A importância da escola na formação dos hábitos alimentares
A alimentação é uma das necessidades mais importantes para o desenvolvimento do ser humano, não apenas sob o ponto de vista biológico mas também por envolver aspectos sociais, psicológicos e econômicos. Esta transformação está presente em todas as fases da vida, porém, na infância e na adolescência é mais evidente (1, 2).
Uma alimentação nutricionalmente adequada, principalmente nessas fases, associada à ausência de doenças, promove o crescimento e o desenvolvimento de acordo com o potencial genético do indivíduo, um aproveitamento escolar mais satisfatório, menor risco de doenças na fase adulta e senil, além de manter as defesas imunológicas adequadas e melhorar a qualidade de vida (8).
Sabe-se que os escolares passam praticamente um terço da vida ativa na escola nos dias de semana, cerca de 200 dias ao ano. Por isso a escola desempenha um papel fundamental na formação de valores, hábitos e estilos de vida, entre eles, o da alimentação, que se estenderá para o resto da vida dos alunos(1, 2, 3).
Deste modo, o aluno que se alimenta na escola participa das aulas sem a sensação de fome e de seus efeitos durante este período ( ) e os hábitos, adquiridos desde a amamentação às papinhas salgadas dos seus primeiros anos de vida, é que determinam a seleção dos alimentos posteriormente (1, 2, 3).
A alimentação de uma criança reflete diretamente sobre a sua saúde geral e, como tal, deve ser realizadade modo adequado para a instalação e a manutenção de hábitos saudáveis que perpetuarão ao longo da vida. Assim, a orientação nutricional deve ser incluída no planejamento de educação em saúde de maneira concreta, enfatizando a importância da prática alimentar no contexto da saúde (4).
Sendo assim, a escola apresenta-se como um espaço privilegiado para a construção da cidadania.
Além de promover a saúde e de contribuir na formação de bons hábitos alimentares dos alunos, é também um ambiente de ensino que articula de forma dinâmica alunos e familiares, professores,
funcionários e profissionais de saúde, proporcionando condições para desenvolver atividades de promoção da saúde (8).
Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE)
A Alimentação Escolar é um direito previsto pelo artigo 208, incisos IV e VII da Constituição Federal, conquistado pelos alunos brasileiros. O Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) é o nome oficial do programa de merenda escolar do Governo Federal. Foi criado em 1 54, sendo o mais antigo programa social do Governo Federal na área de educação, tendo como objetivos: suprir no mínimo 15% das necessidades nutricionais diárias dos alunos do sistema público de ensino, contribuir para uma melhor aprendizagem e favorecer a formação de bons hábitos alimentares em crianças e adolescentes (5).
O PNAE é o maior programa de alimentação em atividade no Brasil. Diariamente, cerca de 37 milhões de refeições são servidas nas escolas públicas do País. Elas são financiadas em parte pelo Governo Federal e complementadas com recursos das prefeituras e dos governos dos Estados (5).
Educação nutricional como fator primordial na adoção de hábitos saudáveis
A Educação Nutricional pode ser definida como “uma variedade de experiências planejadas para facilitar a adoção voluntária de hábitos alimentares ou de qualquer comportamento relacionado à alimentação que conduza à saúde e ao bem-estar” (10). O ambiente escolar possui condições favoráveis para que os alunos experimentem sabores diferentes e faz com que eles tenham uma relação saudável com os alimentos e obtenham conhecimento sobre seu valor nutricional e a importância que têm na sua saúde (7).
As ações de promoção da saúde orientadas a adquirir hábitos alimentares saudáveis desde as primeiras etapas da vida têm um grande efeito potencial sobre a saúde e o bem-estar, não apenas na infância e na adolescência como também em etapas posteriores da vida. Neste sentido, os projetos de educação nutricional em escolas são muito importantes e devem considerar as necessidades e os interesses dos alunos e da unidade escolar (11).
Sendo assim, as atividades de educação nutricional apresentam-se como ferramentas favoráveis à formação de hábitos alimentares na medida em que propõem o estímulo e interesse ao educando, por serem veículos de comunicação e expressão. Além disso, o momento da refeição é extremamente propício para essas ações, principalmente quando a apresentação dos alimentos é realizada de forma atrativa por meio das características sensoriais (12).
Gastronomia e alimentação escolar
A gastronomia é o conhecimento fundamentado de tudo o que se refere à alimentação. Seu objetivo é zelar pelo bem estar do homem, por meio de uma alimentação saudável (13). Um gastrônomo (gourmet, em francês) pode ser um(a) cozinheiro(a), mas pode igualmente se preocupar com o refinamento da alimentação, incluindo não somente a forma como os alimentos são preparados mas também como são apresentados (3).
Por essas razões, a gastronomia tem um foro mais alargado que a culinária, que se ocupa mais especificamente das técnicas de confecção dos alimentos. O prazer proporcionado pela comida é um dos fatores mais importantes da vida depois da alimentação para a sobrevivência. A gastronomia nasceu desse prazer e constituiu-se como a arte de cozinhar e associar os alimentos para deles retirar o máximo benefício. Cultura muito antiga, a gastronomia esteve na origem de grandes transformações sociais e políticas (3).
Uma refeição colorida, preparada com métodos de cocção adequados e com apresentação diferenciada, torna-se preferência em diversos públicos, principalmente em escolares, pois desperta o interesse dos mesmos em, pelo menos, degustar o alimento desconhecido, levando, muitas vezes, à apreciação destes (14). Um obstáculo encontrado na preparação da merenda é que muitas merendeiras trabalham nas mais difíceis condições, sem infra-estrutura (equipamentos, utensílios e espaço físico adequado) (15). Portanto, para driblar todas as dificuldades encontradas é necessário uma constante capacitação dos profissionais da área da alimentação.
A utilização de especiarias no preparo das refeições é uma alternativa para melhorar as características sensoriais. Além disso, a distribuição e o porcionamento das mesmas podem refletir na rejeição dos alimentos, sendo importante atentar-se a todos os detalhes (14). Uma proposta interessante para ser implantada nas escolas é a criação de hortas e pomares para permitir parte de sua sustentabilidade e estabelecer um vínculo positivo dos alunos com estes alimentos, pois o interesse dos escolares aumenta com o desenvolvimento das atividades de cuidado e preservação realizados pelos alunos (15). Essa atividade deve ser realizada com planejamento e organização para evitar falhas no processo, pois a criança deve acompanhar desde a escolha do alimento para o plantio até sua colheita e preparo, evitando, assim, a frustração e o desinteresse pelo alimento. Aulas de culinária também são instrumentos positivos, pois estreitam o elo dos alunos com os alimentos, permitindo que estes desenvolvam autonomia e confiança, além de despertar sua atenção (14).
Para aliar uma alimentação saudável a uma refeição atrativa, de acordo com o estilo de vida ou padrões culturais dos alunos, é extremamente primordial a atuação do nutricionista, pois a aplicação dos conceitos de gastronomia deve estar associada às leis da nutrição, unindo, assim, a sensação de uma refeição saborosa com a certeza de uma dieta saudável (14).
Deste modo, o nutricionista deve exercer a função de promotor da saúde na escola por meio de atividades educativas, integrandose com os demais profissionais que atuam no contexto escolar. A elaboração de cardápios que atendam às necessidades dos escolares, de acordo com o PNAE, deve ser associada às técnicas de gastronomia necessárias, visando, além da oferta adequada dos nutrientes, uma aceitação positiva pelos alunos (2).
A apresentação dos alimentos, bem como os métodos de preparo, deve ser diversificada, fazendo com que os alunos possam consumir o mesmo alimento, rejeitado anteriormente, de formas variadas, para, assim, motivar a experimentação e, conseqüentemente, a aceitação deste (2).
Salienta-se que a criança tem como característica a neofobia (neo = novo; fobia = medo), o que torna imprescindível o incentivo à experimentação freqüente. Estudos já demonstraram que são necessárias de oito a 10 exposições para que o alimento seja aceito (10).
A gastronomia surge como uma ferramenta aliada à educação nutricional, para ampliar o conhecimento e a aceitação dos alimentos por crianças e adolescentes, que podem participar de oficinas culinárias, concursos culinários etc., que contribuirão, também, para desmistificar o “cozinhar” e a “cozinha”, local por vezes evitado ou proibido.
Desta forma, os alunos desenvolvem sua criatividade e seu paladar, visto que a gástronomia estimula os sentidos por meio da exploração das características organolépticas dos alimentos e preparações. Essa junção traz ainda mais benefícios para as crianças e adolescentes, além de fomentar hábitos alimentares saudáveis como sensibilizar para a boa qualidade das refeições escolares, assinalar a importância da gastronomia regional, elucidar técnicas de higiene e manipulação de alimentos, estimular a utilização pedagógica dos temas e, ainda, combater a obesidade infanto-juvenil.
Para o sucesso da associação entre a educação nutricional e a gastronomia na alimentação escolar é imprescindível a motivação da unidade escolar, pois, só assim, haverá a efetiva participação de todo o segmento escolar (alunos, pais/responsáveis, professores, merendeiras, agentes escolares, diretores etc.) e a formação de hábitos alimentares saudáveis.
Referências Bibliográficas
(1) KART, C.R; HUBSCHER, G.H; MURA, J.D.P. A implantação da nutrição funcional na alimentação escolar. Revista Nutrição, Saúde & Perfomance. 34, 2007;
(2) KUREK, M; Butzke, C.M.F. Alimentação Escolar Saudável para educandos da educação infantil e ensino fundamental. Revista de divulgação técnico-científica do ICPG. v.3, n.9, jul-dez, 2006;
(3) MURA, J.D.P; Chemin, S.M.S.S. Tratado de Alimentação, Nutrição e Dietoterapia. 1 ed. São Paulo: Rocca, 2007;
(4) CAMPOS, J.A.D.B; ZUANON, A.C.C. Merenda Escolar e promoção de saúde. Cienc. Odontol. Bras. v.7, n.3, p.67-71, jul/set, 2004;
(5) PNAE, 2008. Disponível em: http://www.premiomerenda.org.br, acesso em 10/02/2008;
(6) FNDE, 2008. Disponível em: http://www.fnde.gov.br/home/index.jsp?arquivo=alimentacao_escolar.html, acesso em 10/02/2008;
(7) Alimentação Escolar, 2008. Disponível em : http://portal.prefeitura.sp.gov.br/secretarias/gestaopublica/merenda_legal/0002, acesso em 10/02/2008;
(8) COSTA, E.Q; RIBEIRO, V.M.B; RIBEIRO, E.C.O. Programa de alimentação escolar: espaço de aprendizagem e produção de conhecimento. Rev. Nutr. Campinas. v.14, n.3, p, set/dez, 2001;
(9) MARIETTO, F.P. Alimentação Escolar. Rev. Nutrição – Qualidade em Alimentação. n. 14, nov, 2002;
(10) FAGIOLI. D.; NASSER, L.A. Educação Nutricional na infância e na adolescência: planejamento, intervenção, avaliação e dinâmicas. São Paulo: RCN, 2006;
(11) PERES R. et al Estratégias educativas para la promoción de consumo de frutas y verduras en la médio escolar. Proyecto pro Children. Arquivos Latino Americanos de Nutricion. Chile,v.54,p.14-19.2004;
(12) SANTOS, L.A.S. Educação Alimentar e Nutricional no contexto da promoção de práticas alimentares saudáveis. Revista Nutrição Campinas. 18(5), 2005;
(13) ASSIS, M.A.A. A Importância da Gastronomia na Elaboração de Dietas Saudáveis. Rev. Nutrição em Pauta. São Paulo, jul/ago, 2002;
(14) Programa Alimentação Saudável - Prefeitura da Cidade de São Paulo - Secretária Municipal de Coordenação das Subprefeituras - Supervisão Geral de Abastecimento, 2008;
(15) MASCARENHAS, J.M.O; SANTOS, J.C. Avaliação da composição nutricional dos cardápios e custos da alimentação escolar da rede municipal de Conceição do Jacuípe/BA. Sitientibus. Feira de Santana, n.35, p.75-90, jul/dez, 2006.
Publicado na revista Nutrição Profissional 18 (Março/Abril 2008)


















