanho das equipes que normalmente trabalham com P&D em manufatura, investir fortemente nesta área ainda é um paradigma para várias indústrias farmacêuticas, mesmo considerando aquelas cujas plantas estão instaladas nos países do primeiro mundo. Apesar dos esforços de pesquisa e desenvolvimento estarem quase todos voltados para novos fármacos, as atividades de P&D em manufatura deixam a desejar. Reportagem publicada na revista BusinessWeek (9) classifica a manufatura como a “pobre criança adotada” da indústria farmacêutica, e ressalta que apenas agora esta área está ganhando a atenção que merece. O artigo ressalta ainda que a própria Food and Drug Administration  (FDA), órgão pertencente ao governo dos EUA, e regulamentador das indústrias farmacêuticas instaladas naquele país, está alterando suas regras, de maneira a promover maior inovação tecnológica para estas indústrias. Janet Woodcock, uma especialista da FDA, ressalta no artigo que a manufatura foi sempre observada muito mais como arte do que como ciência, e que a estratégia tradicional de desenvolvimento de novos processos de manufatura sempre foi a tentativa e erro. E a inspeção de qualidade sempre foi marca dos processos farmacêuticos, agregando custo e aumentando o tempo de ciclo destes processos.

O desenvolvimento de novas tecnologias, como as Tecnologias Analíticas de Processo, ou Process Analytical Technology (PAT), permite determinar praticamente em tempo real se a mistura dos ingredientes ativos e não ativos está apropriada, ou a distribuição granulométrica de formas farmacêuticas sólidas, eliminando assim a necessidade de se interromper o processo para se aguardar o resultado do laudo com os resultados analíticos de amostras retiradas, ou mesmo eliminando a possibilidade de detecção tardia de desvios analíticos, o que poder gerar reprocessos ou a perda do lote. Tal conhecimento está levando a FDA a revisar a sistemática de inspeção. Acredita-se, por exemplo, que em muito pouco tempo a FDA vai passar a cobrar das indústrias não só um adequado monitoramento e controle de seus processos, mas principalmente um adequado conhecimento dos mesmos.

Assim sendo, uma das necessidades da indústria para P&D em manufatura é muito similar às necessidades para pesquisa e desenvolvimento de novos fármacos: Investimento no conhecimento e no capital humano. É o que se chama “gestão do conhecimento”. Pensando no longo-médio prazo, o que parece melhor: Investir em especialistas em garantia e/ou controle de qualidade, especialistas em engenharia e/ou manutenção, especialistas em gestão da cadeia de suprimentos? Ou investir em especialistas em tecnologias de processamento de formas farmacêuticas? Profissionais que conhecem bem os processos farmacêuticos estão aptos a trabalhar em qualquer departamento diretamente ligado à manufatura, ou que seja de suporte à manufatura. E a recíproca nem sempre é verdadeira. Pensando na cadeia logística de um determinado produto, é o beneficiamento do mesmo, ou seja, são os processos de manufatura, que efetivamente agregarão valor à cadeia. Portanto, definitivamente é um bom negócio investir no conhecimento destes processos. O que se observa é que empresas que investem na capacitação de seus profissionais em processos de manufatura têm não somente um desempenho  muito melhor sob a ótica de performance industrial global, mas também um tempo de resposta muito menor perante à variabilidade normal do mercado, e também aos imprevistos e desvios de manufatura.

Uma das particularidades da indústria farmacêutica, se comparada a outros segmentos industriais, é o fato dos seus equipamentos de manufatura serem quase todos fornecidos por poucos fabricantes nacionais ou internacionais, que fornecem quase sempre modelos de catálogo. Ou seja, é pouco comum encontrar equipamentos desenvolvidos sob medida para um determinado cliente e, desta maneira, é muito comum encontrar exatamente os mesmos equipamentos de manufatura em diversas indústrias farmacêuticas concorrentes. Outra particularidade das farmacêuticas é o que se chama de networking, ou seja, o bom relacionamento entre profissionais de empresas concorrentes que trocam informações técnicas periodicamente e promovem, muitas vezes, a visita de concorrentes nas plantas. Isso acontece justamente pelo fato de que há poucos segredos a se guardar sobre instalações prediais, sistemas e equipamentos de manufatura, e pelo fato de haver muita padronização por meio das regulamentações da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA), ou seja, exige-se similaridades de todas as indústrias farmacêuticas.

Porém, os produtos de cada empresa têm várias particularidades, mesmo considerando que são manufaturados em equipamentos idênticos ou similares de outras indústrias concorrentes. E os processos de manufatura de cada produto específico são bastante diferentes entre si e, portanto, apresentam particularidades do ponto de vista de parâmetros de processos e variáveis analíticas. Mesmo fármacos parecidos, manufaturados por empresas concorrentes e em equipamentos similares, possuem, na grande maioria dos casos, enormes diferenças quando o assunto são detalhes dos processos de manufatura. Portanto, um bom profissional de P&D em manufatura é aquele que conhece não exatamente os processos de manufatura das formas farmacêuticas de um modo geral, mas sim os detalhes e particularidades dos diversos processos da empresa em que está trabalhando atualmente, ou da empresa em que trabalhou. Evidentemente um forte embasamento em conhecimentos teóricos adquiridos por meio de experiência acadêmica benéfica ou de cursos de atualização, e/ou experiência prática de qualidade, ajudam muito a definir um bom profissional de P&D em manufatura, mas não são suficientes. Assim, com base no fato de que cada produto e/ou processo tem suas particularidades, formar um profissional de P&D em manufatura é um investimento em médio-longo prazo.

E quais seriam as exigências da indústria para estes profissionais? Além do forte embasamento teórico e de experiência prática, é preciso também conhecimento e vivência multidisciplinar e multifuncional. O que não era raro encontrar no passado, ou seja, profissional de P&D em manufatura extremamente especializado e trabalhando de forma isolada dentro de laboratórios e plantas pilotos, hoje é algo que faz pouco sentido. É pouco provável que tal profissional não possua forte interação com os outros times de manufatura, e também é pouco provável que não seja requerido do mesmo o conhecimento não apenas dos processos de uma forma farmacêutica específica, mas também de outros tipos de formas farmacêuticas. Ou seja, exige-se deste profissional habilidade para negociar com os times de manufatura e com os times de suporte à manufatura, e mesmo com os clientes da manufatura, que normalmente são as equipes comerciais. Assim sendo, entrando também no campo de habilidades intra e interpessoais, a análise não é diferente. A forte necessidade de interação entre estes profissionais e as demais equipes de manufatura e de suporte à manufatura, a necessidade freqüente de ser um líder situacional (que acontece ao ser necessário coordenar pessoas para se cumprir uma determinada tarefa ou projeto), a necessidade de se negociar com clientes internos, externos e fornecedores, a necessidade de treinar colegas de trabalho em tecnologia farmacêutica, dentre outras várias necessidades, retiram o profissional de P&D em manufatura do laboratório e das plantas pilotos, levando-os cada vez mais a não apenas executar as atividades de pesquisa e desenvolvimento, mas também a gerir tais atividades. Ou seja, por mais paradoxal que possa parecer a afirmação, o profissional atual de P&D em manufatura necessita ser especialista e generalista, executor e gestor, desenvolvendo todas estas habilidades de maneira simultânea.

Como conclusão, é fato que ainda há um longo caminho a ser trilhado pelas indústrias farmacêuticas instaladas no Brasil, quando o assunto é pesquisa e desenvolvimento, seja nas atividades visando novos fármacos, ou nas atividades voltadas para a área de manufatura. Mas é fato também que iniciativas estão em curso, e que resultados têm aparecido. Espera-se, portanto, que o fomento a esta área continue crescendo no País para que, pelo menos no que se refere ao mercado farmacêutico, se possa explorar de maneira adequada o potencial existente, e assim ampliarmos o espaço no ambiente competitivo mundial.

Referências Bibliográficas

1. A ciência só avança com a participação da sociedade. Entrevista com Eduardo Moacyr Krieger, disponível em http://lqes.iqm.unicamp.br/canal_cientifico/pontos_vista/pontos_vista_entrevistas5-1.html

2. Santos, S. C. M., Melhoria da equidade no acesso aos medicamentos no Brasil: os desafios impostos pela dinâmica da competição extra-preço. Capítulo 3: Mercado Farmacêutico: Caracterização e dinâmica competitiva. Fundação Oswaldo Cruz, Escola Nacional de Saúde Pública, 2001.

3. http://www.pfizer.com/main.html

4. http://www.gsk.com/index.htm

5. http://www.novartis.com

6. http://www.bms.com/landing/data/index.html

7. http://www.aventis.com/main/home_static.asp

8. Laboratórios do País redescobrem a pesquisa. A indústria passou décadas copiando remédios, mas agora está atrás de novidades. Reportagem publicada no jornal O Estado de São Paulo, em 15/2/2004. Escrito por Ruth Helena Bellinghini. Disponível em http://www.unicamp.br/unicamp/canal_aberto/clipping/fevereiro2004/clipping040215_estadao.html#2

9. Making pills the smart way. Special report – Quality manufacturing. Disponível em http://www.businessweek.com/magazine/content/04_18/b3881602.htm

Publicado na Revista Fármacos & Medicamentos 28 (Maio/Junho 2004)

Atualizado em Sex, 05 de Fevereiro de 2010 11:19
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