Introdução
A avaliação de interação medicamentosa vem se tornando uma atividade clínica cada vez mais importante dentro dos hospitais, uma vez que as mesmas, quando não desejáveis, podem prolongar o tempo de internação de um paciente. Por definição, interação medicamentosa ocorre quando um fármaco interage com outro, podendo diminuir ou anular a ação do outro ou de ambos, ou mesmo potencializar a ação. O risco de interação é proporcional ao número de fármacos prescritos para um paciente, e se esse paciente está hospitalizado, os riscos aumentam com a politerapia. Um estudo realizado por Braga et al. (2004), em um hospital geral universitário, mostrou que a média do número de medicamentos prescritos foi de cinco fármacos por paciente. As estimativas de ocorrência de interação medicamentosa estão entre 3% a 5% em pacientes que fazem uso de poucos fármacos e 20% entre aqueles que fazem uso de 10 a 20 fármacos simultaneamente (Goodman e Gilman, 2006).
Objetivos
O presente trabalho teve como objetivo identificar as principais interações entre fármacos presentes em prescrições de pacientes hospitalizados.
Materiais e métodos
O estudo foi realizado em um hospital privado, 181 leitos, com especialidades em cardiologia, urologia e ortopedia, localizado na região central de São Paulo (SP), Brasil. A coleta de dados foi realizada por meio do preenchimento de um formulário farmacoterapêutico desenvolvido para esta finalidade, com consulta a prontuários, preenchidos semanalmente por um período de seis meses (abril a setembro de 2005). Foi realizado um estudo observacional retrospectivo onde foram analisadas prescrições de pacientes de ambos os sexos, faixa etária variável, que ficaram internados no hospital durante este período. As interações medicamentosas foram classificadas de acordo com o seu grau de gravidade (classificação de Oga et al., 2002).
Resultados
Foram analisadas 100 prescrições de pacientes hospitalizados, sendo 55 pacientes do sexo masculino e 45 do sexo feminino, com idade média de 58,1 anos (variando entre 17 e 89 anos). O número médio de medicamentos foi de 8,5 por prescrição, mínimo de três e máximo de 20 e dois fármacos por prescrição.
Das 38 prescrições que apresentaram interações, 24 apresentaram pelo menos uma interação medicamentosa, 10 continham duas interações e em quatro prescrições foram observadas três interações em cada prescrição. Pôde ser observado que a interação do captopril com furosemida foi a mais freqüente (7,1%). Outra interação freqüente foi a associação de dois fármacos que atuam na coagulação: interação do ácido acetilsalicílico com a heparina. Observou-se que 42,9% das interações foram consideradas graves, pois são interações que, dependendo da intensidade, podem causar danos permanentes ou letais ao paciente; 46,4% das interações foram de grau moderado, ou seja, promovem efeitos nocivos; 10,7% das interações foram de grau leve, ou seja, de pouca importância clínica, pois os efeitos não chegam a ser nocivos ou alterar a eficácia dos fármacos. Pudemos destacar que 33,9% das interações encontradas envolviam pelo menos um fármaco sujeito a controle especial (portaria 344/ 98), sendo, a maioria delas, interações de sinergismo.
Discussão
A politerapia tornou-se útil no tratamento e doenças crônicas coexistentes ou para potencializar o efeito farmacológico em condições refratárias ou pouco responsivas, contudo, pode favorecer a ocorrência de reações adversas. Alguns estudos prospectivos realizados em hospitais americanos mostraram a incidência de 6,7% de reações adversas graves aos medicamentos (Veehof et al., 2000). Esse é um fator crítico, principalmente nos casos de pacientes idosos submetidos à internação hospitalar, portadores de doenças crônicas, justamente os mais propensos a politerapia (Ziere et al., 2006).
As interações de maior incidência observadas neste trabalho também são as mais relatadas por outros autores, como a interação do captopril com a furosemida, podendo causar hipotensão importante (Oga et al., Farmácia Hospitalar 2002; Motwani & Strithers, 1992).
A interação do ácido acetilsalicílico, como antiagregante plaquetário, com a heparina, que também atua inibindo a coagulação ao ativar a antitrombina III (Rang et al., 2004) tem sido relatada como uma interação grave, pois aumenta muito o risco de hemorragias (Dalen, 2006), também aparece em nossos dados como segunda maior incidência.
Estudo realizado por Raschetti et al. (1999) mostrou que as interações medicamentosas representaram 3 a 5% das reações adversas a medicações que poderiam ter sido prevenidas em hospitais, sendo um fator importante que contribui para o aumento das admissões hospitalares e reinternações. O custo destas chega a 1,3 bilhões de dólares nos Estados Unidos (Wannmacher, 2004). Uma pesquisa realizada por Gholami e Shalviri (1999) com 370 pacientes hospitalizados, foram observadas 102 reações das quais, aproximadamente 60 foram identificadas como reações que poderiam ter sido prevenidas. No nosso trabalho, avaliamos que algumas interações poderiam ter sido evitadas, com uma simples alteração dos horários de administração, colocando fármacos interagentes em horários de administração diferentes. Corroborando com nossos dados, alguns estudos também mostram que a média de idade dos pacientes, cuja prescrição apresentou interação medicamentosa, foi de 59,7 anos, ou seja, as interações acometem principalmente pacientes idosos, uma vez que estes fazem uso de vários fármacos para tratamento de doenças crônicas. Além disso, fatores farmacocinéticos, como a distribuição e a metabolização, apresentam-se alterados devido ao envelhecimento do organismo (Beyth & Shorr, 2002).
Um fator importante para reduzir as interações medicamentosas em uma prescrição é uma abordagem multidisciplinar (Morimoto et al., 2004) focada no paciente, integrando o cuidado médico e farmacêutico, unindo o diagnóstico médico clínico e a anamnese farmacêutica para uma elaboração de uma proposta concisa e racional da farmacoterapia, bem como o acompanhamento crítico desta durante toda internação. O farmacêutico é o profissional mais indicado para realizar a identificação e a monitorização de possíveis interações medicamentosas em prescrições, pois é o profissional que detém conhecimentos em farmacologia e toxicologia, o que foi corroborado por Pepe e Castro (2000), que enfatizavam que o farmacêutico pode identificar, corrigir ou reduzir riscos relacionados à terapêutica com vários fármacos.
Conclusão
Observamos que o alto número de interações medicamentosas relatadas nesse trabalho tem sido corroborado por outros estudos e pesquisas mostrando que é de extrema importância que se atue preventiva e rapidamente no que diz respeito à análise das prescrições médicas.
Esse trabalho propõe que a presença de um farmacêutico na equipe de saúde de um hospital é imprescindível. O farmacêutico, como profissional da saúde, é responsável pelo uso racional dos medicamentos e pode contribuir de forma importante, fornecendo informações sobre a farmacocinética e farmacodinâmica, com o objetivo de reduzir o número de interações medicamentosas e a incidência de reações adversas a medicamentos na farmacoterapia de pacientes hospitalizados, contribuindo para a melhoria da qualidade de vida dos mesmos.
Referências Bibliográficas
(1) Beyth, R. J., Shorr, R. I. Uso de medicamentos:geriatria prática. 3. ed. Rio de Janeiro: Revinter, 2002;
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Publicado na Revista Racine 94 (Setembro/Outubro 2006)


















