Em 2011 comemorou-se 21 anos da publicação Opportunities and Responsabilities in Pharmaceutical Care, de Charles Hepler e Lindan Strand. Esta publicação representou um divisor de águas para a profissão farmacêutica na área assistencial, assim como aconteceu com o conceito de farmácia clínica na década de 1960. Esses dois marcos, cada um em seu momento histórico, geraram reflexões profundas no interior da profissão e vêm contribuindo sobremaneira para o aprimoramento da prática clínica farmacêutica. A farmácia clínica, fruto de um movimento profissional norte-americano que questionava a formação e as atitudes do farmacêutico na área assistencial, surgiu como nova disciplina a partir do final da década de 1960, com o intuito de inserir o farmacêutico na equipe de saúde, de forma que este passasse a contribuir com seus conhecimentos para melhorar o cuidado dos pacientes 1.
Farmácia Clínica / Atenção Farmacêutica
Assim como aconteceu com a atenção farmacêutica, vários conceitos também foram propostos para farmácia clínica, a qual foi inicialmente chamada de farmácia orientada de forma equivalente ao medicamento e ao indivíduo que o recebe e farmácia realizada ao lado do paciente 1.
Com o tempo, os conceitos de farmácia clínica foram sendo paulatinamente difundidos e incorporados pela profissão farmacêutica no mundo todo. Seu desenvolvimento, contudo, se deu especialmente no ambiente hospitalar, no qual o farmacêutico encontrava as melhores condições de desenvolvimento de um trabalho integrado com a equipe de cuidado do paciente. Razão pela qual ainda hoje existe a idéia de que farmácia clínica está relacionada unicamente com ações desenvolvidas no ambiente hospitalar. Na América Latina, o Chile, país que se tornou referência em relação à farmácia clínica, desde 1972, incorporou esta disciplina no programa de graduação de farmacêuticos da Universidade do Chile e, desde 1977, tem realizado cursos de capacitação para farmacêuticos latino-americanos neste segmento 2. As primeiras iniciativas de formação do farmacêutico para a prática clínica no Brasil aconteceram na década de 1980, fruto da experiência pioneira dos farmacêuticos clínicos do Hospital Onofre Lopes da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRGN), capacitados para atuação clínica na Universidade do Chile, que realizaram em 1983 o 1º Curso Brasileiro de Farmácia Clínica e, de 1985 a 1992, oito edições do Curso de Farmácia Hospitalar para o Controle de Infecção Hospitalar. Embora estes oito cursos citados tivessem em seu conteúdo um componente de gestão voltado ao medicamento, apresentavam também um direcionamento clínico importante 3. Muitos dos profissionais que hoje atuam, ou estão envolvidos com docência no segmento da farmácia clínica, especializaram-se neste período por meio dos cursos citados. A farmácia clínica representou a introdução da orientação da prática farmacêutica ao paciente através dos serviços que passaram a ser prestados e houve uma grande evolução neste sentido 4. Contudo, apesar de orientada ao paciente, a prática farmacêutica acabou assumindo significados diversos e de grande amplitude. Além disso, algumas definições propostas colocaram os medicamentos como elemento principal e somente mencionavam o paciente 5.
A análise deste novo estado de situação fez com que fossem geradas novas inquietudes em um grupo de profissionais farmacêuticos que passaram a questionar como reorientar a prática farmacêutica, deslocando as preocupações profissionais do medicamento para seu usuário (p. 534).
Hepler e Strand na publicação Opportunities and Responsabilities in Pharmaceutical Care, ao analisarem o período correspondente a evolução da farmácia clínica descrevem que a ampliação das funções do farmacêutico penetrou de forma muito lenta na profissão e que, embora muitos farmacêuticos tenham se envolvido com entusiasmo nesta evolução, outros preferiram manter o status quo. Da mesma forma, algumas organizações farmacêuticas apoiaram esta ampliação de funções enquanto outras se opuseram a ela [...]. A profissão farmacêutica ficou exposta a esta disputa entre facções e às fragmentações delas decorrentes, e, em função destes fatos, continuava a ser uma profissão em busca de seu papel, incapaz de escolher entre uma desorientadora variedade de funções e de transpor uma variedade de barreiras para exercer a prática clínica [...] (1990, p. 534).
Este era o cenário da profissão farmacêutica na década de 1980 e as discussões críticas levantadas neste período foram responsáveis pela construção de um novo conceito de prática profissional: a atenção farmacêutica 2.
O conceito de atenção farmacêutica proposto por Hepler e Strand, em 1990, difundiu-se pelo mundo e
os diferentes países têm promovido discussões aprofundadas com o objetivo de adotar este novo modelo de prática farmacêutica adaptando-o às suas particularidades específicas. Esta série de conceitos, contudo, mantém a idéia filosófica original de seus autores 2. Em meados da década de 1990
começaram a ser observadas as primeiras iniciativas brasileiras de desenvolvimento de projetos seguindo a filosofia da atenção farmacêutica, partindo de modelos propostos nos trabalhos americanos e espanhóis e do intercâmbio de experiências que estavam sendo implementadas em países latino-americanos, como o Chile e a Argentina 2.
Desse breve histórico apresentado, pode-se concluir que o movimento profissional que originou ao conceito de farmácia clínica, na década de 1960, expandiu as possibilidades de atuação do farmacêutico na área assistencial, que passou não somente a exercer novas funções, mas também a inovar funções exercidas anteriormente e a fazer contribuições inéditas à literatura 5. Contudo, após alguns anos de sua implementação, passou a ser discutida a necessidade de que a prática farmacêutica tivesse maior orientação ao usuário de medicamentos, que fosse ampliada para outros ambientes de prática profissional e que estivesse mais comprometida com a obtenção de resultados concretos que contribuíssem para uma melhora do estado de saúde dos usuários de medicamentos.
Fruto dessas discussões, o conceito de atenção farmacêutica (leia-se pharmaceutical care), publicado em 1990 por Hepler e Strand, veio reforçar que o foco da prática farmacêutica deveria ser o usuário e não o medicamento, que a prática clínica independe do ambiente no qual está inserido o profissional e que resultados concretos, com a implementação dessa prática, somente seriam obtidos se o processo assistencial farmacêutico passasse a ser exercido de forma diferente. Desta forma, os farmacêuticos passaram a ser chamados a prestar serviços cognitivos seguindo a lógica comum dos profissionais provedores de cuidado em saúde, qual seja: identificação de problemas, elaboração de um plano para solucioná-los a partir dos conhecimentos aprofundados que detém em sua área de formação específica e respeitando o contexto bio-psico-social do paciente, co-responsabilização (compartilhada com os outros cuidadores do paciente) pelos resultados obtidos e registro de todo o processo assistencial realizado. O seguimento desta lógica permite conhecer e valorizar a atividade profissional exercida e os benefícios concretos que esta pode trazer aos pacientes e a sociedade. Pode-se dizer então que a farmácia clínica foi responsável pelo início do processo de orientação da prática farmacêutica para o paciente e a atenção farmacêutica apresentou a filosofia que precisaria ser internalizada pelo profissional para que suas ações assistenciais fossem resolutivas e promotoras de melhores resultados em saúde com o uso de medicamentos.
Sendo assim, o conceito de atenção farmacêutica e farmácia clínica são diferentes em função de terem sido construídos em momentos históricos distintos, mas guardam entre si uma grande proximidade, considerando-se que um originou-se do outro. Não obstante esta distinção, ambos os conceitos convergem para um mesmo destino, qual seja, o de atender as necessidades dos pacientes em relação a medicamentos
Desta forma, atividades de farmácia clínica, que não sejam exercidas diretamente com o paciente, mas motivadas a atender as suas necessidades farmacoterapêuticas, promovem a otimização das ações farmacêuticas realizadas diretamente com o paciente - ações clínicas de fato. Portanto, não é necessária a uniformização dos conceitos e tampouco a substituição de um conceito pelo outro, basta que se tenha o entendimento que o mais importante é o trabalho profissional integrado focado no paciente. Assim, atenção farmacêutica e farmácia clínica não devem ser tratadas de formas isoladas, pois se comportam de maneira relacional e complementar, encontram-se imbricadas e visivelmente interdependentes na prática cotidiana dos farmacêuticos clínicos.
Em 2011, a seção Farmácia Clínica/Atenção Farmacêutica da Revista Racine, seguindo a mesma lógica do PCare - Congresso Brasileiro de Farmacêuticos Clínicos, realizado de 7 a 9 de abril de 2011, no Centro de Convenções Rebouças, em São Paulo (SP), apresentou experiências que apontem para a importância dessa integração disciplinar como forma de beneficiar aquele que é o foco principal da prática clínica de todos os profissionais de saúde: o paciente.
Publicado na Revista Racine 121 (Março/Abril 2011)



















