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Realizou-se, no Chile, entre os dias 15 e 19 de novembro de 2009, o XV Congresso Latino-Americano de Nutrição. Considerado o mais importante evento científico para a América Latina, este congresso reúne, a cada 3 anos, especialistas em saúde pública, nutrição clínica e tecnologia de alimentos. A equipe de Nutrição da Unilever Brasil esteve presente no evento e trouxe registros importantes do que foi discutido no congresso.
Segundo Renata Cassar, gerente de nutrição da Unilever Brasil, em empresas que possuem compromisso com a saúde dos consumidores, os profissionais de nutrição trabalham muito próximos à comunidade científica com a finalidade de oferecer produtos alimentícios e programas de educação nutricional que acompanhem a evolução da ciência. Por isso, a participação neste tipo de evento é tão significativa.
Dra. Petra Verhoef*, pesquisadora e especialista em soja do Centro de Pesquisa e Desenvolvimento da Unilever na Holanda, apresentou uma atualização científica sobre a soja no simpósio satélite Benefícios dos Alimentos e Bebidas com Flavonóides, no qual mostrou resultados e conclusões mais recentes sobre a relação das isoflavonas da soja com a saúde cardiovascular, sintomas da menopausa, perda de massa óssea, redução do risco de câncer de mama e de próstata e desenvolvimento cognitivo.
A seguir os principais pontos da apresentação, relatados por Renata Cassar, que esteve no evento para dar suporte às iniciativas da Unilever.
Evidências Científicas dos Alimentos e Bebidas com Flavonóides
Doenças Cardiovasculares: Devido ao seu perfil nutricional, a soja em sua totalidade é considerada benéfica para a saúde cardiovascular. No entanto, esse efeito benéfico deriva principalmente da atuação da proteína de soja sobre os fatores de risco para a saúde do coração, o que está bem estabelecido. Este efeito acontece em relação à redução do LDL-colesterol. Referente à redução do triglicérides pela proteína de soja, bem como ao papel mais direto das isoflavonas na saúde cardiovascular, as evidências ainda são modestas.
Assim sendo, com base nos diversos estudos realizados com a proteína de soja, a Food and Drug Administration (FDA) aceitou as evidências de que a proteína de soja, se consumida em doses mínimas de 25 g por dia, e como parte de uma dieta reduzida em gorduras saturadas e colesterol, reduz o colesterol sanguíneo 1. No Brasil, alegação similar também foi aprovada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA).
Saúde da mulher: O impacto da soja na fase pós-menopausa é assunto de grande destaque, assim como o interesse nos estudos científicos mais recentes sobre os efeitos potenciais da soja e da isoflavona para a saúde da mulher. Isto se deve ao fato da soja ser a principal fonte dietética de isoflavonas – compostos difenólicos referidos como fitoestrógenos. Os receptores de estrógenos endógenos estão distribuídos pelo corpo humano, sendo encontrados especialmente no cérebro, nas mamas e nos vasos sanguíneos. Os estrógenos desempenham papéis distintos nestes órgãos, atuando na performance cognitiva relacionada à memória e na dilatação dos vasos sanguíneos. Nos ossos, os estrógenos podem inibir a reabsorção óssea via ação nos osteoclastos.
As isoflavonas ligam-se aos receptores de estrógenos e possuem ações agônicas ou antagônicas nestes tecidos sensíveis aos estrógenos. No período da menopausa, há uma queda nos níveis desse hormônio. Em paralelo, ocorre perda de massa óssea, além de alterações no humor, no comportamento e também na performance cognitiva.
Se a terapia de reposição hormonal foi e continua sendo uma preocupação para as pacientes, devido a potenciais prejuízos que pode causar à saúde da mulher, as mulheres na fase pós–menopausa estão à procura de alternativas saudáveis e naturais, e por isso buscam como alternativa o consumo de alimentos e bebidas à base de soja.
Menopausa: O estudo de Howes 2 demonstrou uma redução modesta nos sintomas de calores da menopausa, porém estes efeitos eram dependentes da dose e do número inicial de ondas de calor. Os relatos de Jacobs 3 declararam que ainda não há evidências conclusivas, mas existem indicações de que as isoflavonas da soja podem aliviar os sintomas da menopausa.
Massa óssea: Liu 4 encontrou menor perda de massa óssea em estudo com 608 indivíduos que consumiram acima de 90 mg/dia de isoflavona, indicando que o consumo de altas doses de isoflavonas por um longo período pode reduzir a perda de massa óssea. Outro estudo epidemiológico mostrou que o consumo habitual de soja está associado à redução de 30-40% do risco de fraturas em mulheres no período pós menopausa 5. Desta forma, existe evidência, embora ainda não conclusiva, de que isoflavonas de fontes alimentares podem exercer um efeito benéfico sobre a saúde óssea.
Câncer de mama: A Ásia é o continente que detém os menores índices de câncer de mama. Entretanto, os imigrantes japoneses que moram nos Estados Unidos da América (EUA) e no Brasil mostraram aumento na incidência de câncer de mama quando adotaram a dieta ocidental, segundo dados do Instituto Nacional do Câncer (INCA) 6. Em muitos estudos-de-coorte asiáticos, como de Qin 7 e Lampe 8, um alto consumo de soja e altos índices sanguíneos de isoflavonas são preditivos de menor risco de câncer de mama, mesmo antes da menopausa. Outro dado relevante é apresentado no estudo de Lee 9, publicado no American Journal of Clinical Nutrition, no qual se observou que o consumo de soja por meninas asiáticas proporcionou um efeito protetor contra o câncer de mama na vida adulta. Tais estudos sugerem um potencial papel das isoflavonas na redução do risco de câncer de mama, sendo necessários mais estudos para obterem-se evidências conclusivas a este respeito.
Saúde do homem: As isoflavonas também foram amplamente testadas em homens quanto à função vascular e ao impacto nos lipídios séricos. Além disso, o alto consumo de soja e isoflavonas está associado ao baixo risco de câncer de próstata em homens. Os testes de Pendleton 10, realizados a partir de suplementos de isoflavona, mostraram redução do teste específico conhecido como Prostate-Specific-Antigen (PSA) e menor efeito colateral da radiação em homens. Entretanto, dados recentes de Yan 11 afirmaram que ainda não há, até o momento, dados sobre os efeitos das isoflavonas na recorrência do tumor, na progressão da doença e na sobrevida destes pacientes.
Desenvolvimento cognitivo: Os estrógenos presentes na circulação agem nos beta-receptores de certas partes do cérebro envolvidas com funções cognitivas, geralmente relacionadas à memória. Thorp 12 avaliou 34 homens que consumiram isoflavonas por 12 semanas. Ao consumir uma quantidade de 116 mg isoflavonas, eles obtiveram uma melhora na memória de trabalho viso-espacial. Por serem ainda escassos os estudos sobre os efeitos das isoflavonas da soja sobre a função cognitiva, são necessárias evidências mais conclusivas para o estabelecimento de sua eficácia neste quesito.
Existem benefícios à saúde relacionados à soja como fonte protéica muito bem estabelecidos, especialmente referente à diminuição do colesterol sanguíneo e à saúde cardiovascular. Para os demais efeitos, em particular aqueles relacionados ao papel das isoflavonas da soja, embora existam evidências muito positivas sobre seus efeitos, ainda existe a necessidade de que mais pesquisas sejam realizadas, para sustentar amplamente seus benefícios.
*Dra Petra Verhoef obteve seu PhD em epidemiologia nutricional pela Universidade de Wageningen, Holanda, em 1996 e é (co)-autora de cerca de 70 artigos publicados em periódicos internacionais. Ela é editora associada do American Journal of Clinical Nutrition. No Centro de Pesquisa & Desenvolvimento da Unilever, na Holanda, atua como cientista da área de propriedades de saúde da soja, frutas e vegetais; necessidades nutricionais para o crescimento e desenvolvimento mental de crianças, acuidade mental do idoso e perfil nutricional.
Referências Bibliográficas
1. Kingman SM. Food and Drug Administration. Food labeling: health claim: soy protein and coronary heart disease. HHS: final rule: soy protein and coronary heart disease. Fed Reg. 1999; 64: 57700-57733.
2. Howes LG, Howes JB, Knight DC. Isoflavone therapy for menopausal flushes: a systematic review and meta-analysis. Maturitas. 2006; 55: 203-11.
3. Jacobs A, Wegewitz U, Sommerfeld C, Grossklaus R, Lampen A. Efficacy of isoflavones in relieving vasomotor menopausal symptoms- A systematic review. Mol Nutr Food Res. 2009; 53:1084-97.
4. Liu J et al. Effect of long-term intervention of soy isoflavones on bone mineral density in women: A meta-analysis of randomized controlled trials Bone. 2009; 44: 948-53.
5. Zhang X et al. Prospective Cohort Study of Soy Food Consumption and Risk of Bone Fracture Among Postmenopausal Women. Arch Intern Med. 2005;165:1890-1895.
6. Trock J. Natl Cancer Inst, 2006.
7. Qin LQ, XU JY, Wang PY, Hoshi K. Soyfood Intake in the Prevention of Breast Cancer Risk in Women: A Meta-Analysis of Observational Epidemiological Studies. Journal of Nutritional Science and Vitaminology. 2006; 52 (6): 428-436.
8. Lampe JW et al. Plasma Isoflavones and Fibrocystic Breast Conditions and Breast Cancer Among Women in Shanghai, China. Cancer Epidemiol Biomarkers Prev. 2007;16(12): 2579–86.
9. Lee SA et al. Adolescent and adult soy food intake and breast cancer risk: results from the Shanghai Women's Health Study. Am. J. Clinical Nutrition. 2009; 89: 1920 - 1926.
10. Pendleton JM et al. Phase II trial of isoflavone in prostate-specific antigen recurrent prostate cancer after previous local therapy. BMC Cancer. 2008; 8:132.
11. Yan L, Spitznagel EL. Soy consumption and prostate cancer risk in men: a revisit of a meta-analysis. Am. J. Clinical Nutrition. 2009; 89: 1155 - 1163.
12. Alicia A. Thorp AA, Sinn N, Buckley JD, Coates AM, Howe PRC. Soya isoflavone supplementation enhances spatial working memory in men. British Journal of Nutrition. 2009; 102 (9): 1348-1354.


















