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Ter, 17 de Agosto de 2010 17:35

O Papel do Farmacêutico Clínico no Contexto Mundial da Saúde

Karin Vicente Greco
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O panorama atual da saúde em todo mundo tem-se mostrado ainda longe do ideal. Algumas pesquisas demonstram que para promover mudança na saúde devem ser investidos recursos em educação, comportamento, infraestrutura, habitação e saneamento. O aumento do serviço médico também denota os efeitos da falência no cuidado com a saúde (Filerman, 2005).

Sabe-se que saúde para todos será alcançada aumentando-se os recursos em todos os segmentos sociais que afetam a saúde e não só no atendimento médico. A expectativa de melhor assistência, ou qualidade na assistência, tem levado os hospitais no mundo todo a proporem um “cuidado gerenciado”, o qual é caracterizado por uma mudança no papel do provedor, passando de um “gerenciador de doença” para um “gerenciador de saúde” (Gouvea e Shane, 1997).

Contudo, os profissionais da saúde ainda têm um papel de atenção fragmentado, focado na atenção terciária e acessibilidade à sofisticada tecnologia, propondo soluções curativas a qualquer custo. Uma estrutura determinada sob a proposição de que deve haver uma substancial consistência entre o que os pacientes necessitam, para obter bons resultados na recuperação da saúde, e o que os serviços realmente oferecem fomenta uma discussão e mostra a necessidade iminente de mudança no papel da equipe de saúde.

Dentro da proposta do cuidado gerenciado, o farmacêutico torna-se um elemento-chave dentro da equipe de saúde, ocupando o seu papel na assistência à terapêutica, envolvendo-se nas diversas áreas dentro dos hospitais: prevenção de doenças, primeiros cuidados, cuidados subagudos
e urgências, distribuição racional de medicamentos hospitalares, sistemas de informação, assistência ambulatorial, entre outros.
 
A evolução para um tratamento diferenciado a grupos de pacientes com especificidades que requerem atenção farmacêutica diferenciada é um aspecto importante, que deve ser priorizado pelo farmacêutico como forma de racionalização do uso do medicamento e atenção por especialidades, dentro da Farmácia Clínica.
 
Além disso, o farmacêutico pode gerenciar a farmacoterapia, não só durante a internação, mas também na alta hospitalar, garantindo a adesão do paciente e a continuidade do tratamento após a alta. A adesão também nos remete ao problema do custo com a saúde (Johnson e Bootman, 1995; Secoli ET al., 2005). Sem um custo compatível, o acesso à farmacoterapia pode ser inviabilizado, e o trabalho da equipe torna-se ineficiente.

Neste ponto também encontramos uma demanda importante para o farmacêutico na implementação de estudos farmacoeconômicos que viabilizem a farmacoterapia e propiciem a adesão.

Desde os idos anos 60, com a definição da Farmácia Clínica por Charles Hepler e Linda Strand, nos Estados Unidos, muito se tem falado sobre o papel do farmacêutico no cuidado com a saúde, mas pouco se tem implementado.

Muito mais que pontuar as diferenças das funções do farmacêutico antes e depois da definição de Farmácia Clínica, ou entre o papel do “distribuidor do medicamento” para o “cuidador da farmacoterapia”, ou ainda o esforço para se inserir dentro da equipe de promoção da saúde, urge que o farmacêutico tenha um preparo para uma atuação mais marcante. É necessário que o farmacêutico exerça integralmente seu “estado de arte” (Gouvea e Shane, 1997), que se configura como uma opção mais avançada do pleno exercício da profissão farmacêutica, implementando seus conhecimentos para aplicá-los em benefício do paciente e exercendo seu papel na equipe multiprofissional para favorecer a prática de uma terapia segura e racional, minimizando riscos e contribuindo para a melhoria da qualidade de vida dos pacientes.

Considerando esta realidade, é necessário que sejam reunidos esforços com o objetivo de contribuir para uma formação sólida de profissionais competentes para atuar na promoção da saúde, e podermos então, a algumas dezenas de mãos, continuarmos escrevendo a história da Farmácia Hospitalar e Farmácia Clínica, inscrevendo nela uma atuação mais completa e real do farmacêutico no contexto mundial da saúde.

Para melhor ilustrar o papel do farmacêutico na Farmácia Clínica, destacamos  nas páginas seguintes, nas entrevistas, as experiências e opiniões de dois profissionais com vivência na área, Wladmir Mendes Borges Filho, gerente de Farmácia do Hospital Israelita Albert Einstein e autor do livro Prática Farmacêutica no Ambiente Hospitalar, e Débora Cecília de Carvalho, farmacêutica do Hospital Samaritano. Fizemos para ambos as mesmas perguntas, possibilitando duas visões diferentes sobre os mesmos questionamentos.

Farmácia Clínica: Tendência para a Atuação do Farmacêutico em Ambiente Hospitalar
 
Nesta entrevista, Wladmir Mendes Borges Filho expõe seu ponto de vista sobre a atuação do profissional farmacêutico e afirma que essa é a grande tendência de trabalho no ambiente hospitalar. O entrevistado é especialista em Administração Hospitalar pela Faculdade de Saúde  Pública da Universidade de São Paulo (USP) e gerente de Farmácia do Hospital Israelita Albert Einstein, além de autor do livro Prática Farmacêutica no Ambiente Hospitalar.

Em sua opinião, a atuação em Farmácia Clínica é uma das tendências para a profissão farmacêutica? Por quê?
Wladmir Mendes Borges Filho - A filosofia da farmácia clínica, surgida no início dos anos 60 nos Estados Unidos, caracterizou-se como uma atividade farmacêutica desenvolvida em função do paciente, visando a maior eficácia do tratamento medicamentoso. Para tanto o farmacêutico era obrigado a “deixar” a farmácia e estar ao lado do paciente - inclusive, Klinicos significa “relativo ao leito”. Estou certo que participar ativamente da assistência ao paciente seja o próximo desafio da categoria. A tendência atual é a prática farmacêutica direcione-se para o paciente. A rotina básica de guarda e dispensação de medicamento já não satisfaz as necessidades das rotinas hospitalares.

Qual é o mercado de trabalho para o farmacêuticoespecialista em Farmácia Clínica?
WMBF - A busca por certificação de qualidade no segmento hospitalar vem aumentando ao longo dos últimos anos e, portanto, toda instituição que possui um programa voltado à segurança do paciente, no que diz respeito ao uso dos medicamentos, terá necessidade de um farmacêutico conhecedor do mecanismo de ação das drogas, indicações, doses, posologia, interações e seus efeitos colaterais e saber interferir nas prescrições, sugerindo alternativas e/ou monitoramentos. Com a evolução do trabalho deste farmacêutico, esta instituição verificará que o uso racional das drogas trará, além da melhor prática, um resultado financeiro importante

Observa mudanças na atuação do farmacêutico dentro dos hospitais, em equipes multidisciplinares?
WMBF -
Nos últimos 50 anos, vem crescendo o interesse na colaboração interprofissional no cuidado ao paciente. Este interesse pode ser enfatizado, por exemplo, pelo número de estudos na literatura de profissionais da saúde como tópicos de time assistencial, atenção multidisciplinar ao paciente e atenção interdisciplinar de saúde ao paciente. O relacionamento com a enfermagem - tradicionalmente responsável por todos os processos relacionados aos pacientes - está mais  próximo e aprendemos que esta proximidade traz sinergia à assistência. Os médicos percebem esta mudança e sentem-se confortáveis com a ajuda do farmacêutico na escolha da melhor terapia. Discutir a melhor intervenção com fisioterapeutas, nutricionistas, psicólogos e fonoaudiólogos hoje já é uma realidade em instituições preocupadas com a qualidade da assistência e, em breve, será observada como algo rotineiro.

Em sua opinião, quais são as habilidades essenciais ao profissional farmacêutico que atua ou deseja atuar na área hospitalar?
WMBF -
O profissional que deseja atuar nesta área deve ter as seguintes habilidades: ótima capacidade de relacionamento interpessoal, estar voltado ao aprimoramento contínuo,  competência para seleção, utilização e análise crítica da literatura sobre medicamentos,  competência para a apresentação da informação relevante, com um mínimo de documentação suporte, e competência para transmitir de maneira objetiva as informações sobre o uso seguro de
medicamentos.

Atuação do Farmacêutico em Ambiente Hospitalar Completa a Assistência Farmacêutica

Na entrevista abaixo, Débora Cecília de Carvalho, farmacêutica do Hospital Samaritano e especialista em Farmácia Hospitalar pela Sociedade Brasileira de Farmácia Hospitalar, dá seu olhar sobre a Farmácia Clinica como uma das tendências da profissão que já é amplamente reconhecida em outros países e comenta que o perfil do profissional que pretende seguir carreira
nesse segmento é mais preocupado com os relacionamentos interpessoais, interessado em adquirir mais conhecimentos sempre e saber compartilhar essas informações com outros profissionais da equipe e com os pacientes.

Em sua opinião, a atuação em Farmácia Clínica é uma das tendências para a profissão farmacêutica? Por quê?
Débora Cecília de Carvalho -
A atuação em farmácia clínica completa a assistência farmacêutica e é uma tendência para a profissão farmacêutica em nosso País. Em muitos outros países já é uma prática consagrada e aceita pelos demais profissionais assistenciais que percebem o profissional farmacêutico como um grande aliado potencial para a busca de terapêuticas mais seguras e mais personalizadas ao paciente. Até mesmo o administrador hospitalar vê neste profissional um parceiro para a busca de terapias mais acessíveis ao paciente e uma redução de custo do leito/dia para a instituição.

Qual é o mercado de trabalho para o farmacêutico especialista em Farmácia Clínica?
DCC -
O farmacêutico especialista em farmácia clinica possui um papel muito importante, pois tem um embasamento técnico mais alinhado ao médico especialista e também aos demais profissionais assistenciais, que estão procurando se especializar nos últimos anos. A ação conjunta destes profissionais especialistas propiciará uma proposta terapêutica mais adequada ao paciente.

Observa mudanças na atuação do farmacêutico dentro dos hospitais, em equipes multidisciplinares?
DCC -
Hoje o farmacêutico não deve se restringir aos processos de aquisição, armazenamento e distribuição, mas estar envolvido em todas as etapas da cadeia medicamentosa e em todo o conjunto de processos que envolvem esta cadeia, em que se incluem os seguintes processos:  prescrição, transcrição, dispensação e administração de medicamentos, além da monitorização do paciente, que exige do farmacêutico a atuação no acompanhamento da resposta terapêutica dos  medicamentos e na garantia da qualidade dos medicamentos distribuídos pelo serviço de farmácia. Esta mudança vem ao encontro da busca das instituições hospitalares por certificações de qualidade com padrões internacionais, havendo a necessidade da melhoria e desenvolvimento de processos que garantam a efetividade do cuidado ao paciente. Ela vem sendo auxiliada por algumas entidades como o Conselho Federal de Farmácia (CFF), a Sociedade Brasileira de Farmácia Hospitalar (SBRAFH) e a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA), por  exemplo, por meio do projeto dos hospitais sentinela no programa de farmacovigilância. Para que tal mudança ocorra com maior adesão e confiança pelo próprio farmacêutico é preciso que o currículo das escolas de graduação seja reformulado, prevendo o aprendizado dentro do ambiente hospitalar e formando verdadeiros farmacêuticos clínicos.

Em sua opinião, quais são as habilidades essenciais ao profissional farmacêutico que atua ou deseja atuar na área hospitalar?
DCC -
Deve saber trabalhar em equipe, conhecer e buscar fontes literárias reconhecidas e seguras para a obtenção das informações e análises técnicas, compartilhar com a equipe multidisciplinar estas informações, estabelecer um canal de comunicação acessível ao paciente, segura para a   equipe assistencial e objetiva aos administradores e ter muita criatividade, pois um dia é diferente do outro dentro de um hospital.

Publicado na Revista Racine 95 (Novembro/Dezembro 2006)

Atualizado em Ter, 17 de Agosto de 2010 17:40

 

 
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