Introdução
O presente trabalho tem por objetivo realizar uma análise critica sobre a prática da dispensação farmacêutica. Muito se tem falado sobre a importância da orientação farmacêutica e dos riscos advindos do uso inadequado de medicamentos, mas pouco se discute sobre a forma correta de se praticar a dispensação de medicamentos. Existe até mesmo uma dificuldade de se definir o que é dispensar medicamentos. O que se observa é que esta prática, às vezes, se limita à mera entrega do medicamento (produto) ao paciente, sem nenhuma preocupação com a dimensão técnica científica que lhe é conferida.
Contextualização
Os medicamentos constituem uma ferramenta poderosa para mitigar o sofrimento humano, porém seu emprego, se destituído de informações básicas, pode levar a resultados inesperados que podem comprometer a saúde do paciente. A prática da dispensação farmacêutica não pode ser considerada apenas como a troca de mercadorias por receitas. Tão importante quanto o medicamento, a informação de como utilizá-lo cumpre um papel fundamental e nunca deve ser omitida. Observa-se, atualmente, que vários problemas de saúde têm sua origem relacionada ao uso inadequado de medicamentos. Este uso indevido pode levar a doenças idiossincráticas, manifestações de efeitos adversos, não adesão ou o mau controle de uma enfermidade. Esta situação ocorre, basicamente, devido à omissão ou a erros durante a dispensação. Um erro de dispensação pode ser definido como a discrepância entre a ordem escrita na prescrição médica e o atendimento dessa ordem ou a falta de complemento de informações importantes sobre o uso racional do medicamento. São erros cometidos por funcionários da farmácia (farmacêuticos, inclusive), quando realizam a dispensação farmacêutica de maneira inadequada.
Por meio de uma revisão de vários conceitos atribuídos à dispensação farmacêutica e a análise dos termos empregados, é possível definir quais seriam os objetivos da dispensação, qual a metodologia para empregá-la e quais os seus elementos básicos, tendo como base a entendimento da farmacologia de diversos medicamentos.
Perante a análise das diversas definições atribuídas à dispensação farmacêutica, alguns termos foram destacados por aparecerem com maior freqüência e por atribuírem idéias ambíguas, que dificultavam o entendimento do conceito de dispensação farmacêutica e qual a maneira de praticá-la e qual o seu objetivo. Os termos destacados foram:
· Fornecer: abastecer, proporcionar o necessário;
· Entregar: passar às mãos ou à posse a alguém;
· Informar: dar informe ou parecer sobre, comunicar, dar notícias;
· Orientar: dirigir, guiar, caminhar junto. Reconhecer e examinar a situação;
· Educar: promover educação, desenvolver capacidades em outras pessoas.
Justificativa e objetivos da atividade
Com a observação, alguns termos destoam do principio básico da função farmacêutica em uma farmácia comunitária. Termos como fornecer e entregar dão uma idéia muito limitada da verdadeira função do farmacêutico no ato da dispensação. Dão a impressão que a função deste profissional é apenas deixar o paciente abastecido de medicamentos ou simplesmente entregar uma caixa com medicamentos. O termo informar torna-se muito amplo, pois a quantidade e a qualidade das informações dependem de várias circunstâncias. Um exemplo diz respeito às reações adversas. Sabe-se que uma pequena parte destes efeitos possui risco real de manifestar-se. Muitos pacientes, ao serem informados sobre as reações adversas, acham que todas ocorrem na mesma proporção, o que pode dificultar a adesão ao tratamento farmacológico. Entretanto, os termos que mais se aproximariam da verdadeira função do farmacêutico seriam orientar e educar. O segundo termo chama a atenção para o desenvolvimento de capacidades do paciente, como o autocuidado, dá uma idéia do objetivo da dispensação, que todo farmacêutico deve ter em mente, que é guiar, dirigir o paciente para uma meta, que seria o restabelecimento da sua saúde.
Deste modo, pode-se definir que o objetivo da dispensação farmacêutica seria o restabelecimento da saúde do paciente, sendo que a forma de se alcançar esta meta seria o uso de medicamentos. O farmacêutico então deve procurar meios de orientar seu paciente de forma a educá-lo, tornando-o capaz de utilizar corretamente os medicamentos, para que ele obtenha o maior beneficio possível que estes podem oferecer, proporcionando, então, resultados positivos na sua saúde
Tendo-se em mente qual o objetivo da prática da dispensação farmacêutica, faz-se necessário definir qual a maneira de praticá-la, como aplicar toda a teoria aprendida na fase de estudo e transformá-la em resultados.
Para realizar a prática da dispensação farmacêutica, é necessário entender o uso racional dos medicamentos e a maneira que os pacientes percebem os medicamentos. Trata-se do momento em que o farmacêutico passa a ter uma relação direta, face a face, com o paciente. Neste momento seu objetivo é educar o paciente para que este obtenha resultados positivos em seu tratamento, o que se traduz em saúde. A não preocupação do farmacêutico com o paciente faz dele um mero vendedor. Sendo assim, este profissional passa a ter o compromisso, junto ao paciente, de reverter o quadro desfavorável em que o paciente se encontra.
A prática da dispensação farmacêutica requer, primeiramente, a observação de alguns parâmetros relacionados aos medicamentos e ao paciente, sendo os principais:
· Quais os princípios da utilização dos medicamentos?
· Como se utilizam os medicamentos?
· Quais características dos medicamentos devem se observar?
· Quais características dos pacientes devem se observar?
Características do paciente usuário de medicamentos
O uso de medicamentos é uma prática corriqueira e, em alguns casos, até abusiva. Sabe-se que a maioria dos pacientes tem noções sobre os medicamentos, sendo que grande parte entende que eles servem para alguma coisa, possuem horários definidos para tomar, podem ou não ser tomados com água, leite, junto com alimentos, causam alguns efeitos colaterais ou podem atrapalhar o efeito de outro remédio.
Porém, a maioria dos pacientes apresenta questionamento quanto ao uso dos medicamentos que, se não forem respondidas ou informadas, podem interferir nos resultados terapêuticos desejados. No geral, observa-se que a maioria dos pacientes:
· Apresenta dúvidas sobre a finalidade de cada medicamento (sabe que serve para algo, mas tem dificuldade de dizer para quê);
· Confunde os horários de tomadas dos medicamentos;
· Utiliza medicamentos de forma errada;
· Esquece ou não sabe que alguns medicamentos podem interferir no controle de sua pressão arterial, diabetes, entre outras doenças.
O uso correto de medicamentos
O estudo dos medicamentos permite ter acesso a algumas informações que, por sua vez, devem ser trabalhados para que sejam úteis aos pacientes usuários de medicamentos. Quando se estuda farmacologia, observa-se que os medicamentos apresentam certas propriedades, tais como:
· Uma finalidade;
· Uma posologia;
· Um horário apropriado para uso;
· Reações adversas potenciais e formas de atenuação;
· Um determinado tempo de uso;
· Risco de interações com outros medicamentos ou com alimentos;
· Possui recomendações para sua melhor utilização - tratamento não farmacológico.
O não entendimento destas propriedades pode levar a problemas de saúde vinculados à farmacoterapia, como não controle ou não alivio de uma enfermidade. Pode ocorrer o agravamento do quadro clinico do paciente ou intoxicações devido ao uso inadequado do medicamento.
Conseqüências na saúde do individuo decorrentes da não prática da dispensação farmacêutica
Muitas vezes, o paciente o desconhece a finalidade do medicamento. Não é raro o paciente associar que o antibiótico indicado seja para sua dor de garganta, deixando de usá-lo logo após que este sintoma desapareça, não cumprindo o regime terapêutico determinado. O tempo de uso também traz conseqüências, como no uso de antibióticos, já citadas, que pode levar a um quadro de resistência bacteriana.
As reações adversas também merecem atenção especial, pois muitos são passíveis de atenuação, outros transitórios e outros até mesmo evitáveis (como efeito rebote da clonidina, quando seu uso é interrompido de maneira abrupta).
O risco de interações deve ser sempre considerado, principalmente em relação aos medicamentos de uso crônico e aqueles de venda livre. Trata-se de uma informação importante a ser passada para o paciente, para evitar descontrole de enfermidades como diabetes e hipertensão arterial.
O farmacêutico também deve ser capaz de realizar atividades na área da educação em saúde, informando sobre os tratamentos não farmacológicos, que irá auxiliar na terapia farmacológica estabelecida e impedir possíveis interferências ou complicações do quadro clinico do paciente.
O que ocorre é que um determinado problema de saúde apresentado pelo paciente pode ter surgido pelo uso incorreto de medicamentos. A ocorrência de muitas enfermidades está vinculada à farmacoterapia estabelecida, sendo, em grande parte, passíveis de prevenção pela prática adequada da dispensação farmacêutica.
Como praticar a dispensação farmacêutica
O ato da dispensação farmacêutica, que tem com objetivo educar o paciente para que ele tenha o restabelecimento de sua saúde, deve ser praticado de forma que o paciente entenda que o medicamento a ser utilizado possui:
· Finalidade: serve para algo (controle da pressão arterial, alivio da dor etc.);
· Posologia: quantidade de comprimidos ou volume a ser tomado por vez;
· Horário apropriado: a que horas tomar - junto ou não com refeições;
· Tempo determinado de uso;
· Reações adversas - atenuação;
· Risco de interações;
· Tratamento não farmacológico.
Lógico que, dependendo da classe do medicamento, varias informações adicionais deverão ser repassadas, para o alcance do objetivo proposto. Preparo de suspensões, uso de aerossóis, soluções otológicas, entre outras formas farmacêuticas, merecem atenção especial quanto à maneira correta de utilização.
Conclusões
A prática da dispensação de medicamentos exige que o profissional exponha seus conhecimentos e que analise cada situação em particular. O estudo deste trabalho apontou a existência de sete itens fundamentais (finalidade, posologia, horário apropriado, tempo de uso, reações adversas e atenuação, risco de interações e tratamento não farmacológico) que, quando repassados ao paciente, impedem o surgimento de situações de morbidade relacionadas aos medicamentos. Observa-se que a prática da dispensação tem se tornado, em muitos casos, automatizada, não lhe atribuindo a dimensão técnica e cientifica que lhe é conferida. Desta forma, deve o profissional se empenhar nesta prática, pois sua omissão pode refletir muito na saúde de quem ele atende. O profissional também deve sair do foco exclusivo do medicamento, da postura tecnicista, e entrar no universo do paciente, a fim de criar condições para que este entenda as informações e possa usufruir das mesmas da melhor forma possível.
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Publicado na Revista Racine 102 (Janeiro/Fevereiro 2008)



















