Na última década têm-se explorado o potencial da terapêutica vetorizada contra doenças malignas cancerígenas por meio do uso de anticorpos monoclonais. Os carcinomas hematológicos, por causa da relativa acessibilidade da célula cancerígena no sangue e medula óssea, e o conhecimento profundo dos antigenos específicos das células da linha hematopoiética, são uma grande base de estudo para esta terapia inovadora. Têm-se registado muitos desenvolvimentos técnicos-científicos, que permitiram o uso seguro de novas construções de anticorpos monoclonais.
O desenvolvimento de anticorpos, humanos ou quiméricos, ultrapassou largamente os problemas associados às respostas imunitárias desenvolvidas contra os anticorpos monoclonais originários de outras espécies animais (roedores). O uso da engenharia proteica, com vista a combinar anticorpos monoclonais com outras moléculas bioativas como, radioisótopos, toxinas, agentes quimioterapêuticos e citocinas, permitiu o aparecimento de um novo conjunto de agentes com
atividade clínica relevante. O objetivo deste artigo não é fornecer um catálogo de todos os
anticorpos monoclonais de uso clínico, mas sim, realçar os princípios da sua aplicação, o conhecimento atual a seu respeito, e os caminhos a seguir para futuros desenvolvimentos.
Em primeiro lugar, discute-se os requisitos gerais e as estratégias de uso, quer dos anticorpos monoclonais não conjugados como dos conjugados, seguindo-se um sumário dos dados clínicos, com alguma discussão sobre os novos anticorpos monoclonais ainda em desenvolvimento.
Os ensaios clínicos da próxima década vão permitir esclarecer dúvidas importantes acerca do uso dos anticorpos monoclonais, tais como: se a atividade clínica se traduz em melhorias nos índices de sobrevivência; determinação de estratégias otimizadas e tempo adequado para o uso clínico; se o aumento da potência dos anticorpos monoclonais (mediante uso de radio e imunoconjugados) vai aumentar a toxicidade; e finalmente, que outras moléculas poderão ser classificadas como alvos terapêuticos, nomeadamente moléculas que influenciam o crescimento e a morte celular.
Segundo Margaret von Mehren e colaboradores, a descrição de técnicas para a produção de anticorpos monoclonais por Kohler & Milstein há 25 anos, levou ao desenvolvimento de múltiplos agentes terapêuticos empregando estas estruturas. Os anticorpos, que inicialmente eram vistos como “mísseis direcionados”, provaram ser muito mais complexos nas suas propriedades vetorizadoras e biológicas, do que o inicialmente pensado pelos investigadores pioneiros.
A capacidade para manipular os genes dos anticorpos com técnicas microbiológicas permitiu a realização de modificações significativas nas suas estruturas. As proteínas murínicas podem hoje serem transformadas facilmente em formatos humanos, ou melhor “humanizados”, que não são reconhecidos como entidades estranhas ao sistema imune humano. Além disso, as novas estruturas de anticorpos com multíplos locais de reconhecimento do antígeno, tamanho alterado, ou determinados domínios efetores, mostraram influenciar a capacidade de vetorização dos anticorpos. A terapêutica baseada em anticorpos monoclonais encontra nos dias de hoje aplicação crescente no tratamento do câncer, isoladamente ou em conjunto com a quimioterapia, radioterapia, acoplados com toxinas, agentes quimioterapêuticos ou radionuclídeos.
O sucesso clínico dos anticorpos monoclonais só é conseguido por meio de uma identificação precisa de alvos cancerígenos (epítopos específicos).
Publicado na Revista Racine 95 (Novembro/Dezembro 2006)


















