Portal Racine
Banner

Você está aqui:Home>Portal Racine>Atenção Farmacêutica>Método>Seguimento Farmacoterapêutico:Utilização do Método Dáder na Assistência ao Paciente
Qui, 08 de Setembro de 2011 19:54

Seguimento Farmacoterapêutico:Utilização do Método Dáder na Assistência ao Paciente

Diogo Pilger
Avaliar este artigo
(0 votos)

 

Introdução

O Seguimento Farmacoterapêutico (SFT) é uma prática profissional desenvolvida por farmacêuticos com o intuito de detectar Problemas Relacionados com Medicamentos (PRM) para prevenir e resolver Resultados Negativos associados aos Medicamentos (RNM). Este serviço implica um compromisso e deve ser desenvolvido de maneira contínua, sistematizada e documentada, em colaboração com o paciente e com os demais profissionais da saúde, com a finalidade de alcançar resultados concretos que melhorem a qualidade de vida do paciente.

Esta prática está inserida na filosofia da atenção farmacêutica e não deve haver confusão referente às definições destes dois conceitos. Atenção farmacêutica é uma filosofia de prática profissional do farmacêutico direcionada a alcançar os melhores resultados possíveis junto ao paciente com a utilização dos medicamentos. Portanto, seguimento farmacoterapêutico não é sinônimo de atenção farmacêutica, mas sim um de seus macro componentes como definido no Consenso Brasileiro de Atenção Farmacêutica.

A seguir será descrito, de maneira sucinta, o Método Dáder de Seguimento farmacoterapêutico. Para mais informações, sugere-se o acesso e a leitura das Referências
Bibliográficas ou do Manual do Método Dáder disponibilizado no site: www.atencionfarmaceutica-ugr.es.

Método Dáder

O Método Dáder de Seguimento Farmacoterapêutico foi elaborado pelo Grupo de Investigação em Atenção Farmacêutica da Universidade de Granada (Espanha) em 1999. Trata-se de um procedimento operativo simples que permite realizar SFT a qualquer paciente, em qualquer âmbito assistencial, de maneira sistematizada, continuada e documentada, permitindo registrar,  monitorar e avaliar os efeitos da farmacoterapia de forma simples e clara.

O Método Dáder fundamenta-se na obtenção de informação sobre os problemas de saúde e da farmacoterapia do paciente e a elaboração da história farmacoterapêutica. A etapa da análise situacional permite visualizar o panorama da saúde e do tratamento em distintos momentos do tempo e avaliar os resultados da farmacoterapia do paciente.

Na fase de avaliação e de plano de ação estabelecem-se as intervenções que se consideram oportunas para melhorar ou para preservar o estado de saúde do paciente. Nas entrevistas sucessivas avaliam-se os resultados das intervenções propostas. O Método Dáder de SFT consta das seguintes fases:
1) Oferta do serviço;
2) Entrevista farmacêutica: primeira entrevista;
3) Análise situacional (estado de situação);
4) Fase de estudo;
5) Fase de avaliação;
6) Fase de intervenção (plano de atuação);
7) Entrevistas farmacêuticas sucessivas (resultado da intervenção).

Originam-se novas análises situacionais e o processo torna-se cíclico.

Oferta do serviço

A oferta do serviço consiste em explicar ao paciente, de maneira clara e concisa, o serviço farmacêutico que vai receber. Trata-se de expor sobre o que é o método, qual é o seu objetivo e quais são as principais características.

O propósito é captar e incorporar o paciente ao Serviço de Seguimento Farmacoterapêutico. É importante explicar ao paciente a responsabilidade que possui junto a este atendimento.

Identificar e avaliar o melhor momento de oferecer o serviço é relevante para que o paciente aceite participar. Algumas situações que podem ser utilizadas para oferecer o serviço são:

O paciente solicita informação sobre algum medicamento, algum problema de saúde, algum parâmetro bioquímico ou informação sobre sua saúde;
• O paciente expõe alguma preocupação ou dúvida a respeito de algum de seus medicamentos ou problemas de saúde;
• O farmacêutico observa algum parâmetro clínico com valor desviado da normalidade, por exemplo, pressão arterial ou glicemia.

Caso o paciente aceite participar do seguimento farmacoterapêutico uma primeira entrevista é marcada, a qual o paciente deve comparecer levando os medicamentos que utiliza (bolsa de medicamentos), assim como os informes médicos e os dados analíticos de que dispõe. Esta entrevista é agendada (data e hora) para que o paciente e o farmacêutico possuam a responsabilidade e o compromisso de comparecer.

Entrevista farmacêutica: primeira entrevista

O objetivo da primeira entrevista consiste em obter a informação inicial do paciente e iniciar a história farmacoterapêutica. Esta entrevista deve ser realizada em um local privado, sem que ocorram interrupções ou distrações, no qual seja possível manter uma conversa tranqüila e confidencial.

A estrutura da primeira entrevista deve ser realizada em três etapas: obtenção de dados de preocupações e de problemas de saúde, de medicamentos e a revisão dos sistemas, como demonstrado na Figura 1.

Figura_1

A etapa referente às preocupações e problemas de saúde consiste em uma pergunta aberta, cujo objetivo é obter informação sobre as preocupações de saúde do paciente, de uma maneira ampla e com uma descrição completa sendo possível identificar as idéias, as dúvidas, os conceitos e as crenças de saúde.

Na etapa de obtenção de dados sobre medicamentos: perguntas semi-abertas, de posse da bolsa de medicamentos o farmacêutico obtém a informação necessária sobre cada medicamento perguntando sobre o conhecimento e a adesão ao tratamento, assim como sobre sua percepção quanto à efetividade e à segurança da farmacoterapia. Existe um roteiro de perguntas para obter todas estas informações.

Na etapa de revisão: fase de revisão geral é o momento de realizar uma série de perguntas sobre todos os sistemas, no sentido crânio caudal, e sobre a utilização de medicamentos relacionados aos aparelhos e aos sistemas. Esta fase serve para suspeitar de alergias, registrar o peso e a altura do paciente e detectar novos problemas de saúde e a utilização de medicamentos, além de aprofundar as-pectos que não tenham ficado claros nas fases anteriores.

Após a finalização destas três etapas são registradas outras informações que o farmacêutico considerar relevantes, como hábitos de vida, dieta, parâmetros clínicos e dados dos informes. O paciente é liberado e informado de que será contatado para nova consulta após a avaliação mais detalhada do caso pelo farmacêutico.

Análise situacional

A análise situacional é uma ferramenta que permite dispor e analisar o paciente com relação aos problemas de saúde e os medicamentos em uma data determinada. Trata-se de uma “foto do paciente” em uma data concreta. O documento permite uma configuração de emparelhamento horizontal entre os problemas de saúde e os medicamentos que o paciente está utilizando para esse problema de saúde.

Esta etapa possui como principais objetivos visualizar o panorama sobre o estado de saúde do paciente, avaliar a farmacoterapia do mesmo ou expor um caso em uma seção clínica. A análise situacional permite a esquematização dos problemas de saúde e dos medicamentos do paciente, elaborada a partir das informações da história farmacoterapêutica obtida na primeira entrevista. Com esta estrutura e o preenchimento dos dados obtém-se uma visão geral
sobre o estado de saúde do paciente e a possibilidade de estabelecer as suspeitas de RNM como observa-se na Figura 2.

Figura_2

Fase de estudo

A fase de estudo do Método Dáder é a etapa em que se obtém informações sobre os problemas de saúde e os medicamentos utilizados pelo paciente, baseadas nas melhores evidências científicas disponíveis, centrando esta busca na situação clínica do paciente.

Esta etapa é bastante sensível porque requer do farmacêutico uma gama de habilidades e de conhecimentos especiais para obter as informações científicas para estruturar, estudar e resolver o caso do paciente. Nesta etapa vale uma máxima que diz: “você não precisa ser uma enciclopédia e saber tudo, mas você precisa saber em que local buscar a informação”. O conhecimento das melhores fontes de informação, sua adequada manipulação e a avaliação são habilidades essenciais para a adequada realização de SFT.

Em termos gerais, a fase de estudo deve gerar a informação necessária para:
• Avaliar criticamente a necessidade, a efetividade e a segurança do medicamento que o paciente utiliza em uma data determinada;
• Elaborar um plano de atuação com o paciente e a equipe de saúde que permita melhorar e/ou preservar os resultados da farmacoterapia de maneira contínua no tempo;
• Promover a tomada de decisões clínicas baseadas na evidência científica durante todo o processo de SFT.

Fase de avaliação

A fase de avaliação objetiva identificar os resultados negativos associados ao medicamento que o paciente apresenta bem como as suspeitas de RNM. Esta identificação de RNM ocorre por meio de um processo sistemático de perguntas, iniciando pela primeira linha da análise situacional correspondente ao(s) medicamento(s).

Para cada medicamento ou grupo de medicamento será avaliada a necessidade, a efetividade e a segurança para o paciente. O resultado deste processo é uma lista com as distintas suspeitas de RNM.

Fase de intervenção

A fase de intervenção é o momento em que o paciente volta para a consulta com o farmacêutico na qual é elaborado e iniciado o plano de ação. Trata-se de um programa de trabalho contínuo, elaborado em conjunto com o paciente e não para o paciente, negociando as intervenções ou as atividades que o farmacêutico empreenderá para melhorar ou preservar o estado de saúde do paciente. A participação do paciente na elaboração do plano de atuação é imprescindível, pois ele é o principal responsável pela sua saúde. Elaborar o plano de atuação e fixar as intervenções farmacêuticas implica necessariamentena tomada de decisões clínicas por parte do farmacêutico.

Entrevistas sucessivas (resultado da intervenção)

As entrevistas farmacêuticas após a fase de intervenção encerram o processo de seguimento do paciente, tornando-o cíclico. A partir deste momento, o SFT somente finaliza se o paciente ou o farmacêutico decidirem abandoná-lo.

As entrevistas sucessivas com o paciente permitem:
• Conhecer a resposta do paciente e/ou do médico frente à proposta de
intervenção realizada pelo farmacêutico;
• Comprovar a continuidade da intervenção;
• Obter informação sobre o resultado da intervenção;
• Iniciar novas intervenções previstas no plano de atuação;
• Detectar o aparecimento de novos problemas de saúde ou a incorporação de novos medicamentos.

É preciso entender que a incorporação de nova informação na história farmacoterapêutica do paciente cederá lugar a novas análises situacionais,que devem registrar as modificações que ocorreram no paciente e a necessidade de nova fase de estudo e ssim sucessivamente em um ciclo de atendimento, como apresentado na Figura 3.


Figura_3

Concluindo

O Método Dáder é um instrumento que foi desenvolvido para auxiliar os farmacêuticos a ajudarem os pacientes a obterem o máximo de benefício de sua farmacoterapia. Trata-se de um método sistemático e cíclico, que demonstra sua eficácia junto aos pacientes em diversos estudos científicos. Além disso, existe uma adaptação desenvolvida para ser aplicada em hospitais. Entretanto é pertinente uma ressalva sobre a necessidade de capacitação e de formação de farmacêuticos para atuarem em SFT. Está evidente que os currículos dos cursos de farmácia não preparam o profissional para desempenhar tal serviço. Há grandes lacunas na formação em farmacoterapia, em comunicação, em fontes de informação e em medicina baseada em evidência entre outras que são fundamentais para realizar o SFT. O SFT é uma nova tecnologia em saúde e deve contar com profissionais bem preparados para realizá-la.

É fundamental entender que este método é apenas um, entre tantos outros, que possibilita a aplicação das habilidades clínicas do farmacêutico junto aos seus pacientes. Também é nota de atenção que o método Dáder pode e deve ser adaptado às diferentes realidades regionais e de âmbito assistencial.

O essencial é que não se desvie da essência do método e do foco principal que é obter o máximo de benefício com a farmacoterapia para a melhoria da qualidade de vida do paciente.

Referências Bibliográficas
Comité de Consenso. Tercer Consenso de Granada sobre Problemas Relacionados con los Medicamentos (PRM) y Resultados Negativos Asociados a la Medicación (RNM). Ars Pharm 2007; 48(1):5-17.
Faus Dáder MJ, Muñoz PA, Martínez-Martínez F. Atenção Farmacêutica - conceitos, processos e casos práticos. São Paulo: RCN, 2008.
Grupo de Investigación en Atención Farmacéutica de la Universidad de Granada. Método Dáder para el Seguimiento Farmacoterapéutico. Ars Pharm 2005; 46(3):309-37.
Ivama AM et al. Consenso Brasileiro de Atenção Farmacêutica - Proposta. Atenção Farmacêutica no Brasil: “Trilhando Caminhos”. Brasília. Organização Pan Americana da Saúde, 2002.
Pilger D. Estudo aleatório controlado em farmácias comunitárias de Portugal: Intervenção farmacêutica a pacientes diabéticos. Tese de doutorado. Universidade de Granada. Granada, 2009.
Sabater DH, Castro M.M.S., Faus MJ. Método Dáder: Guía de Seguimiento Farmacoterapéutico. 3ª edición. Granada: 2007. Disponível em www.atencionfarmaceutica-ugr.es.

Publicado na Revista Racine 115 (Maio/Junho 2010)

Atualizado em Qui, 08 de Setembro de 2011 20:25

  
SR_2012
 
20120127_Pcare_2012

  

conbraf

 

242x90B

  

242x100

  

banner_lateralfinal

Banner

Gestão e conteúdo técnico - Instituto Racine

Grupo Racine - Rua Padre Chico, 93 - Pompéia - CEP 05008-010 - São Paulo - SP - Brasil - Tel/Fax: +55 11 3670-3499