O câncer é uma doença de etiologia multifatorial. Entre as causas, como a exposição à carcinogênicos ambientais, viroses, parasitas e outros, também estão fatores relacionados ao estilo de vida, particularmente à dieta. Há evidências crescentes de que estes fatores etiológicos interagem entre si, promovendo um maior risco de câncer. (5)
Os dados epidemiológicos relativos ao consumo de alimentos particulares e risco do câncer são difíceis de serem interpretados, uma vez que há vários fatores, alimentares e não alimentares que podem influir numa determinada associação. Atualmente, é bem conhecido que fatores ambientais têm importante papel na etiologia do câncer, como o tabaco e a dieta. O peso corporal e a atividade física também são relacionados com esta doença. (2)
O desenvolvimento do câncer e suas conseqüências é resultado da origem do Homem e de sua inter-relação com o meio ambiente, modulado por fatores históricos e culturais da humanidade. A desmistificação dessa doença tem sido uma realidade. Como resultado destes conhecimentos, o câncer vem constituindo-se, dentre as doenças crônicas, a potencialmente de mais fácil prevenção e cura, embora três topografias de câncer: os pulmões, a mama e o cólon, ainda sejam responsáveis
por cerca de 60% das causas de morte por câncer nos Estados Unidos, por exemplo. (1)
O câncer de mama em mulheres é o que mais causa mortes no Brasil, segundo o Instituto Nacional de Câncer (INCA). (3)
Três grandes fatores influenciam na carcinogênese: hábito de fumar, infecções e inflamações, e fatores dietéticos. Nutrição e fatores dietéticos incluem duas categorias: os agentes genotóxicos (microcomponentes mutagênicos/cancerígenos, encontrados nos alimentos, fungos, plantas e em
outras substâncias como o cogumelo, e alimentos contendo nitratos e nitritos) e componentes associados ao fenômeno do tumor. (6)
Há uma relação entre hábitos dietéticos e alguns componentes específicos da dieta com o desenvolvimento de certos tipos de câncer, principalmente originários dos sistemas digestivo e endócrino. Algumas associações têm sido feitas entre o desenvolvimento de certos tipos de câncer e as quantidades consumidas de calorias, gorduras, álcool e alimentos defumados ou curados. (4)
O complexo processo da carcinogênese é principalmente devido a fatores do ambiente e prevenção. A dieta pode representar a causa de 35% dos cânceres. A evidência nutricional no desenvolvimento do câncer foi relacionada em estudo realizado na Suíça, que listou fatores de risco dietético e hormonal. Para a relação dos fatores dietéticos, destacou-se o aumento na ingestão de álcool e gordura no aparecimento de cânceres.
Outro ponto destacado é que dietas ricas em vegetais podem ter efeito protetor contra o desenvolvimento da doença. Também se relacionou a dieta rica em gordura com aumento da incidência da neoplasia de mama. As evidências de que dietas ricas em vegetais e frutas são protetoras contra câncer de pulmão são convincentes, mas não é claro como seus constituintes são responsáveis por este fato. O álcool e o consumo de dietas ricas em carnes vermelhas e gorduras aumentam a probabilidade do risco de câncer cólon-retal. Para a prevenção do câncer, recomenda-se uma dieta predominantemente de vegetais e frutas, baixa em gordura, evitando álcool
e sal, aliado à prática diária de atividade física. (8)
Hábitos alimentares versus câncer de mama
A incidência dos cânceres dependentes de hormônios, como os de mama e de próstata, é muito menor nos países orientais como China e Japão, em comparação com o mundo ocidental. A dieta apresenta importantes efeitos no risco da doença e um grupo de compostos, os fitoestrógenos, que são consumidos em grandes quantidades na população asiática, está implicado na proteção ao câncer. (9)
Os fitoestrógenos são compostos das plantas que possuem ação estrogênio-símile. Os principais entre eles são as isoflavonas e as lignanas, encontradas em vários alimentos, sendo as principais fontes a soja e a linhaça, respectivamente.Vários estudos têm demonstrado que os fitoestrógenos podem ser benéficos para a saúde por possuírem capacidade de proteção contra doenças como o câncer, entre outras. (11)
A isoflavona (fitoestrógeno presente na soja) age como um antiestrógeno – que é o oposto do estrógeno. Os sinais celulares de estrógenos proliferam e é por isso que eles podem ser cancerígenos. Quando há estrógeno elevado, as isoflavonas podem competir com o estrógeno natural, pelos receptores, eliminando o efeito estrogênico. Diversos pesquisadores acreditam que por esse motivo as isoflavonas reduzem o risco de câncer de mama e endométrio. Acredita-se também que elas reduzem o risco de câncer pela inibição da atividade da tirosina-quinase, uma enzima que promove o crescimento das células cancerígenas. Além disso, a genisteína possui um efeito antiangiogênico – que bloqueia a neovascularização -, ou seja, impede o crescimento dos vasos sangüíneos necessários para as células cancerígenas se expandirem. (7)
Os constituintes da alimentação mais abordados na associação com o câncer de mama são os carboidratos, a gordura, as vitaminas e os sais minerais; assim como a obesidade e o alcoolismo. (13)
As evidências epidemiológicas dos diferentes países têm sugerido que existe associação positiva entre a disponibilidade de gordura na dieta e a variação nas taxas de mortalidade do câncer de mama. Muito provavelmente, as mudanças na dieta, incluindo aumento na ingestão de gordura e calorias, e o crescimento na prevalência da obesidade, sejam as causas do aumento da mortalidade por câncer de mama. (13)
A gordura pode aumentar o risco de câncer de mama por interferir, direta ou indiretamente, com a regulação hormonal, cujo envolvimento com o câncer de mama é amplamente aceito. Hipóteses alternativas estão relacionadas com a síntese de prostaglandinas. Apesar dos resultados controversos e das limitações metodológicas dos estudos conduzidos, há forte tendência para a aceitação de uma possível relação entre o consumo de gordura e o câncer de mama, o que justifica recomendar a redução de gordura na dieta como uma medida de saúde pública para a prevenção desta patologia. O risco de câncer parece ser muito maior para as gorduras saturadas de origem animal e poliinsaturadas de origem vegetal, do que as insaturadas ou saturadas do óleo de peixe. (7)
Os vegetais crucíferos contêm precursores de isotiocianatos (substâncias quimiopreventivas), podendo ter papel importante na diminuição do risco de câncer de mama em mulheres na pré-menopausa. (10) Vários estudos sugerem efeitos benéficos de uma dieta rica em licopeno (tomate e seus derivados) sobre o risco de vários tipos de câncer, incluindo mama. (13)
Pesquisas evidenciam que o consumo de hortaliças, frutas e cereais integrais, fibra dietética, certos micronutrientes, alguns ácidos graxos e a atividade física protegem contra alguns cânceres. Em contraste, outros fatores como a obesidade, álcool e métodos de preparação dos alimentos podem aumentar os riscos. Para desmembrar os mecanismos possíveis para os efeitos dos fatores dietéticos no risco de câncer são necessárias que as pesquisas em nutrição sigam além dos estudos epidemiológicos e metabólicos tradicionais. (12)
Acompanhamento nutricional
O suporte nutricional direcionado para efeitos colaterais causados por tratamentos quimioterápicos ou radioterápicos, além de orientação de dietas específicas, são de especial importância, contribuindo para o bem estar do paciente antes, durante e após o tratamento. O consumo adequado de nutrientes (entre eles calorias, proteínas, vitaminas etc) é essencial para a recuperação dos tecidos sadios lesados no tratamento. Uma dieta saudável e equilibrada (atendendo às necessidades individuais) deve ser composta de alimentos capazes de fornecer quantidades adequadas de nutrientes (proteínas, carboidratos, gorduras, vitaminas, sais minerais e fibras) ao organismo humano.
O acompanhamento nutricional (avaliação nutricional, orientações e monitoração) a este paciente tem como objetivos:
Atender às necessidades nutricionais e metabólicas;
Atingir ou manter o peso desejável do indivíduo;
Contribuir para a diminuição dos efeitos colaterais, tanto da doença quanto do tratamento, com alimentação e orientação individualizadas, para melhor qualidade de vida do paciente;
Prevenir ou interromper o estado de desnutrição conseqüente à caquexia da doença maligna.
No Quadro I (na página 78) estão as adaptações alimentares sugeridas, de acordo com as principais e mais comuns complicações da doença e efeitos colaterais do tratamento (quimioterapia, radioterapia, entre outros).
Alimentação versus prevenção
Algumas recomendações importantes na prevenção do câncer de mama:
Alimentação variada, contendo alimentos de origem vegetal (pouco ou nada processados) e ricos em fibras;
Evitar o excesso de peso;
Aumentar a prática de atividade física diária;
Consumir (400 a 800g) diariamente hortaliças e frutas variadas;
Manter uma ingestão média diária (600 a 800g) de cereais variados, leguminosas, raízes e tubérculos;
Evitar o consumo de alimentos processados, industrializados, enlatados, defumados, bebidas alcoólicas e sucos artificiais;
Evitar o consumo de açúcar refinado;
Manter ingestão moderada de carne vermelha (menor que 80 g/dia) e aumentar o consumo de aves e peixes;
Reduzir o consumo de gordura animal, substituindo pela vegetal;
Diminuir, se possível, excluir, frituras, alimentos “queimados”, embutidos;
Dar preferências para temperos com ervas e especiarias, alho, cebola;
Evitar o consumo de tabaco;
Incluir a ingestão de chá verde na alimentação diária.
O profissional nutricionista
Alimentação e sobrevivência estão tão relacionadas que sua importância é indiscutível e de grande influência em toda e qualquer etapa do nosso ciclo de vida.
O nutricionista tem, em suas áreas de atuação, um compromisso social como profissional da saúde; entre eles (na prática de Nutrição Clínica) está o de recuperar ou manter o estado nutricional do paciente com câncer.
A atuação do profissional nutricionista é essencial e indispensável no que diz respeito à equipe multidisciplinar da saúde; objetivando auxiliar na prevenção da doença e na qualidade de vida do portador de câncer, melhorando o estado nutricional, contribuindo para uma melhor resposta ao tratamento e condições de reabilitação.
Referências Bibliográficas
A lista contendo as Referências Bibliográficas deste artigo encontra-se disposição dos leitores na redação da Revista Racine e pode ser solicitada pelo e-mail:
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Publicado na Revista Racine 90 (Janeiro/Fevereiro 2006)



















