Introdução
O interesse em conhecer a magnitude dos problemas nutricionais de uma população está relacionado à possibilidade de identificar a distribuição desses distúrbios, monitorar desigualdades sociais em saúde e, especialmente, possibilitar a identificação de necessidades de implementação de ações específicas e diferenciadas de nutrição e saúde (Bonvino e Vianna, 1996, Braggion et al, 2000).
No Brasil, tem sido detectada a progressão da transição nutricional na população, caracterizada fundamentalmente pela redução nas prevalências dos déficits nutricionais e ocorrência mais expressiva de sobrepeso e obesidade. O processo de transição nutricional, embora atingindo o conjunto da população, diferencia-se em momentos e em intensidade, conforme o segmento socioeconômico (Rezende et al, 2006, Silva et al, 2000).
A obesidade é uma condição complexa, com sérias dimensões sociais e psicológicas, que afeta virtualmente todas as idades e grupos socioeconômicos, tanto em países desenvolvidos quanto em desenvolvimento. Pode ser definida como um acúmulo de gordura generalizada ou localizada que se associa aos prejuízos à saúde do indivíduo (Cano et al, 2005, Mascarenhas e Santos, 2006).
As tendências de transição nutricional decorrentes da urbanização e industrialização ocorridas neste século direcionam para uma dieta mais ocidentalizada, com especial destaque para o aumento da densidade energética, maior consumo de carnes, leite e derivados ricos em gorduras e redução do consumo de frutas, cereais, verduras e legumes, a qual, aliada à diminuição progressiva da atividade física, converge para o aumento no número de casos de obesidade em todo o mundo (Brandão et al, 2005, Caroba e Silva, 2005).
No meio urbano, a grande dificuldade das mães em compatibilizar o emprego com o cuidado infantil impulsionou a criação de espaços destinados ao atendimento das crianças - Centro de Educação Infantil (CEI) e Escola Municipal de Ensino Infantil (EMEI) -, que constituem um importante recurso para viabilizar sua participação no mercado de trabalho e o conseqüente aumento da renda familiar (Tuma et al, 2005).
A escola, local onde as crianças passam grande parte de seu tempo, atua de maneira significativa na formação de opiniões e na construção de conceitos, sendo um local de referência para a implementação de qualquer programa que vise a educação do indivíduo (Campos e Zuanon, 2004).
A alimentação desempenha um papel decisivo para o crescimento e o desenvolvimento de crianças e adolescentes, para os quais a família e a comunidade são fundamentais. É importante não somente para satisfazer as necessidades nutricionais, mas também deve ser vista como um fator educacional na promoção da mastigação, da deglutição e do contato com novos sabores. As formas de aprendizagem da criança na alimentação se dão por exposição repetida e apresentação de alimentos desconhecidos (Devicenzi et al, 2004).
Nos primeiros anos de vida, é essencial para o crescimento e o desenvolvimento da criança uma alimentação qualitativa e quantitativamente adequada, pois ela proporciona ao organismo a energia e os nutrientes necessários para o bom desempenho de suas funções e para a manutenção de um bom estado de saúde (Rodriguez, 2005).
As práticas alimentares são adquiridas durante toda a vida, destacando-se os primeiros anos como um período muito importante para o estabelecimento de hábitos que promovam a saúde do indivíduo, evitando patologias como anemias, diabetes mellitus tipo II, cardiopatias, síndromes metabólicas e outras comorbidades associadas aos altos e crescentes índices de obesidade observados entre as crianças (Philippi et al, 2003, Cripps et al, 2005).
A educação nutricional propicia o conhecimento coletivo com integração entre a equipe de saúde, a escola, a criança e a família, tendo como ponto-chave os conteúdos trabalhados em atividades práticas de maneira integrada e não exclusivamente em aulas teóricas. Para uma orientação educacional bem-sucedida e a adequação da alimentação escolar, é necessário considerar os diferentes padrões nutricionais prevalentes no interior da rede de escolas públicas e desenvolver atividades de educação nutricional e medidas de intervenção, visando a qualidade de vida e a melhoria de saúde dos escolares (Bizzo e Leder, 2005).
Considerando que as mudanças nos hábitos alimentares e a obesidade decorrente destas representam uma importante causa de problemas de saúde pública mundialmente, torna-se fundamental a avaliação constante do estado nutricional infantil, bem como ações de educação nutricional neste contexto.
Objetivo geral
Incentivar o consumo de alimentos com baixa aceitação por meio de atividades lúdicas.
Metodologia
Trata-se de um estudo transversal em que os participantes foram selecionados em um CEI, localizado na região da zona leste da cidade de São Paulo. A população analisada foi composta por 116 pré-escolares de ambos os gêneros, com idade entre seis meses e três anos e sete meses. Essa unidade é integrante das escolas que participam voluntariamente do Programa Alimentação Saudável da Prefeitura da Cidade de São Paulo. O programa tem o objetivo de promover a adoção de bons hábitos alimentares por meio de dinâmicas ludopedagógicas e também realizar a avaliação nutricional em crianças de até dez anos de idade.
A obtenção das variáveis antropométricas - peso, comprimento e altura - seguiram as técnicas recomendadas por Jelliffe (1968). Os dados obtidos a partir da avaliação do estado nutricional das crianças deste estudo foram inseridos no software Anthro 2005, utilizando a referência populacional da Organização Mundial da Saúde (OMS), 2006.
A classificação de desvios nutricionais no presente estudo seguiu as recomendações da OMS, 1995. As crianças foram consideradas com déficit quando o escore z, calculado pelo software, se apresentava abaixo de -2 e obesidade quando o escore z se apresentava acima de +2 no Índice de Massa Corpórea para a Idade (IMC/I).
Os alunos que apresentaram desvios nutricionais foram encaminhados, pelo Programa Alimentação Saudável, a clínicas de atendimento nutricional de Universidades parceiras, ficando sob responsabilidade dos pais/responsáveis dar início ao tratamento individualizado e específico indicado. A primeira etapa de observação da refeição foi realizada em três dias não consecutivos, visando verificar o alimento menos aceito pelos alunos para desenvolver uma atividade ludopedagógica de intervenção nutricional. Neste caso, foi o suco de melão. Além disso, a observação serviu para coletar dados de rejeição, degustação (quando a criança apenas experimentou o alimento) e repetição.
Em seguida, a atividade proposta foi o teatro de fantoche, em que o personagem “melão” interagia com os alunos, explicando a importância deste alimento para a saúde. Ao final foi entregue aos alunos uma figura de melão para colorir, como atividade de fixação do conteúdo da atividade.
Ao término da aplicação da atividade, a segunda etapa de observação (acompanhamento de três dias) foi realizada com o intuito de verificar a aceitação deste alimento. Semdo assim, após uma semana, foi aplicada a segunda atividade lúdica, com o objetivo dos alunos conseguirem relacionar a importância da ingestão do melão por meio de dois cartazes, sendo: (1) caracterizado pela presença do melão na alimentação e associado a figuras como super-heróis, princesas, crianças felizes e (2) pela ausência do melão na alimentação associada a figuras como crianças doentes e tristes. Após dez dias da aplicação da dinâmica foi realizada a terceira etapa de observação (acompanhamento de três dias) da aceitação do suco de melão.
A pesquisa apresentada neste artigo foi aprovada pelo comitê de ética do Centro Universitário São
Camilo.
Resultados e discussão
Dos 116 alunos avaliados, 58,6% (n= 68) são do gênero masculino e 41,4% (n= 48) do feminino. O estado nutricional dos alunos foi avaliado por meio do IMC/I verificando se há déficit ou excesso de peso.
Na Tabela 1, pode-se verificar uma prevalência de 11,1% de déficit nos alunos do gênero feminino, considerando que não houve déficit no sexo masculino. No estudo de Guimarães, foi encontrada uma prevalência de déficit em pré-escolares de 2,6%, sendo superior ao encontrado neste estudo (0,8%) (Guimarães et al, 2001).
Verificou-se, na Tabela 2, uma prevalência de 4,3% de excesso de peso para o gênero feminino, ultrapassando os 2,6% do gênero masculino. Segundo Barreto et al, a prevalência maior de excesso de peso no gênero feminino deve-se ao fato de que o excesso de energia é preferencialmente armazenado sob a forma de gordura e não de proteína, como ocorre no gênero masculino (Barreto et al, 2007). No entanto, em crianças essa diferença em relação ao gênero pode não estar nítida, já que nesta fase os hormônios sexuais ainda não se encontram em níveis a determinar maior acúmulo de tecido adiposo nas meninas e maior aumento de massa magra nos meninos. Flegal et al (2001) também encontraram prevalências mais elevadas no gênero masculino, sendo 17,2% para meninos e 13,9% para meninas, com crianças de dois a cinco anos. No estudo de Tuma et al (2005), observou-se excesso de peso de 6,1% na população em geral, ultrapassando os 3,5% encontrados neste estudo.
A Figura 1 mostra o deslocamento para a direita (excesso de peso) da amostra estudada (em vermelho) em relação à população de referência da OMS, 2006. Onis e Blossner (2000), analisando dados mundiais sobre a avaliação do grau de desnutrição das populações, encontraram diversas sociedades em desenvolvimento em que o número de crianças obesas tornouse gradativamente maior nas últimas décadas.
Observação da refeição
A Tabela 4 mostra a porcentagem média de aceitação e de degustação do suco de melão, em que se observa que a aceitação da fruta aumentou da primeira para a última observação, de 60,6% para 70,4%, provavelmente devido às duas etapas de atividades lúdicas anteriores para o incentivo ao consumo. A média de degustação apresentou um aumento da primeira para a segunda observação, de 4,2% para 26%, provavelmente pelo estímulo da primeira dinâmica ludopedagógica, e nota-se que não houve degustação na última etapa de observação, porém houve aumento da aceitação.
No estudo de Farias Júnior e Osório (2005) sobre consumo alimentar de crianças menores de cinco anos, observou-se que apenas a banana foi consumida por mais de 20% das crianças. Monteiro et al (2000) afirmam que nas últimas décadas ocorreu um declínio no consumo de frutas.
Ressalta-se que a rejeição de novos alimentos é característica da infância. Deste modo, o incentivo à experimentação freqüente é a melhor alternativa para diminuir a recusa dos alimentos. Estudos têm demonstrado que são necessários de oito a dez exposições para que o alimento seja aceito (Fagioli e Nasser, 2006).
As atividades educativas realizadas foram aceitas de forma positiva pelos alunos. Os mesmos interagiram de forma satisfatória, atingindo, assim, o objetivo proposto pela atividade. Os resultados mostram que existe melhora na aceitação do suco de melão por meio da atividade lúdica, porém somente após a segunda oferta, contudo, as intervenções educativas devem ter duração adequada para atingir os seus objetivos. Sendo assim, intervenções mais longas apresentam melhores resultados que as pontuais (Fagioli e Nasser, 2006).
Boog (2004), em seu estudo sobre a contribuição da educação nutricional para a construção da segurança alimentar, ressalta que os alimentos consumidos na escola, sejam procedentes da alimentação escolar, de lanches trazidos de casa ou comprados em cantinas, devem ser igualmente saudáveis. Além da necessidade de manter o equilíbrio entre os alimentos consumidos na escola, coibindo a venda de produtos com alta concentração energética e elevado teor de sódio e corantes artificiais, devese considerar que as preferências alimentares infantis sofrem forte influência do marketing de produtos alimentícios, o que requer atenção no planejamento dos cardápios da alimentação escolar, bem como no controle dos alimentos provenientes de casa.
Deste modo, salienta-se que a criança não nasce com habilidade inata de escolher alimentos nutritivos. Esta habilidade é aprendida por meio de experiências sociais e educativas (Fagioli e Nasser, 2006).
Conclusão
O caráter indicativo do estudo sugere que a intervenção educativa vem se tornando cada vez mais fundamental na promoção de bons hábitos alimentares, uma vez que os resultados apresentados após a intervenção foram positivos, comprovando a efetividade e a importância do trabalho em educação nutricional em longo prazo.
Publicado na revista Nutrição Profissional 25 (Maio/Junho 2009)


















