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Qui, 29 de Julho de 2010 17:03

A Segunda Era de Ouro da Nutrição: Alimentos Funcionais

Celeste Elvira Viggiano
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O homem sempre esteve em busca da saúde e da longevidade e a história nos aponta sua tendência em transformar alimentos e ervas em medicamentos. Com o aumento acentuado da prevalência de doenças cardiovasculares e tumores no século XX, houve interesse em estudar as populações onde a prevalência destas enfermidades é baixa. Estes estudos indicaram que hábitos de vida, incluindo os alimentares, eram fatores de proteção, aliados à herança genética. A partir daí, diversos estudos apontaram para ação benéfica de componentes alimentares, dando origem a uma nova ciência, conhecida hoje como a "Ciência dos Alimentos Funcionais". Dentre outros, o Consenso Europeu sobre funcionais define "um alimento pode ser considerado como funcional se os benefícios sobre uma ou mais funções orgânicas forem satisfatoriamente demonstradas, além de seus valores nutricionais, e de um modo relevante, tanto para a promoção da saúde e bem-estar quanto para a redução de riscos de doenças. Os alimentos funcionais devem permanecer como alimentos, e seus efeitos devem ser demonstrados em quantidades que possam ser normalmente ingeridos em uma dieta; não são pílulas ou cápsulas, mas componentes normais de um padrão alimentar".

Diversos nutrientes e compostos bioativos têm despertado interesse, como o óxido nítrico, que exerce proteção cardiovascular e de prevenção do Mal de Alzheimer, influenciado pelo mecanismo vasodilatador do ácido ascórbico e de polifenóis do ginseng e do chá preto, o licopeno, um pigmento que confere a cor avermelhada a frutas e vegetais e é fator de proteção contra tumores de próstata e doença coronariana. Os compostos fenólicos presentes nas uvas e vinhos dão proteção cardiovascular, efeito antiinflamatório e ação anticancerígena; a soja possui fitoestrógenos que abrandam os sintomas da menopausa e reduzem o LDL - colesterol sérico -, além de atuar na redução da glicemia pós-prandial, melhora o trânsito intestinal, tem ação antioxidante e reforça a imunidade celular. A relação entre carências subclínicas de icroelementos como zinco, cobre e selênio, com rebaixamento da imunidade e com o aumento do risco de doença cardiovascular, também estão relacionados ao cálcio e ferro. A glutamina, que desempenha importante papel na manutenção da estrutura e das funções intestinais e os pré e probióticos, com efeitos positivos em diversas situações fisiológicas, contribuem para a prevenção de doenças não transmissíveis. Não há mais retorno, os componentes alimentares com atividade funcional farão parte da nutrição aplicada no dia-a-dia dos nutricionistas nas suas mais diversas atividades, o que requer deste profissional um aprofundamento na ciência dos alimentos funcionais e a inclusão desta ciência nos currículos dos cursos de graduação e pós-graduação em nutrição. 

Hipócrates, há cerca de 2.500 anos, afirmava: "Permita que o alimento seja teu medicamento e que o medicamento seja teu alimento". A história sempre registrou a busca do homem em transformar o alimento, principalmente os vegetais, em fonte de saúde e longevidade. As mais primitivas civilizações praticavam o uso de ervas e os mais diversos alimentos na cura de doenças. Porém, o ceticismo e o poder econômico da era moderna levaram a sociedade a menosprezar estas práticas em favor do uso de medicamentos, incluindo-se aí as vitaminas e minerais, que de nutrientes passaram a medicamento. Contudo, a observação da menor incidência de determinadas doenças em grupos populacionais com dietas diferenciadas, como dieta asiática, mediterrânea e esquimó, incentivou inúmeros estudos epidemiológicos, ensaios clínicos e testes bioquímicos, com o intuito de elucidar os mecanismos de proteção atuantes em cada tipo de dieta. Os resultados comprovaram a presença de substâncias biologicamente ativas em diversos alimentos, com efeitos benéficos e elevada correlação positiva entre o consumo de tais alimentos na dieta diária e a redução da probabilidade de ocorrência de enfermidades como tumores, diabete, doenças coronarianas, entre outras. Este avanço do conhecimento sobre a relação entre alimentação e saúde, aliado aos altos custos provenientes de recursos empregados em saúde pública, tem gerado inúmeros estudos, debates e o interesse da indústria de alimentos, o que gera demandas não somente nas pesquisas, mas também em relação à legislação e comercialização de alimentos e de informações.

Os mais recentes conhecimentos de bioquímica, biologia celular e de fisiologia, como também de patologia, sustentam a hipótese de que a dieta controla e modula diversas funções do organismo. Através destes mecanismos a alimentação participa da manutenção do estado de bem-estar, contribuindo para a prevenção de doenças.

É provável que diferentes alimentos e produtos alimentícios tenham atividades biológicas diferenciadas, o que leva não somente ao conceito de alimentos funcionais como de uma nova ciência, segundo o ILSI (International Life Sciences Institute), denominada como "Ciência dos Alimentos Funcionais". Uma ação funcional ou fisiológica refere-se ao que ocorre na interação entre um componente do alimento e uma função genômica, bioquímica, celular ou fisiológica específica, sem que haja referência direta a nenhum benefício para a saúde ou à prevenção de doença. Já quando nos referimos à saúde será relativo à prevenção de doenças através do consumo de um componente específico, de um ingrediente ou de uma mistura de componentes específicos, ou ainda de ingredientes de preparações culinárias.

O consumo de alimentos considerados como funcionais tem aumentado vertiginosamente nos países desenvolvidos. Nos Estados Unidos, o consumo dobrou de 1997 a 2004 e, na Europa, triplicou de 12 bilhões de dólares em 1997 para 34 bilhões de dólares no último ano. Sem dúvida, estamos na segunda era de ouro da nutrição, tanto ao que se refere à ampliação do conhecimento e, conseqüentemente, à melhoria da saúde da população mundial, como no aspecto econômico, pois a indústria de alimentos possui um grande potencial financeiro e de desenvolvimento.

Conceituação

Segundo definiu a Associação de Dietética Americana (ADA) em 1995: "alimento funcional é qualquer alimento modificado ou ingrediente alimentar que pode fornecer benefícios à saúde, além dos nutrientes que normalmente contém" (1). E, posteriormente, em 1999: "alimentos funcionais são alimentos (in natura, fortificados ou enriquecidos) potencialmente benéficos para a saúde quando consumidos regularmente, como parte de uma dieta variada, e em níveis efetivos" (2). Já o Consenso Europeu define "um alimento pode ser considerado como funcional se os benefícios sobre uma ou mais funções orgânicas forem satisfatoriamente demonstradas, além de seus valores nutricionais, e de um modo relevante, tanto para a promoção da saúde e bem-estar quanto para a redução de riscos de doenças. Os alimentos funcionais devem permanecer como alimentos, e seus efeitos devem ser demonstrados em quantidades que possam ser normalmente ingeridos em uma dieta; não são pílulas ou cápsulas, mas componentes normais de um padrão alimentar" (3). Nos parece que o Consenso Europeu é mais abrangente e melhor direcionado que as definições apregoadas pela ADA. De qualquer forma, vale uma análise do que já foi publicado pela comunidade científica.

Ação funcional

Diversos nutrientes e compostos bioativos têm despertado interesse de estudiosos, do público e da mídia. Dentre estes, inicialmente citamos o óxido nítrico, um anticoagulante produzido pelo aminoácido L-arginina no endotélio, que tem poder de proteção cardiovascular e de prevenção do Mal de Alzheimer, influenciado pelo mecanismo vasodilatador do ácido ascórbico e de polifenóis do ginseng e do chá preto (4). Foi demonstrada a ação na prevenção de doenças coronarianas e de tumores de próstata do licopeno, um pigmento que confere a cor avermelhada a frutas e vegetais como tomate, goiaba e melancia. Este pigmento é mais bem absorvido quando cozido, pois o calor rompe as paredes das células e libera o licopeno de uma matriz de proteínas e fibras, sendo, portanto, mais favorável o consumo de molho de tomates do que de tomate fresco.

Com maior amplidão temos os estudos que enfocam os compostos fenólicos presentes nas uvas e vinhos como fatores de proteção cardiovascular, com efeito antiinflamatório e ação anticancerígena. Já se conhece que os alimentos possuem milhares de carcinogênicos e anticarcinogênicos. Além das uvas, tomates e melancia é conhecida a ação da soja como fator anticâncer. A soja possui também fitoestrógenos que abrandam os sintomas da menopausa e auxiliam na redução do LDL - colesterol sérico. Outras substâncias e nutrientes que compõem a soja atuam na redução da glicemia pós-prandial, melhoram o trânsito intestinal, têm ação antioxidante e reforçam a imunidade celular (5). Outras pesquisas não conclusivas apontam para a relação entre carências subclínicas de microelementos como zinco, cobre e selênio com o aumento do risco de doença cardiovascular e com rebaixamento da imunidade. Ainda parece haver evidências de que distúrbios no metabolismo do cálcio e do ferro podem ter papel relevante no desenvolvimento da aterosclerose e na indução a peroxidação da membrana das células do endotélio, favorecendo a formação da lesão aterosclerótica.

Em relação aos aminoácidos, destacam-se os estudos sobre glutamina, um aminoácido não essencial, principal combustível oxidativo das células epiteliais, que desempenha importante papel na manutenção da estrutura e das funções intestinais. Tem também efeitos benéficos na manutenção das funções do sistema imunológico e reduz a degradação protéica em pacientes em estado catabólico intenso. Além do papel reconhecidamente comprovado da alimentação na manutenção da saúde, aponta-se um caminho para a obtenção e manutenção de hábitos alimentares mais saudáveis, incluindo os alimentos in natura ou processados, mas que originalmente contém componentes com ação funcional, como os pre e probióticos, já amplamente divulgados na mídia e prescritos por nutricionistas nos mais diversos diagnósticos nutricionais e situações clínicas. Estes alimentos têm efeitos positivos na fisiologia gastrintestinal, na função imune e na biodisponibilidade dos minerais, como também no âmbito do metabolismo lipídico e dos glicídios, na prevenção das doenças cardiovasculares, do diabete melito tipo 2, da osteoporose e de tumores, conforme apresentado na tabela abaixo.

Discussão

A nosso ver, não há mais retorno, os funcionais farão parte da prática de nutricionistas clínicos, de responsáveis por alimentação coletiva em todas as faixas etárias e de renda, daqueles que acompanham atletas e praticantes de atividade física, dos que atuam em diferentes áreas da saúde coletiva e também do nutricionista que desenvolve seu trabalho na indústria de alimentos.

O nutricionista deve ocupar o seu lugar neste universo. Como intérprete da ciência da nutrição e dos alimentos, o profissional deve estar preparado para coordenar estudos e viabilizar a aplicabilidade destes nos mais diversos grupos populacionais, elaborar programas de saúde coletiva e de saúde pública que apliquem a ciência dos alimentos funcionais, elaborar consensos m nutrição clínica para as diversas enfermidades onde a ciência dos alimentos funcionais possa ser aplicada, criar guias alimentares que contemplem o consumo de alimentos funcionais e liderar equipes multiprofissionais.

Desta forma, é necessário que a ciência dos alimentos funcionais faça parte dos currículos dos cursos de graduação e pós-graduação de nutrição, de forma a ampliar o conhecimento do profissional que deve estar preparado para a prescrição de planos alimentares que possam incluir os alimentos funcionais, assim como ampliar a pesquisa sobre a ação funcional de substâncias, ingredientes e alimentos.

No momento as evidências apontam para a atividade funcional nas doenças não transmissíveis, principalmente neoplasias, doenças cardiovasculares e cerebrovasculares, diabete, artrite reumatóide e osteoporose e no que tange ao sistema imunológico. Contudo, a perspectiva é que com a ampliação do conhecimento os alimentos possam ser indicados para situações agudas, omo já vem ocorrendo com o uso de suplementos e fórmulas dietéticas em pacientes graves, como no estresse metabólico e nos traumas.

O mercado crescente vai exigir profissionais habilitados também para o desenvolvimento de produtos alimentícios que incluam ação funcional de forma a expandir a ação na promoção a saúde e na prevenção de doenças. Mas vale uma ressalva quanto à legislação de produção, marketing e comercialização dos produtos alimentícios com atividade funcional. É necessário que a sociedade se conscientize de que assim como os demais componentes da dieta humana, as substâncias e nutrientes com atividade funcional devem ser exaustivamente estudados para serem então recomendados como elementos da promoção da saúde e da prevenção e cura de enfermidades. A legislação deve contemplar a formulação, a industrialização, a rotulagem e a comercialização destes produtos, além do direcionamento da propaganda e do marketing, que devem ser baseados na ética e na proteção ao ser humano.

Referências Bibliográficas
(1) Bloch e Thompson. Position of ADA: phytochemicals and functional foods. J. ADA, 1995; (95):493.
(2) ADA Reports Position of The American Dietetic Association: Funcional Foods. J.ADA, 1999; (99): 1278-85.
(3) Belisle e col. Scientific concepts of functional foods in European consensus document. Br J Nutr, 1998.
(4) Duffy SJ, Keaneyh-JR. JF, Holbrook M, Gokce N, Swerdloff PL, Frei B, Vita JA., Short and longterm black tea consumption reverses endothelial dysfunction in patients
(5) with coronary artery disease. Circulation, v.104, p.151-156, 2001.
(6) Verbruggen, MA. The soy matrix is more than protein plus isoflavones. Netherlands. Symposium of Soy, 2001.

 Publicado na Revista Nutrição Profissional 1 (Maio/Junho 2005)

Atualizado em Ter, 10 de Agosto de 2010 09:59

  
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