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Qui, 12 de Maio de 2011 09:51

Terapia Nutricional na Saúde do Homem com Uropatia

Elci Almeida Fernandes
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Desde a realização da Conferência Mundial sobre Alimentação, em 1974, organizada pela Food and Agriculture Organization (FAO), órgão integrante da Organização das Nações Unidas (ONU), os governos participantes comprometeram-se a dedicar esforços para garantir o direito inalienável de todo homem, mulher ou criança de estarem livre do risco da fome e da desnutrição para o desenvolvimento pleno de suas faculdades físicas e mentais 1.

Do âmbito do planejamento em saúde, a implantação de um sistema que preveja o diagnóstico para adequado mapeamento da situação e das necessidades alimentares da população masculina, dos mecanismos e das estruturas disponíveis para ações de intervenção, em uma perspectiva de médio e longo prazo, depende do estabelecimento de políticas públicas concebidas em uma perspectiva de continuidade, e com ampla participação da sociedade e da comunidade acadêmica 1.

Estudos de vigilância nutricional e alimentar contribuem orientando sobre as demandas nutricionais mais importantes de cada grupo social e criando possibilidades de intervenção efetivas. Desta forma, garante-se não somente o acesso aos alimentos, mas também o suprimento suficiente de nutrientes e de energia, o que oferece adequada dimensão à proposta. O conceito sobre segurança nutricional e sua articulação com a segurança alimentar exige a confluência de várias especialidades, o que é, naturalmente, mais complexo, mas possibilita a ampliação da temática, com a inclusão das  situações de risco derivadas de inadequações alimentares não exclusivamente determinadas por carência. A epidemia da obesidade e as elevadas taxas de doenças crônicas não-transmissíveis são preocupações importantes em saúde pública do homem, e acometem cada vez mais indivíduos de todos os estratos sociais 2.

Na cidade de São Paulo, a renda familiar dobrou nos últimos anos e o número de famílias com baixo poder aquisitivo caiu 50%. Contudo, a tradução dos indicadores nutricionais e de saúde, em um País com dimensões territoriais tão grandes e com diversidades regionais tão marcantes, encobre realidades locais que apresentam particularidades, com ilhas de riqueza e a continuidade de situações de risco em bolsões de pobreza, observando-se claramente a interferência do fator renda quando os dados são desagregados 1.

Parece ser crescente o consenso em torno da associação entre desequilíbrio alimentar e as principais doenças com relevância em saúde pública do homem, o que reforça a importância dos estudos sobre consumo alimentar como parte de uma política de vigilância 3. A padronização de técnicas que garantem sensibilidade e especificidade é, contudo, ainda um desafiocomo constatado por pesquisadores em diferentes regiões do planeta 4.

No tratamento urológico, as alterações na relação nutrição e imunidade decorrente de processo infeccioso podem favorecer a desnutrição por meio de infecções intestinais capazes de alterar a absorção e a biodisponibilidade de nutrientes, de processo febril que acarreta aumento do requerimento energético e de infecções crônicas que aumentam a glicogênese e a lipogênese, alterando o metabolismo de carboidratos, de lipídeos, de proteínas, de níveis de micronutrientes e de balanço eletrolítico, além de acarretar alterações hormonais que interferem no metabolismo de nutrientes 5.

A terapêutica nutricional, dependendo da doença de base, é bastante variável 9. Por isso, a avaliação nutricional, além de ser realizada no momento da admissão do paciente, deve ser continuada durante o período da internação para controle mais racionaldo tratamento e da recuperação do estado normal de saúde e nutrição.

Demonstrada claramente a relação entre nutrição, imunidade e infecção é de fundamental importância que se considere, na abordagem dos indivíduos com doenças infecciosas, o acompanhamento do estado nutricional para que haja redução da suscetibilidade e do aumento da resistência à infecção 5.

O alimento é um fator essencial e indispensável à manutenção da saúde. A importância do alimento está associada à capacidade de fornecer ao corpo humano nutrientes necessários ao sustento do mesmo. Para o equilíbrio desta tarefa, é fundamental a ingestão de alimentos em quantidade e qualidade adequadas, mantendo a integridade estrutural e funcional do organismo.

Porém, esta integridade pode ser alterada, em casos de falta de um ou mais nutrientes, com conseqüentedeficiência do estado nutricional e da necessidade de suplementação. Por outro aspecto, os nutrientes também são capazes de interagir com fármacos, sendo um problema de grande relevância na prática clínica. Estas interações são facilitadas, pois os medicamentos, normalmente, são administrados via oral. Os nutrientes podem modificar os efeitos do fármaco acarretando prejuízo terapêutico 6.

A faixa etária predominante no atendimento urológico na população masculina varia entre 36 a 73 anos, sendo característica a presença de patologias crônicas associadas, com destaque para o diabetes mellitus e a Hipertensão Arterial Sistêmica (HAS). A ocorrência de diabetes mellitus e HAS, freqüentemente é concomitante, com 17,6% dos não-diabéticos apresentando hipertensão, em contraste com 41,2% dos diabéticos com diagnostico de hipertensão 7. Diante deste aspecto, a terapia nutricional necessita de adaptações dietoterápicas com a finalidade de manter ou de compensar a patologia apresentada. E referente à avaliação das medidas antropoméantropométricas, a circunferência abdominal destaca-se na prevenção de doenças cardiovasculares e na síndrome plurimetabólica. A desnutrição é um grande desafio no tratamento de crianças com alterações urológicas sem diferenciação quanto ao sexo, pois é responsável pelo aumento da mortalidade e da morbidade, além de levar à baixa estatura. A antropometria é o método mais utilizado para o acompanhamento nutricional desses pacientes, com a vantagem de ser de fácil execução e de baixo custo. Estudos realizados em crianças com disfunções urológicas geralmente são limitados pelo número de pacientes, pois são doenças raras, com taxa de incidência de cerca de dez pacientes por milhão de pessoas menores de 20 anos 8.

Segundo estatísticas brasileiras oficiais, as crianças com alterações urológicas apresentam baixo peso. Os efeitos da doença no crescimento predominam em relação à estatura, ao comparar-se ao peso. Em crianças, as conseqüências da desnutrição são ainda mais importantes, pois seu desenvolvimento cognitivo e motor ficam prejudicados, muitas vezes de maneira irrecuperável. Mesmo quando estáveis do âmbito clínico e recuperadas em relação ao peso, as crianças não recuperam a estatura 8.

Considerando-se os agravos decorrentes da desnutrição e a dificuldade de reverter esse quadro, fica clara a necessidade de intervenção nutricional precoce e efetiva, acompanhada de um controle clínico rigoroso, como importante medida no acompanhamento dessas crianças.

Referente ao câncer de próstata, alguns fatores estudados em outras doenças neoplásicas parecem apresentar potencial preditivo no prognóstico do câncer prostático. Dentre estes, na avaliação nutricional os mais estudados são o índice de Karnofsky, hemoglobina fosfatase alcalina e desidrogenase láctica (LDH). Estes fatores parecem ser mais úteis na doença avançada. Nestes pacientes, o índice de Karnofsky, a hemoglobina, a fosfatase alcalina, a albumina e a LDH estão associados à sobrevida global, enquanto a idade e o PSA não apresentaram relação estatisticamente  significativa. Índices de doença mais avançada, tais como baixa performance (Karnofsky), níveis elevados de LDH e fosfatase alcalina, anemia e hiperalbuminemia, estão associados a um pior prognóstico nos pacientes. Nos estudos para a construção de nomogramas, embora a idade avançada possa representar melhor prognóstico, a diferença entre indivíduos entre 40 e 85 anos, em termos de sobrevida, foi pequena (20 pontos). Em contraste, a diferença de performance-status de 60% (sintomáticos) para 90% (assintomáticos) foi de 45 pontos 9.

A anemia pode representar doença avançada, ação de tratamentos prévios (hormônios, quimioterapia, radioterapia), ou o estado nutricional do paciente. Em relação à albumina, desconhece-se a explicação biológica, mas estudos demonstram que valores acima de 4,2 g/dl estão associados a pior prognóstico 9.

Conclui-se que, a abordagem da terapia nutricional na saúde do homem merece, portanto, a articulação de ações relacionadas a diferentes áreas da saúde, como a educação, o saneamento e o acesso aos serviços de saúde. As situações demonstradas enfatizam a necessidade de otimizar o planejamento das ações de saúde, visando o direcionamento a objetivos específicos para a saúde do homem, causando, assim, o impacto necessário sobre as demandas sociais.

Referências Bibliográficas

1. Domene SMÁ. Indicadores nutricionais e políticas públicas. Estudos avançados 17 (48), 2003. P.131-135
2. Lobstein T. Food Policies: A Threat to Health? Proc Nutr Soc 2002, nov., 61(4),p. 579-585.
3. Solomons NW e Valdes-Ramos R. Dietary Assessment Tools for Developing Countries for Use in Multi-centric, Collaborative Protocols. Public Health Nutr 2002, dez., 5(6A), p. 955-968.
4. Kaluski DN, Ophir E e Amede T. Food Security and Nutrition – The Ethiopian Case for Action. Public Health Nutr 2002, jun., 5(3), p 373-381.
5. Oliveira AF, Oliveira FLC, Juliano Y, Ancona-Lopez F. Evolução nutricional de crianças hospitalizadas e sob acompanhamento nutricional.Rev. Nutr. Campinas, 18(3):341-348, maio/jun., 2005.
6. Domingues CGE, Paraná SP. Interações dos medicamentos com as refeições servidas na clínica de cirurgia urológica no hospital de clinicas UFPR. RUBS, Curitiba, v.1, n.4, sup.1, p.31-32, out./dez. 2005.p.31-32.
7. Litran A, Borges A, Cintra A, Leonardo A, Petroli C, Dini I, e col. Hipertensão, Diabetes e Asma. Rev. de Saúde da UCPEL, Pelotas, v.1, n.2, Jul./Dez. 2007.p. 105- 124.
8. Brecheret AP, Fagundes U, Castro ML, Andrade MC, Carvalhaes JT. Avaliação nutricional de crianças com doença renal crônica. Rev Paul Pediatr 2009;27(2):148-53.
9. Corrêa LA, Bendhack ML, Souza AAO, Sabaneeff J. Câncer de Próstata: Fatores Prognósticos. Projeto Diretrizes. Associação Médica Brasileira e Conselho Federal de Medicina. Sociedade Brasileira de Urologia. 2006. P. 01-11.

Publicado na Revista Racine 114 (Janeiro/Fevereiro 2010)

Atualizado em Qui, 12 de Maio de 2011 16:08

  
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