Introdução
A qualidade do sono influencia diretamente a saúde dos indivíduos. Deve-se observar alguns fatores no tratamento farmacológico, como utilizar a menor dose efetiva e estar atento para abuso, dependência e tolerância. É importante também que se conheça a farmacocinética e a farmacodinâmica dos diversos medicamentos, além das possíveis interações medicamentosas.
Insônia
A insônia é um distúrbio que ocorre com freqüência e, definida como dificuldade em adormecer, como dificuldade em manter o sono ou como sono não reparador 1-4. A insônia classifica-se em: (1) Insônia associada a transtornos do sono: transtornos respira- tórios (apnéias, hipopnéias e aumento da resistência das vias aéreas), transtorno dos movimentos periódicos dos membros, Síndrome das Pernas Inquietas (SPI), bruxismo e parassonias; (2) insônia associada a fatores ambientais e higiene do sono inadequada; (3) insônia associada a transtornos psiquiátricos; (4) insônia associada a transtornos neurológicos; (5) insônia associada a outras doenças (distúrbios da tireóide, doença pulmonar obstrutiva crônica, asma, doença do refluxo gastroesofágico, fibromialgia, neoplasia, Síndrome da Imunodeficiência Adquirida (AIDS); (6) insônia associada a utilização de substâncias - estimulantes do Sistema Nervoso Central (SNC), anti-hipertensivos, antidepressivos, benzodiazepínicos e fenobarbital; (7) insônia associada a transtornos circadianos; (8) insônia psicofisiológica primária; (9) insônia idiopática; (10) maléfica percepção do estado de sono 3.
O tratamento da insônia consiste no diagnóstico correto, no tratamento da causa se for possível detectá-la, nas medidas psicológicas e medicamentosas corretas, além de mudança de hábitos de vida. Ampla variedade de agentes possuem a capacidade de deprimir a função do SNC, provocando calma ou sonolência. O agente sedativo reduz a atividade, modera a excitação e acalma o indivíduo, enquanto o agente hipnótico produz sonolência e facilita o início e a manutenção de um estado de sono, que se assemelha ao sono natural em suas características eletroencefalográficas e do qual o indivíduo pode ser facilmente acordado 2. Os benzodiazepínicos e agentes sedativo-hipnóticos não-benzodiazepínicos são os medicamentos mais utilizados para o tratamento da insônia.
Benzodiazepínicos
Acredita-se que os benzodiazepínicos (BZD) exerçam a maioria dos seus efeitos ao interagir com receptores de neurotransmissores inibitórios diretamente ativados pelo ácido gama-aminobutírico (GABA). Os receptores de GABA são proteínas ligadas à membrana, que podem ser divididos em dois subgrupos principais: GABAA e GABAB. Os receptores GABAA inotrópicos são compostos de cinco subunidades que se organizam para formar um canal de cloreto.
Os receptores GABAA são responsáveis pela maior parte da neurotransmissão inibitória no SNC e a ligação de suas diferentes subunidades com diferentes grupos de agonistas produzem um espectro de efeitos farmacológicos: sedação, indução do sono, diminuição da ansiedade, relaxamento muscular, amnésia anterógrada, atividade anti-epiléptica e relaxamento muscular 2.
Recentemente descobriu-se três subtipos de receptores: o receptor BZD1, atualmente chamado de omega 1 (existente no SNC em áreas responsáveis pela manutenção do ciclo sono-vigília e sedação), o receptor BZD2 ou ômega 2 (mais concentrado em áreas do SNC responsáveis pela cognição, pela memória e pelas funções psicomotoras) e o receptor BZD3 (localizado fora do SNC, principalmente relacionado ao relaxamento muscular).
Diazepínicos como o estazolam, o flurazepam, o triazolam, o clonazepam, o diazepam, o midazolam e o flunitrazepam atuam nos receptores BZD1 e BZD2. Os benzodiazepínicos sofrem, essencialmente, absorção completa. Os fármacos ativos no receptor de benzodiazepínicos podem ser divididos em quatro categorias: BZD de ação ultracurta, BZD de ação curta (t1/2 inferior a 6 horas), BZD de ação intermediária (t1/2 6-24 horas) e BZD de ação longa (t1/2 superior a 24 horas) 2. Benzodiazepínicos de ação longa devem ser utilizados com cautela em pacientes idosos 3.
Os BZD e seus metabólitos ativos ligam-se às proteínas plasmáticas. A extensão da ligação apresenta estreita relação com a lipossolubilidade e varia cerca de 70% para o alprazolam até cerca de 99% para o diazepam. A concentração no líquido cefalorraquidiano é aproximadamente igual à concentração plasmática. Os BZD são extensamente metabolizados por enzimas da família
P450, em particular CYP3A4 e CYP2C19. A eritromicina, a claritromicina, o ritonavir, o itraconazol, o cetoconazol, a nefazodona e o suco de toranja (grapefruit) são inibidores da CYP3A4 e, portanto, podem afetar o metabolismo dos benzodiazepínicos 2. Cimetidina e contraceptivos orais inibem a n-desalquilação e a 3-hidroxilação, favorecendo o aumento da meia-vida 3.
Os principais efeitos adversos incluem sedação residual durante o dia, comprometimento da memória, quedas, depressão da ventilação, insônia rebote, abuso da medicação, desenvolvimento de tolerância, dependência e dificuldade de retirada do medicamento 3.

Agentes sedativo-hipnóticos não-benzodiazepínicos
Estes compostos atuam de maneira distinta os receptores GABAA. Os hipnóticos dessa classe incluem a zopiclona e o zolpidem.
O zolpidem é um agente hipnótico pertencente ao grupo das imidazopiridinas e mostra-se eficaz no alívio da insônia. Há evidências de que o zolpidem possui eficácia hipnótica persistente, sem ocorrência de insônia rebote com a interrupção abrupta da utilização do medicamento. Ele é rapidamente absorvido pelo trato gastrointestinal, com pico de concentração plasmática em torno de uma hora. A biodisponibilidade oral é cerca de 70%, mas esse valor é mais baixo se o fármaco for ingerido com alimentos. O zolpidem é eliminado quase totalmente por conversão em produtos inativos no fígado e sua meia vida plasmática é de cerca de duas horas. Embora pouco ou nenhum zolpidem inalterado seja encontrado na urina, a eliminação do fármaco é mais lenta em pacientes com insuficiência renal crônica 2.
A zopiclona é um agente hipnótico pertencente ao grupo das ciclopirrolonas que reduz o tempo de início do sono e a freqüência dos despertares noturnos, melhorando a qualidade do sono e do despertar. O fármaco é prontamente absorvido no trato gastrointestinal, com pico de concentração plasmática em torno de 0,5 a duas horas. A biodisponibilidade é de 80% e a ligação protéica ocorre com 45% da dose absorvida. A metabolização é hepática e a eliminação é renal e pulmonar. Por apresentarem um perfil farmacológico mais seletivo e maior especificidade no efeito hipnótico, zolpidem e zopiclona melhoram a continuidade do sono e produzem menor quantidade de efeitos residuais, sendo seguros para tratar a insônia 3.

Antidepressivos com ação sedativa
Os medicamentos antidepressivos são alternativas para pacientes que não devem receber benzodiazepínicos, especialmente aqueles que apresentam depressão, dor ou risco de abuso de substâncias. A utilização de antidepressivos para insônia sem o diagnóstico de depressão é comum, porém não está bem estabelecido. Sedativos antidepressivos como a amitriptilina e nortriptilina são eficazes na manutenção da continuidade do sono, embora possa ocorrer sedação diurna 4. Os antidepressivos tricíclicos produzem efeitos muscarínicos: boca seca, constipação, tontura, gosto metálico na boca, mal-estar gástrico, risco de glaucoma, retenção urinária, taquicardia, palpitações, hipotensão ortostática e aumento de risco de arritmias. Os antidepressivos atípicos produzem efeitos colaterais potencialmente menos perigosos do que os antidepressivos tricíclicos. Os principais efeitos da mirtazapina são ganho de peso e sonolênciaresidual durante o dia. A trazodona pode produzir priapismo.

Anti-histamínicos
Os anti-histamínicos apresentam propriedades sedativas e muitos são considerados como agentes de sono isentos de prescrição. Esses medicamentos são eficazes no tratamento da insônia leve e geralmente são seguros. A difenidramina e a doxilamina são mais sedativos do que a pirilamina. Em um estudo, pacientes relataram que a difenidramina provoca sedação equivalente a 60mg de pentobarbital. Os eventos adversos dos anti-histamínicos são considerados mínimos 4.

Tratamento de primeira escolha
Atualmente, os hipnóticos não-benzodiazepínicos são os medicamentos de primeira escolha no tratamento da insônia. O zolpidem pode ser utilizado com segurança, pois apresenta meia-vida de eliminação curta, potencial reduzido em causar dependência e tolerância, além de não aumentar significativamente o risco de apnéia e depressão respiratória. Não deve ser ingerido próximo da refeição, o que pode alterar sua absorção. É importante que o indutor do sono seja administrado somente na hora de dormir para evitar amnésia anterógrada. A zopiclona geralmente é bem tolerada, mas apresenta número maior de efeitos colaterais 3.
Síndrome da Apnéia Obstrutiva do Sono (SAOS)/Síndrome da Apnéia e Hipopnéia Obstrutiva do Sono (SAHOS)
A Síndrome da Apnéia Obstrutiva do Sono (SAOS) e a Síndrome da Apnéia e Hipopnéia Obstrutiva do Sono (SAHOS) ssão definidas como episódios recorrentes de obstrução parcial (hipopnéias) ou total (apnéias) da via aérea superior durante o sono. Os eventos são finalizados por despertares. A primeira ação no tratamento de SAOS e SAHOS é eliminar os fatores contribuintes, como perda de peso, utilização de álcool e sedativos, principalmente antes de deitar 5, 8.
Embora a acetazolamida, a medroxiprogesterona e a fluoxetina sejam utilizadas no tratamento de SAOS, eesses medicamentos não possuem eficácia comprovada. A modafinila é um medicamento aprovado pela Food and Drug Administration (FDA) para utilização em pacientes que apresentam sonolência diurna residual apesar da utilização ideal do Continuous Positive Airway Pressure (CPAP) 5, 6.
Se o tratamento de escolha for a utilização contínua do CPAP, antes de se iniciar o tratamento com modafinila, deve-se tentar tratar o paciente por um período de tempo adequado com CPAP. A modafinila é uma medicação indicada como tratamento adjunto na obstrução de via aérea superior, e se a modafinila for utilizada em conjunto, são necessários estímulo à utilização e acompanhamento periódico do CPAP.
A modafinila é um estimulante não-anfetamínico que promove o estado de vigília. Seu mecanismo de ação exato é desconhecido. É rapidamente absorvida pelo trato gastrointestinal, com pico plasmático entre duas e quatro horas. A principal via de eliminação é o metabolismo hepático (cerca de 90%), com subseqüente eliminação renal dos metabólitos. A dose usual é de 200 mg/dia em tomada única matinal ou dividida em duas tomadas, sendo uma pela manhã e outra ao meio-dia. Em pacientes com insuficiência hepática, a dose da modafinila deve ser reduzida à metade. A utilização concomitante da modafinila com diazepam, propranolol, fenitoína e/ou antidepressivos tricíclicos pode causar elevação nas concentrações desses fármacos. A utilização simultânea da modafinila com ciclosporina e contraceptivos pode resultar na redução da eficácia desses medicamentos. A coadministração de modafinila com carbamazepina, com fenobarbital e/ou com rifampicina pode resultar na redução de sua eficácia. A utilização concomitante de itraconazol e cetoconazol pode resultar no aumento da exposição à modafinila. Os pacientes devem ser observados quanto aos sinais de utilização indevida ou abuso 5.
Narcolepsia
A narcolepsia é uma doença rara que, classicamente, pode apresentar-se com os seguintes sintomas: sonolência excessiva, cataplexia, paralisia do sono, alucinações hipinagógicas e sono fragmentado. Pode ser monossintomática, apresentando somente sonolência excessiva, ou oligossintomática, com sonolência excessiva e cataplexia. O paciente deve ser orientado a não ingerir bebidas alcoólicas, não utilizar sedativos e a atentar para medicamentos que possam promover o sono, como antihistamínicos e neurolépticos.
O tratamento da narcolepsia inclui estimulantes do sono, como a modafinila e o metilfenidato. O principal efeito dos estimulantes é diminuir o tempo de sono, aumentando a vigília. Os indivíduos sob o efeito desses medicamentos apresentam melhor desempenho, diminuição da fadiga e da sonolência, melhora do humor e da cognição. Os principais efeitos colaterais são insônia, euforia, anorexia, cefaléia, aumento da pressão arterial e da freqüência cardíaca.
O metilfenidato é uma droga estimulante do SNC, com características semelhantes às das anfetaminas. É encontrado na apresentação de comprimidos de 10 mg, com meia-vida ao redor de quatro horas, sendo utilizados de duas a três vezes ao dia e também em apresentação de liberação lenta de 20 mg e 30 mg. A dose habitual varia entre 10 mg/dia e 60 mg/dia 9.
A modafinila tem sido utilizada como primeira escolha no tratamento da narcolepsia e da hiperssonia idiopática, mas vários estudos utilizadoutilizam esse medicamento para tratar outras condições, como sonolência e fadiga relacionadas a doenças neurológicas e psiquiátricas, déficit de atenção, distúrbios em indivíduo trabalhador de turno e sonolência residual na SAHOS em tratamento com CPAP. Possui vantagens por atuar em áreas cerebrais mais específicas, causando menor alteração de humor, pouca alteração cardiovascular, baixa tolerância e dependência 7. Os antidepressivos tricíclicos são as drogas de escolha para o tratamento das crises de cataplexia.

Atuação do farmacêutico
A atuação do farmacêutico objetiva melhorar o resultado clínico dos fármacos, por meio da atenção farmacêutica para promover a utilização segura, a prevenção de problemas relacionados aos medicamentos, como intoxicações, e promover a aderência ao tratamento.
A utilização irracional de medicamentos é um importante problema de saúde pública. Necessita-se considerar o potencial de contribuição do farmacêutico e efetivamente incorporá-lo às equipes de saúde, garantindo-se assim a utilização adequada e racional dos medicamentos. Os fármacos utilizados na terapia dos distúrbios do sono, em sua maioria, são regulados pela Portaria nº 344/1998 da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA), que aprova o regulamento técnico sobre substâncias e medicamentos sujeitos a controle especial.
É fundamental a atuação do farmacêutico no armazenamento, na dispensação, no apoio à equipe multiprofissional e na orientação aos pacientes. Com essa participação, os pacientes com distúrbios do sono terão melhor acesso a informações sobre o diagnóstico, o tratamento e a gestão de suas condições.
O farmacêutico hospitalar possui ainda a possibilidade de atuar junto à equipe médica por meio da avaliação farmacêutica da prescrição, apontando possíveis interações medicamentosas, interações medicamento-nutriente, adequação de dose para pacientes especiais, como idosos, aqueles compacientes com insuficiência hepática e pacientes com insuficiência renal, e auxiliando na adequação de freqüência e horário de administração dos medicamentos. Outra contribuição é a atuação na reconciliação medicamentosa, identificando os medicamentos que o paciente utililza e comparando com os medicamentos prescritos à admissão, à transferência ou à alta.
Atualmente, a participação do farmacêutico nos serviços de sono em geral é limitada. Desse modo, é importante que o profissional aprimore sua postura interdisciplinar para ampliar sua área de atuação, favorecendo a prática de uma terapia segura e racional.
Referências Bibliográficas
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2. Goodman & Gilman. As Bases Farmacológicas da Terapêutica. 10.ed., Mac Graw Hill, 2005, pag. 303-313.
3. Poyares D, Tufik S, Barros-Vieira S, Hora F, Minhoto G, Pinto LR, et al. I Consenso Brasileiro de Insônia, Sociedade Brasileira do Sono e Federação Latino Americana das Sociedades de Sono. Hypnos; 2003;4 (Supl 2).
4. Di Piro JP, Talbert RL, Yee GC, Matzke GR, Wells BG, Posey LM. Pharmacotherapy: A Pathophysiologic Approach. 6th Edition.2002, McGraw Hill, pags. 1321-1329.
5. Rinaldi V, et al. Snoring and Obstructive Sleep Apnea, CPAP. Disponível em www.emedicine.com, updated Oct 6, 2008.
6. Downey R, et al. Obstructive Sleep Apnea. Disponível em www.emedicine.com, updated Jul 30, 2009.
7. Bittencourt LRA, et al. Sonolência excessiva. Rev. Bras. Psiquiatr. 2005, vol.27, suppl.1 pp. 16-21.
8. Rowley JA. Obstructive Sleep Apnea-Hypopnea Syndrome. Disponível em www.emedicine.com, updated Apr 2, 2009.
9. Coelho FMS, et al. Narcolepsia. Rev psiquiatr clín. 2007, 34, 133-138.
Publicado na Revista Racine 113 (Novembro/Dezembro 2009)



















