Introdução
A nutrição corresponde aos processos gerais de ingestão e conversão de substâncias alimentícias em nutrientes que podem ser utilizados para manter a função orgânica. Esses processos envolvem nutrientes que têm como finalidade energética (carboidratos, lipídios e proteínas), construção e reparo dos tecidos (proteínas, lipídeos e minerais), construção e manutenção do sistema esquelético (cálcio, fósforo e proteínas) e a regulagem da fisiologia corpórea (vitaminas, minerais, lipídios e água) (Santos & Santos, 2002).
Há uma importante relação entre a nutrição e a atividade física, pois a capacidade de rendimento do organismo melhora por meio de uma nutrição adequada, com a ingestão equilibrada de todos os nutrientes (Rodrigues et al, 1984).
Os requerimentos nutricionais de indivíduos fisicamente ativos diferem apenas quantitativamente em relação aos indivíduos sedentários, por necessitarem de uma maior ingestão energética de origem alimentar. Esta energia é empregada na produção de Adenosina Trifosfato (ATP), que representa a fonte imediata de energia a ser utilizada pela célula na realização de seu trabalho biológico (Araujo et al, 1999). A produção energética constitui uma atividade permanente que requer processos tanto aeróbicos (sistema do oxigênio) quanto anaeróbicos (sistema APT-CP e glicose anaeróbica) (Fox et al, 1991). Dentro dessa visão, os macros e micronutrientes ditos ergogênicos têm sido utilizados pelos alunos das academias de ginástica visando melhorar o seu desempenho e, concomitantemente, a estética. A literatura científica se refere aos ergogênicos como sendo a substância ou fenômenos que melhoram o desempenho de um atleta (Santos & Santos, 2002). Existe no mercado uma gama enorme de substâncias que prometem efeitos ergogênicos, porém os que possuem tais propriedades ou fenômenos são muito poucos. Sendo assim, estudos científicos nessa área são essenciais para diferenciar uma resposta ergogênica verdadeira de uma resposta pseudoergogênica, na qual o desempenho melhora simplesmente porque o indivíduo espera a melhora - efeito placebo (Wilmore & Costill, 1999).
A busca de um corpo esteticamente perfeito e a falta de uma cultura corporal saudável tem levado a população a utilizar de forma abusiva substâncias que possam potencializar no menor espaço de tempo possível os seus desejos. Dentre essas substâncias, o suplemento alimentar tem um destaque primordial, talvez por falta de uma legislação rigorosa que autorize a sua venda sem receita médica ou devido às indústrias lançarem constantemente no mercado produtos ditos ergogênicos, prometendo efeitos imediatos e eficazes. Paralelo a isso, alguns profissionais de educação física vêm estimulando o uso de suplemento alimentar com o intuito de melhorar a performance do seu aluno, sem levar em conta os meios de se atingir os objetivos traçados (Santos & Santos, 2002).
Segundo a American Dietetic Association (ADA), a melhor estratégia nutricional para a promoção da saúde e redução do risco de doença crônica é obter os nutrientes adequados por meio de uma alimentação variada e ainda considera apropriado o uso de suplementos de vitaminas e minerais quando evidências científicas bem aceitas e revisadas demonstram segurança e eficiência em seu consumo (Eliason et al, 1997).
Os atuais suplementos dietéticos já são inúmeros, mas as controvérsias no meio científico sobre seus possíveis efeitos, riscos e benefícios confundem muito os consumidores. As próprias definições de suplementos alimentares são demasiadamente amplas e não contribuem para o esclarecimento de suas funções, gerando mais confusão para o público leigo (Kubena & MC
Murray, 1996).
Devido ao aumento de informação sobre saúde, alimentação suplementos alimentares, deve-se concentrar maiores esforços na educação nutricional do público em geral. A educação nutricional, assim como o consumo de alimentos e suplementos alimentares, tende a ser uma área crescente, devendo despertar ainda mais o interesse e reafirmando sua importância nos próximos anos (Pereira RF & Lajolo FM, 2003).
Nesse sentido, o objetivo deste estudo foi avaliar o consumo de suplementos alimentares entre os freqüentadores de uma academia de ginástica de São Paulo (SP).
Metodologia
Foi realizado um estudo transversal com análise descritiva, com base em dados primários obtidos para esta pesquisa. A população do estudo foi composta por 84 freqüentadores de uma academia de ginástica em São Paulo (SP). A faixa etária dos indivíduos foi entre 15 e 62. Para a coleta de dados, um formulário foi aplicado com questões para identificar o perfil (sexo, idade e atividade física praticada) e sobre o consumo de suplemento alimentar (tipo de suplemento, qual é o objetivo e indicação do produto).
Os alunos foram abordados de forma aleatória durante as suas atividades na academia, em diferentes horários e dias da semana. Aqueles que preencheram voluntariamente o formulário de pesquisa assinaram um termo de consentimento livre e esclarecido. Durante a aplicação do formulário os participantes não foram identificados, permitindo a recusa em qualquer momento da coleta dos dados.
Resultados e discussão
Do total da amostra (84), 56 (67%) eram do sexo masculino e 28 (33%) feminino. 33,5% (n= 29) utilizavam algum tipo de suplemento alimentar, sendo neste caso o grupo masculino com 82,7% de utilização, contra 17,3% do grupo das mulheres. Dados encontrados em estudos anteriores sobre suplementos alimentares variam. No estudo realizado por Rocha & Pereira (1998) em 16 academias no Estado do Rio de janeiro, de 160 entrevistados, 32% (n= 51) faziam uso de algum tipo de suplemento alimentar. Já em pesquisa realizada por Pereira et al, em 2003, em São Paulo (SP), de 309 freqüentadores de academias, 23,9% (n= 74) consumiam algum tipo de suplemento alimentar.
A Tabela 1 mostra a distribuição quanto ao número de suplementos alimentares consumidos.
Observou-se que a utilização de suplementos alimentares prevaleceu nos homens na faixa etária compreendida entre 20 e 30 anos (50%). Estes dados vão de acordo com estudo realizado por Pereira et al (2003), no qual 75,7% dos usuários de suplementos alimentares eram homens e 24,3% eram mulheres. Em estudo realizado por Rocha & Pereira (1998), a maioria dos usuários tinha entre 20 e 30 anos de idade, sendo 69% do sexo masculino e 31% do sexo feminino. Em estudo realizado por Araújo & Soares (1999) obteve-se 42% de utilização entre homens e 23% no grupo de mulheres.
A Tabela 2 mostra o consumo de suplementos alimentares de acordo com o tipo de produto e ingredientes. Do total de entrevistados, 52% utilizam aminoácidos ou concentrados protéicos. Esse resultado vai de encontro ao estudo realizado em São Paulo (SP), onde, de 108 suplementos alimentares citados, 42 (38,9%) consumiam algum tipo de suplemento protéico ou derivado (Pereira et al, 2003).
Segundo Wilmore & Costill (1999), aminoácidos têm sido propostos com o objetivo de melhorar a função muscular. Porém, não se testou, ainda, adequadamente para saber se esses efeitos são suficientes para potencializar o desempenho ou a hipertrofia muscular (9). Já no estudo realizado por Rocha & Pereira (1998) a predominância deu-se em um grupo de suplementos alimentares citados como “energéticos” ou “estimulantes”, seguido dos produtos com composição predominante em aminoácidos e proteínas.
Na Tabela 2 também se observa a prevalência de 18% no uso de creatina. Segundo Wilmore & Costill (1999), a creatina vem sendo amplamente utilizada como um recurso ergogênico nutricional. Seu uso baseia-se na hipótese de que a suplementação de creatina aumenta a força e a velocidade nas atividades que predominam como fonte de energia o sistema ATP-CP. A suplementação de creatina, neste estudo, demonstrou aumentar a força e possivelmente a massa isenta de gordura, mas parece que ela tem pouco ou nenhum efeito sobre o desempenho nas corridas de velocidade ou no nado de curta distância.
Em relação aos objetivos do uso de suplementos alimentares, a maioria dos alunos pesquisados utilizam-os pelos seguintes motivos: hipertrofia muscular, aumento de energia, estética, dentre outros, conforme a Tabela 3.
A grande procura por suplementos alimentares com o objetivo de aumento de massa muscular reflete o desejo desta população de obter este resultado. O mesmo foi obtido no estudo de Pereira (2003). No estudo realizado por Wilmore & Costill (1999), a maioria dos pesquisados utilizam suplementos alimentares por motivo terapêutico, de emagrecimento, visando melhorar o condicionamento físico ou o aumento de massa muscular.
Em relação aos praticantes de atividade física que afirmaram utilizar algum tipo de suplemento nutricional, a maioria (46%) relatou que o faz sem nenhuma indicação profissional, ou seja, por motivos diversos, tais como a influência de amigos, de vendedores das lojas de suplementos alimentares ou iniciativa própria. 14% não responderam e o restante (40%) afirmou manter o acompanhamento com instrutores de educação física, médicos e nutricionistas. Confira os resultados, apresentados na Tabela 4.
No estudo de Pereira et al (2003), a fonte mais utilizada de recomendação de suplementos alimentares foi a de instrutores e professores, 31,1%, seguida de amigos, 15,6%, auto-indicação, 15,6%, nutricionista, 11,1%, e médico, 10,0%. Ele ressalta que em alguns casos professores e instrutores são vendedores destes suplementos alimentares e não recebem formação científica adequada para ter conhecimento suficiente sobre os efeitos dos mesmos.
Para Wilmore & Costill (1999), observa-se uma tendência de ocorrer incentivo interalunos, assim como entre professor e aluno para utilizar o suplemento alimentar, visando melhorar a performance. O professor de educação física influenciava direta e indiretamente a utilizarem o suplemento alimentar, demonstrando com isto uma atitude antiética, pois não possui habilitação técnico-profissional para tal procedimento.
Observou-se neste estudo que a atividade física mais praticada na academia em questão é a musculação, sendo representada por quase 100% dos entrevistados, que pode estar ou não acompanhada de outras atividades físicas, como ginásticas aeróbicas. A prática de musculação está relacionada ao desejo de aumento de massa muscular, o que vai de acordo com o elevado número de consumo de suplementos protéicos com o mesmo objetivo.
Para Araújo & Soares (1999), a musculação é a atividade física mais fortemente vinculada ao uso de repositores proteínicos, tanto para homens (100%) como para mulheres (67%). Quando Wilmore & Costill relacionaram a prática de atividade física com o uso de suplemento alimentar, observaram que os alunos que praticavam ginástica localizada, aeróbica, lutas e step utilizavam como suplemento alimentar aminoácidos, vitaminas e creatina. Já os alunos que realizavam musculação possuíam uma tendência a utilizar todos os tipos de suplementos alimentares pesquisados, combinados ou não. Na Tabela 5 é possível verificar o tipo de atividade física praticada entre os consumidores de suplementos alimentares.
Com o lançamento de novos suplementos alimentares no mercado, é fundamental a necessidade de pesquisas científicas para comprovar seus efeitos e determinar a segurança de seu uso em longo prazo. A elaboração de regulamentações sobre o assunto facilitaria a atuação dos profissionais da saúde e a educação do público em geral sobre o uso seguro e eficiente desses produtos (Pereira et al, 2003).
Conclusão
O consumo de suplementos alimentares neste estudo está representado por 33,5% da população estudada, sendo este valor significante e suficiente para despertar interesse na realização de outros estudos. O usuário ainda encontra-se mal informado sobre o conteúdo dos suplementos alimentares e as conseqüências de sua ingestão. Muitos desses produtos geram grande controvérsia sobre seus efeitos, principalmente em longo prazo. Adicionalmente, sua venda e sua recomendação são realizadas por profissionais não especializados no assunto.
Portanto, o consumo de suplementos alimentares de maneira inadvertida pode vir a representar um problema de saúde pública. Na busca de um melhor rendimento físico associado a uma melhoria estética, muitos utilizam suplemento alimentar pelos benefícios que eles supostamente aportam, para atingir os seus objetivos. De acordo com as pesquisas atuais, existe um conflito muito grande entre os benefícios propostos e os malefícios que poderão ser obtidos pelo uso indiscriminado dessas substâncias. Assim, os resultados deste estudo sugerem que a utilização de suplemento alimentar está ligada à melhoria de performance na atividade física, mas esta relação ainda não está bem definida. Por isso, sugerimos a realização de pesquisas adicionais para que este assunto seja melhor esclarecido.
Referências Bibliográficas
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Publicado na revista Nutrição Profissional 24 (Março/Abril 2009)


















