Portal Racine
Banner

Você está aqui:Home>Portal Racine>Setor Industrial>Indústria Farmacêutica>A Cadeia Logística como Fator de Competitividade para a Indústria Farmacêutica
Ter, 14 de Setembro de 2010 17:08

A Cadeia Logística como Fator de Competitividade para a Indústria Farmacêutica

João de Araújo Prado Neto
Avaliar este artigo
(0 votos)

 

 

 

Montando o cenário

Toda a atividade humana que constitui um empreendimento complexo de trabalho, para atingir seus objetivos, necessita:
- Mobilizar os recursos disponíveis;
- Estabelecer normas de trabalho;
- Criar equipes;
- Especificar responsabilidades;
- Fiscalizar procedimentos.

Portanto, qualquer situação humana que se classifique como padronizada e repetitiva, deve ser de alguma forma dirigida no sentido de evitar perda de controle e desordem proveniente da falta de previsão e flexibilidade do seu programa (isto significa estudar o passado, controlar o presente e planejar o futuro).

Por outro lado, o aprimoramento contínuo na execução das operações de manufatura, agregando valor ao produto final percebido pelo cliente (Qualidade), estimula cada vez mais a concorrência entre as empresas. Esta competitividade (capacidade maior ou menor de vencer uma competição) representa, no mundo dos negócios, a diferença entre continuar operando ou fechar as portas.

Os fatores de competitividade entre as empresas de um mesmo ramo podem ser, intrínsecos (aqueles ligados à habilidade individual de produzir e comercializar com maior eficiência que seus concorrentes), ou sistêmicos (aqueles que não estão ligados à competência de uma determinada empresa e sim ditados pelas características da organização político-social que está em seu entorno).

Atualmente, com os mercados globalizados, os fatores sistêmicos podem determinar o sucesso ou o fracasso das empresas, independente do seu grau intrínseco de competência. Vamos analisar alguns fatores sistêmico que, dentro do mercado brasileiro, podem afetar tanto empresas do ramo farmacêutico assim como outros segmentos de um modo geral:

Fatores político-institucionais

Estabilidade das instituições e confiança na permanência das regras estabelecidas (países que dependem de créditos internacionais como o Brasil e a Argentina são avaliados por estes parâmetros); Percepção negativa de algumas áreas (social, ecológica, sanitária), dificultando ou impedindo a importação de produtos (vide o caso BSE, mais conhecido como “vaca louca”, restringindo o mercado de insumos); O desenvolvimento cultural de uma população (atrelado ao baixo poder aquisitivo, levando a população à automedicação e estimulando a “empurroterapia” o ponto de venda); A aptidão das autoridades governamentais de garantir acesso aos mercados internacionais e defender o mercado interno no que se refere às leis do comércio internacional.

Fatores de política econômica

O custo do dinheiro afeta os custos das empresas e também o nível do consumo interno, dois sustentáculos da competitividade externa; A política de câmbio (moeda fraca ajuda as exportações, mas prejudica economia interna; moeda forte rejudica as exportações e moeda instável é fatal para a conquista e manutenção de mercados internacionais).

Fatores de política fiscal

A carga tributária incidente sobre as mercadorias afeta diretamente a capacidade de investimento (onde a carga é mínima os países são mais competitivos, não é o caso do Brasil).

Fatores de infra-estrutura e logística

Para fabricar e entregar um produto farmacêutico no mercado interno e externo, pela sua característica de perecibilidade, é necessário levar em conta não só o transporte, mas também as condições de transporte das matérias-primas e dos produtos (as autoridades estão cada vez mais rígidas quanto ao controle sanitário dos produtos farmacêuticos ao longo da cadeia de  abastecimento); A rede de distribuição interna apresenta ocorrências de roubo, falsificação, adulteração de medicamentos vencidos em seus respectivos prazos de validade e até comercialização das “amostras grátis”; Muitos estabelecimentos de distribuição apresentam más condições e armazenamento e sem responsável técnico.

A competitividade dentro de uma economia fechada se dá em um espaço doméstico, num ambiente cujos fatores sistêmicos apresentam um peso semelhante para todos os concorrentes, portanto sua importância é reduzida. Diferentemente, a competitividade numa economia aberta tem espaço de competição global e nesse ambiente os fatores sistêmicos são diversos para competidores situados em diferentes países, assumindo grande relevância em sua capacidade de competição. As empresas (e principalmente as do ramo farmacêutico), para sobreviverem, lutam entre si, tanto pelo mercado doméstico como o internacional, utilizando cada parcela de competitividade possível.

A logística na cadeia de suprimentos

No ramo farmacêutico, o principal componente de um medicamento, o mais caro e sofisticado, encontra- se invisível: é a pesquisa de novos princípios ativos. A intensa pesquisa leva ao desenvolvimento de múltiplas especialidades farmacêuticas, pressionando as operações a:
Um curto ciclo de vida de um produto;
Proliferação de produtos, principalmente para os fármacos que perdem a patente;
Avanços em tecnologia e em novas formas de administração;
Globalização do mercado de insumos.

Estas tensões direcionam as empresas a tomadas de ações estratégicas, tais como:
Planejamento e gerenciamento da movimentação e fluxo dos materiais: dos insumos, passando pela manufatura, até o consumo no cliente final;
Incremento do nível de serviço ao cliente (SACs);
Redução do tempo total de atendimento (forte desafio em que a maioria dos insumos ativos depende de importação);
Redução dos custos totais (sem que a efetividade inerente do produto seja alterada);
Investimento em novos produtos e tecnologias para diferenciar-se no mercado e tornar-se mais competitivo;
Racionalizar os processos de manufatura.

As empresas manufatureiras são tradicionalmente estruturadas através de blocos funcionais: Suprimentos, Fabricação, Distribuição, Financeiro, Marketing e Vendas, que otimizam a produção de bens de consumo. Tais ações estratégicas, enumeradas acima, têm levado as empresas fabricantes a olhar através das responsabilidades e metodologias aplicadas individualmente em cada bloco funcional, permeando-os e integrando-os ao longo da cadeia de abastecimento; à procura de gargalos e restrições, tornando as previsões mais realistas e acuradas, permitindo uma melhor sincronização e otimização dos recursos.

A logística é a organização do fluxo de materiais, desde o fornecedor até o cliente final. É um processo complexo, envolvendo funções de compras, planejamento e controle da produção (PCP) e distribuição, exigindo um fluxo efetivo de informações e uma alinhada conformidade com as necessidades dos clientes primários, secundários e finais.

A definição acima mostra que os materiais (matérias-primas, insumos, semi-acabados e produtos acabados) devem ser transportados de distâncias variadas entre pontos de abastecimentos, plantas de manufatura, armazéns, distribuidoras, hospitais e farmácias, e esta estrutura deve suportar, com margem de segurança e em quantidades suficientes, as necessidades da organização. Enfim, o melhor entendimento de logística é: “ter o produto certo, no lugar certo, na hora certa e ao menor custo.”

Vantagens da otimização da cadeia de suprimentos

Planejamento eficaz e ajuste contínuo entre a produção e distribuição, ao longo da cadeia de abastecimento, oferecem competitividade à empresa em termos de lucratividade, colocando foco não só na produção mas também nas atividades de negociação, envolvendo a colocação do pedido e o atendimento deste. Os benefícios gerados por essas ações incluem:
Agilidade (através do mapeamento dos gargalos);
Redução de lead-time (devido ao ajuste contínuo entre aquisição, produção, estoque e distribuição);
Redução dos custos de operação (através da otimização dos recursos);
Aumento do retorno de ativos (pela diminuição de pulmões alinhando a execução de atividades com
a demanda).

Logística versus Supply Chain Management

Muitas empresas farmacêuticas sediadas no Brasil apresentam-se como corporações internacionais, fazendo parte de complexos grupos com uma complexa gestão da cadeia de suprimentos.
A definição de logística adotada em 1998 pelo Council of Logistics Management (www.clm.org) constitui-se na:
“Parcela do processo da cadeiade suprimentos que planeja, implanta e controla o fluxo eficiente e eficaz de matérias-primas, estoque em processo, produtos acabados e informações relacionadas, desde o seu ponto de origem até o ponto de consumo, com o propósito de atender aos requisitos dos clientes”.

Tal definição assume a logística como parte integrante de um conjunto maior de atividades no gerenciamento da cadeia de suprimentos: o Supply Chain Management, ou seja:
“A integração dos diversos processos de negócios e organizações, desde o usuário final até os fornecedores originais, que proporcionam os produtos, serviços e informações que agregam valor ao cliente”. A diferença é: a logística é intra-organizacional (foco nas atividades de uma empresa) e o Supply Chain Management é interorganizacional (foco nas atividades das diversas empresas da cadeia de suprimentos).

O Supply Chain Management, pelo seu maior nível de complexidade, integra as operações de logísticacom as operações de produção, englobando também o fluxo de pagamentos, envolvendo a organização de parceiros do fluxo logístico (afinal de contas o cliente de uma empresa é o fornecedor de outra e assim vai).

As regulamentações incidentes

As operações envolvendo os produtos farmacêuticos são fortemente afetadas por regulamentações governamentais: os produtos, processos e serviços farmacêuticos afetam diretamente a segurança e a vida das pessoas e, portanto, são subordinados ao poder controlador do paíssede, através de normas obrigatórias chamadas de Boas Práticas de Fabricação (BPF). Os países desenvolvidos elaboraram e oficializaram suas normas adaptando-as à sua realidade e algumas entidades, especialmente européias, promoveram a harmonização de várias normas nacionais, simplificando programas de integração e implementando o livre comércio entre grupos de países. O Brasil adota o texto e as atualizações das normas BPF da OMS, Organização Mundial da Saúde, e ora encontra-se em vigência a RDC nº 210 de 04/08/2003, da ANVISA, Agência Nacional de Vigilância Sanitária.

Além das obrigatórias, normas voluntárias também estão estabelecidas através de acordos firmados entre grupos técnicos, com o objetivo de uniformizar os critérios, permitindo o intercâmbio de produtos e serviços entre os países. A Organização Internacional para Padronização (ISO) é uma instituição de normalização técnica com sede em Genebra (Suíça), que apresenta um grande número de normas internacionais, das quais se destacam as da série ISO 9000, que se referem aos sistemas de Garantia e Gestão da Qualidade que os fabricantes devem possuir para assegurar a qualidade dos seus produtos. Estas normas são guias para a implantação de sistemas de qualidade nas  organizações ou melhoria dos sistemas já implantados, e dão requisitos gerais para que um cliente possa avaliar a adequação dos sistemas de qualidade do fornecedor.

O processo de aquisição como fator contribuinte na gestão da cadeia de suprimentos

Conforme o item 7.4 da NBR ISSO 9000:2000: A organização deve assegurar que o produto adquirido esteja conforme com os requisitos especificados de aquisição. O tipo e extensão do controle aplicado ao fornecedor e ao produto adquirido devem depender do efeito do produto adquirido na realização subseqüente do produto ou no produto final.

A organização deve avaliar e selecionar fornecedores com base na sua capacidade em fornecer produtos de acordo com os requisitos da organização. Critérios para seleção, avaliação e reavaliação devem ser estabelecidos. Devem ser mantidos registros dos resultados das avaliações e de quaisquer ações necessárias, oriundas da avaliação.

Conforme o item 9.6 da Auditoria de Fornecedores da RDC 210:
9.6.1. A Garantia da Qualidade deve responsabilizar-se, juntamente com os departamentos  envolvidos na fabricação, pela qualificação dos fornecedores de matérias-primas e de materiais de embalagem, para que atendam as especificações estabelecidas.
9.6.2. Antes que os fornecedores sejam aprovados e incluídos nas listas de fornecedores da empresa, os mesmos devem ser avaliados, quando for o caso, por meio de auditorias, com vistas à verificação do cumprimento das BPF.

Analisando as duas normativas, dentro do processo de aquisição ao longo da cadeia de suprimentos, verifica- se uma atividade não só obrigatória como racional para a lucratividade e, conseqüentemente, incremento da competitividade: a qualificação dos fornecedores.

A qualificação de fornecedores constitui-se num elemento-chave do Sistema de Qualidade, e seu principal objetivo é garantir a qualidade dos produtos e serviços ao longo da cadeia de suprimentos. Abrange não só fornecedores de matérias-primas e materiais de embalagem, mas também etapas de beneficiamento de produtos, análises laboratoriais, armazenamento, assim como serviços que podem afetar a qualidade de insumos, produtos e processos (por exemplo: calibração e atividades de validação de processos).

Conclusão

Uma empresa farmacêutica para atuar no mercado brasileiro, seja ela nacional ou multinacional, detentora de patentes ou produtora de genéricos, que adquire seus insumos ativos na moeda Dólar e comercializa seus produtos em moeda Real, para tornar-se mais competitiva, obrigatoriamente deve operar com uma política de estoques baixos. Trabalhar com estoques baixos representa correr riscos com faltas de material, falhas com matérias-primas, mão-de-obra, manutenção entre outros. Para minimizar estes riscos, colocando-os em níveis suportáveis, somente com a estruturação de um sistema logístico preciso e racional. Quem conseguir, vencerá. Eis o desafio!

Referências Bibliográficas:
[1] ANVISA, Resolução RDC 210 de 4 de Agosto de 2003, Regulamento Técnico das Boas Práticas para a Fabricação de Medicamentos, anexo I.
[2] MARQUES, Maria da Silva Bastos, A Siderurgia Brasileira em Ambiente de Competição Globalizada:
Os Fatores Sistêmicos da Competitividade, 56º Congresso Anual da ABM, Julho de 2001.
[3] MOURA, Reinaldo A., Otimização da Cadeia de Abastecimento, artigo do IMAM Consultoria Ltda.
[4] NBR ISO 9001, Sistemas de Gestão de Qualidade - Requisitos.
[5] NETO, João de Araújo Prado, Boas Práticas de Fabricação para Indústria Farmacêutica e Cosmética, Apostila SENAI, 1997.
[6] NETO, João de Araújo Prado, Boas Práticas de Estocagem, Transporte e Distribuição de Produtos
Farmacêuticos, Revista Fármacos & Medicamentos, número 5, ano 1, Julho/Agosto de 2000.
[7] RIBEIRO, Paulo Décio, A Logística como Estratégia de Competitividade, artigo do Instituto MCV.
[8] SINDUSFARM, Manual de Qualificação de Fornecedores, Roteiro de Inspeção de Fornecedores de
Insumos e de Matérias-Primas Farmacêuticas, 1999.
[9] YOSHIZAKI, Hugo, Supply Chain Management e Logística, artigo ano 2000.

 Publicado na revista Fármacos & Medicamentos 27 (Março/Abril 2004)

Atualizado em Seg, 04 de Outubro de 2010 11:21

  
SR_2012
 
20120127_Pcare_2012

  

conbraf

 

242x90B

  

242x100

  

banner_lateralfinal

Banner

Gestão e conteúdo técnico - Instituto Racine

Grupo Racine - Rua Padre Chico, 93 - Pompéia - CEP 05008-010 - São Paulo - SP - Brasil - Tel/Fax: +55 11 3670-3499